Providencialmente Provinciano e Piegas

Nacional

Não é um providencial senhor de Santa Comba Dão, mas parece. Pelo menos, parece pensar muito como ele – e se calhar nele, também. Passos Coelho tem reaparecido por aí – apenas a espaços, como um verdadeiro piegas – para dizer fundamentalmente duas coisas: que se voltar à política será um mau sinal; e que se o fizer, vem acompanhado do Chega e da IL. Isto significa que Passos se vê a si próprio como salvador da pátria, iluminado, que há-de voltar se houver nevoeiro. E significa também que, quando tiver de sair das cavernas para salvar o país das trevas, tenciona fazê-lo com a ajuda da extrema-direita institucionalizada. Para quem é que isto pode constituir novidade, mesmo?

Em matéria de direitos, liberdades e garantias o governo de Passos Coelho significou o maior retrocesso do país em décadas. Perpetrou sobre quem vive do seu trabalho os maiores cortes e sacrifícios alguma vez impostos, cujos efeitos só não foram maiores ou mais dolorosos porque o Tribunal Constitucional o impediu. Nem a já de si parca acção social para crianças (abonos) ou idosos (pensões) escapou incólume à gadanha da troika nacional. Até então, nunca ninguém tinha roubado tanto a quem tinha tão pouco.

O resultado foi medíocre para o povo, mas óptimo para os ricos e muito ricos. O empobrecimento dos primeiros foi proporcional ao contínuo crescimento lucrativo dos segundos, disseram-no todas as estatísticas do “legado” da troika. Uma banca perdoada e safa, a lucrar como nunca, que teve em Passos um dos melhores e mais úteis serventuários chefes de governo no pós-25 de Abril.

Volvido um tempo de silêncio e exílio, Pedro Passos Coelho constata que tem à sua espera as alas mais reaccionárias do país. Desde os multimilionários, até aos votantes saudosistas daquilo que nunca conheceram ou experimentaram. Mas é o seu palco, e é inevitável que a fome se junte à vontade de comer. Porém, não pense tão facilmente que, passado este tempo, a memória colectiva faliu como as Tecnoformas desta vida.

Ainda que muitos se esqueçam ou queiram esquecer-se do tenebroso tempo da troika, haverá tempo suficiente para lembrar esse passado. Não por saudosismo, mas pela simples razão de que há ainda quem esteja disposto a tudo fazer para que tal catástrofe social não se repita. Tal como o de Santa Comba Dão, Passos Coelho também não passará.

1 Comment

  • José Mendes

    8 Março, 2026 às

    Os fascismos históricos não chegaram ao poder por golpes de Estado nem por vitórias eletorais esmagadoras. Chegaram ao poder por alianças dos Conservadores que pensaram usá-los com sua popularidade, ações de massas e ações violetas, para depois os descartar. Afinal ficaram com eles.
    Não é só Passos Coelho nesse esforço. Há um percurso por trás
    Marcelo, talvez o Presidente que mais erodiu a democracia liberal em Portugal.
    O seu objetivo estratégico, desde antes de ser eleito, foi levar a sua família política para o poder executivo…
    Dramatizou e instrumentalizou a catástrofe dos incêndios de Junho e Outubro de 2017 para desgastar o governo percepcionado como de esquerda. O discurso de Oliveira do Hospital violento e populista visou fracturar a base parlamentar do governo. Ousou tentar levar o parlamento a aprovar a Moção de Censura apresentada pelo CDS-PP.
    Falhou, mas o seu populismo e informalidade foi oxigénio para o nascimento do chega, racista, fraturante, reaccionário e para o estímulo à lawfare contra figuras públicas reestimulando a judicialização da política estimulada por Passos Coelho como instrumento de decapitação de parte da elite portuguesa, criar o vazio que é sempre preenchido por quem mexe os discretos cordéis do cancelamento.
    Fugiu de Belém, com medo da pandemia, escondeu-se em casa de Cascais de onde foi resgatado pelo pressão da sociedade. Uma vergonha, mas recuperou e usou a pandemia para acentuar o populismo designadamente através da gestão da figura militar fardada que, foi chave para derrotar Marques Mendes impedindo-o de ser seu substituto. Pior foi a campanha persecutória estigmatizando as comemorações populares do 25 de Abril, 1.º de Maio, sindicalistas, PCP-PEV e Festa do Avante. Tudo a abrir caminho para o Chega. PS, PSD, CDS, etc. fizeram coro. Foi o Massacre das forças da liberdade e da luta social.
    Conseguiu a reeleição à custa de António Costa numa manobra que retirou presença responsável da área democrática, que veio da oposição democrática, nessa campanha eleitoral onde o seu populismo pairou acima dos populismos estridentes de Ana Gomes e André Ventura. De uma pancada só bateu na chamada esquerda e alimentou o populismo. Um soma e segue para o Chega.
    Instrumentalização da discussão pública da aprovação do Orçamento do Estado numa campanha sem precedentes contra o PCP-PEV para finalmente destruir a base parlamentar do governo de António Costa. Um golpe que fez cair o governo e o PCP-PEV. Conseguiu pôr o governo PS de António Costa a fazer um acentuado desvio de direita a copiar o original do PSD e Chega muito reforçado.
    Mais uns golpes de lawfare e o PS sai do governo para não voltar lá, como veremos.
    O PS, desorientado, levou Pedro Nunes Santos a Secretário-geral para fazer desaparecer a esquerda e dar espaço à direita. Aqui foi mérito do Presidente Marcelo à custa do demérito, mesmo infantilidade, do PS, perturbado pela decapitação de António Costa.
    Marcelo levou a AD de Montenegro (o lento rústico) ao poder executivo. Alcançou o seu objectivo não dito.
    Deixa Portugal em guerra ao lado de Trump, Netanyahu e Zelensky. Não há pior escolha!
    Deixa a Direita Conservadora no governo e Passos Coelho a preparar o apoio dos Conservadores às forças reaccionárias neofascistas.
    Pior para o fim da democracia de Abril impossível!

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