Vejam como o imperialismo faz o que quer: um país arroga-se o direito de decidir que presidentes derrubar e sequestrar. Vejam a hipocrisia: a UE dos valores e do direito internacional, diz-nos que afinal até pode ser porque nem gostava de Maduro. Vejam o cinismo: todos os partidos sociais-democratas e liberais, do BE ao PS, que, durante anos, reproduziram a narrativa mentirosa do imperialismo sobre o malvado regime de Maduro, vêm agora carpir lágrimas de crocodilo pela morte do mítico “Direito Internacional”.
Pois bem, vejam as evidências: não há qualquer espécie de “Direito Internacional”. Só existe a força militar e os interesses de cada Estado e de cada classe. Sempre foi assim. A diferença é que agora Trump admite ao que vem: diz, textualmente, que «vamos ficar aqui, vamos governar a Venezuela (…) as grandes e lindas companhias petrolíferas americanas já aí vêm para colher os lucros das grandes reservas de petróleo da Venezuela».
Vejam como está a dizer, da forma mais clara possível, que vai apoderar-se de todas as riquezas da Venezuela, governá-la como um protectorado e escolher um governo que defenda os interesses dos EUA. Vejam o colonialismo: os EUA avisam que todo o «hemisfério ocidental» é seu e deixam ameaças públicas contra Cuba, Colômbia e México, pátio traseiro do império escolhido pelo Destino Manifesto. Vejam as veias abertas de um continente inteiro de nações saqueadas ao longo de séculos, invadidas, violadas tornadas “especialistas em perder”, como escreveu Galeano, para que os EUA pudessem vencer sempre todas as batalhas, de desenvolvimento ou de bombas. Vejam a longa lista de golpes e invasões patrocinados pelos EUA contra outros governos da América Latina: México, 1913, Honduras, 1905 e 2009; Cuba, 1933, 1952 e 1961; Guatemala, 1954; República Dominicana, 1963 e 1965; El Salvador, 1961 e 1979; Panamá, 1941, 1949, 1969 e 1989; Brasil, 1964; Bolívia, 1963, 1964 e 1971; Chile, 1973; Argentina, 1976; Uruguai, 1973; Haiti, 2004; Equador, 1963; Grenada, 1983; Nicarágua, 1909, 1912, 1933 e 1981; Suriname, 1980; Porto Rico, 1950 e digam-me se este novo golpe na Venezuela, onde, já em 2002, também chegaram a raptar Chávez, tem alguma coisa a ver com narcotráfico.
Vejam Luís Montenegro, o mais lambe-botas de todos os líderes europeus, que perante tudo isto, tem a dizer que “constatamos o papel dos EUA na promoção de uma transição estável, pacífica, democrática e inclusiva na Venezuela”. Vejam como ele fala por nós, por mim e por ti, por todos os portugueses. Vejam como os jornalistas portugueses, tão ciosos da inviolabilidade das fronteiras ucranianas, se referem agora, tão lestos e ligeiros, a esta invasão como uma “operação especial” para “devolver liberdade e democracia” e ao rapto do chefe de Estado de um país soberano como “extracção do presidente”. Vejam também, como a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, a segunda maior reserva de gás do hemisfério ocidental, a segunda maior reserva de ferro do continente e uma das maiores reservas de bauxite, minério essencial à produção de alumínio, do mundo.
Vejam a arrogância chunga, indecente, miserável, intolerável para qualquer ser humano decente, com que Trump olha para as câmaras e diz ao mundo que «quem se mete com os EUA está fodido» [sic]. Vejam como Maduro, um chefe de Estado que outra coisa não fez a não ser pedir diálogo, negociação e paz, saiu de um avião acorrentado e com um saco na cabeça, enquanto os guardas faziam tik-toks.
Vejam que só a força resulta perante a agressividade deste império ilegal e assassino, que rapta na Venezuela, que assassina no Irão, que extermina na Palestina e faz tudo o mais que quiser e lhe apetecer, incluindo um dia, talvez, até aqui em Portugal, porque já não há União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, porque a Venezuela não tem armas nucleares nem misseis hipersónicos e porque a China ainda não decidiu travar esta selvajaria.
Vejam a prova de que Maduro não era qualquer tipo de ditador: sem ele, a Revolução Bolivariana não caiu, a Força Armada Nacional da Venezuela não traiu, o seu governo não se rendeu e o seu povo já se levanta, furioso, armado, organizado e verdadeiramente empoderado, para ocupar as avenidas da terra que é só sua e escorraçar os cobardes agressores estado-unidenses. Vejam como foi, para a maior potência militar do mundo, simultaneamente tão fácil capturar Maduro e tão difícil capturar Bolívar e Chávez. Vejam como uma revolução não é um homem e vejam se é possível raptar 28 milhões de venezuelanos que amam a sua pátria.
Vejam isto tudo. Vejam o que sempre dissemos. E vejam bem, como a Venezuela é indomável, digna, independente, e nunca se renderá.