A anunciada abstenção do PS ao Orçamento do Estado para 2027, quando ainda não se conhece o documento final, é, resumidamente, a subscrição da ação política deste governo (PSD/CDS) e, pior, o esvaziamento da discussão orçamental e do poder conferido à Assembleia da República.
De um ponto de vista meramente empírico o PS é, portanto, cúmplice da atual carestia de vida e valida a linha governativa do governo em matérias como o desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, a degradação material e iniquidade de acesso no ensino público, o interesse económico na crise energética, e o agravamento do acesso à habitação digna e o controlo de custos no mercado de arrendamento.
Tudo isto é, compreensivelmente, grave, mas não configura, necessariamente, uma surpresa, tratando-se da costumeira resposta histórica da social-democracia perante a crise do capitalismo.
Está no campo do miserabilismo ideológico, e se de campo se trata, fica por demais evidente que o PS não é, há muito, um partido que se posicione à esquerda. Vamos mais longe, passando para campos relvados, parafraseando Jesus, o selecionador, que por sua vez parafraseou o seu (enigmático) amigo-professor, que, por fim, lhe terá citado Marx: “a prática é o critério da verdade”, e enquadrando isto à luz do que é o exercício político do PS, concreto e observável, afirmamos, algo que tampouco será (outra) surpresa, que é este um partido de direita.
Este posicionamento, perante o Orçamento do Estado para 2027, não permitirá apenas que este governo, de índole neoliberal, prossiga o seu caminho de destruição dos serviços públicos, do empobrecimento generalizado ou da fidelidade canina à ordem fascizante mundial, encabeçada pela administração estado-unidense. Permite, antes de mais, a tomada de posições enviesadas nesta matéria orçamental, em particular por parte do Chega, a quem os seus donos, financiadores, e sabe-se lá mais quem, exigiriam a viabilização do documento, que muito lhes corresponderá em vontade e interesse.
Assim, esse enviesamento, que estará mascarado de insatisfação política, ou gritaria desvairada, no plenário, capitalizará (novamente) o justo descontentamento popular, monopolizará (mais ainda) tempo de antena e contribuirá (outra vez) para o encepamento dos processos democráticos com a frioleira do “antissistema”.
Cobrindo Marx de razão, que de tanta nem nos mais rigorosos invernos passa frio, a prática demonstra que o falhanço da social-democracia é a antecâmara do fascismo. São estas as portas que um orçamento ainda desconhecido já franqueou, num esforço mediado entre PS, PSD e CSD, uma entrada já antes engalanada pelo grande capital e os órgãos de comunicação social ao seu serviço, que faz lembrar, à escala, os acordos tripartidos entre Chamberlain, Lebrun e Hitler, e outro mais qualquer, se depois assistirmos à elocução de Seguro, sua excelência, que também sem conhecer o documento, aplaudiu o entendimento, independentemente das suas consequências sociais, políticas e democráticas.
Já se vai dando por certo que mais fácil é imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, mas o que se evidencia por aqui no burgo, e que vem dar um empurrão que não fazia falta, é que mais rápido se pretende o fascismo que permitir a experimentação do poder popular, democrático e revolucionário.
Com tanta porta escancarada, só faz falta lembrar que outras, de passagens já bem estreitadas, se fecham, é que não é possível unir a esquerda com partidos que não habitam esse espaço.
Mas, enfim, para não ficarmos atrás de ninguém, terminamos nós citando, Pancho Villa, por ora: “¡Ánimo, cabrones, que más adelante está más feo!”