Autor: Ivo Rafael Silva

Um desgraçado postal com selo PS/PSD/CDS

É possível que poucos se tenham apercebido disso mas, em Novembro de 2020, os Correios de Portugal completaram 500 anos de existência. Não houve grande celebração, que se tenha notado, nem se terão cantado «parabéns» e por uma razão muito simples: a coisa está mais perto da morte do que dos «muitos anos de vida». Mas o postal que ilustra a desgraça da empresa não é anónimo, tem três siglas. As mesmas que há anos se vêm entretendo a fatiar o serviço público entregando-o às «maravilhas» da gestão privada. O resultado está à vista: de entidade pública sólida, confiável e útil, os CTT passaram ao topo da liderança das queixas dos portugueses.

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O PS sabe bem de que lado está

Foto: STEVEN GOVERNO/LUSA

Não podemos cometer essa insensibilidade de censurar o PS por ter saudades do colinho dos grandes patrões deste país. São muitos anos de ligação. Das origens aristocráticas ao oportunismo pós-25 de Abril, os laços são profundos, as raízes estão todas lá. Mesmo que nunca os tenham verdadeiramente abandonado, e mesmo que, como se sabe, bom filho a casa acabe sempre por tornar, é também certo que a CIP não deixou de protagonizar certos «amuos» pelas poucas mas efectivas políticas que o PS aprovou e que tiveram o cunho do PCP. O que vimos esta semana com a emenda de mão do PS a uma proposta sobre legislação laboral que o mesmo PS tinha aprovado na generalidade há uns meses, veio evidenciar, mais uma vez, à saciedade, que bem razão tinha o PCP ao rejeitar o Orçamento de Estado proposto pelo governo. Quem se coloca desta forma despudorada e às claras, mesmo que em contraponto com decisões anteriores, ao lado de o que defende a vampiragem da CIP, não pode, de modo algum, contar com o apoio dos trabalhadores portugueses.

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Quem quis socialismo na gaveta não vai ter a esquerda num armário

© Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República

Há duas leis que são comuns a qualquer sociedade capitalista: a primeira, é que todos vão acabar por ficar ricos; a segunda, é que se isso não acontecer, a culpa será dos comunistas. Como a primeira nunca acontece, a segunda é sempre certa. Como se sabe, da poluição mundial aos laterais do Benfica, tudo é culpa de comunistas. Há décadas. Ninguém se pode espantar, pois, que nesta questão do Orçamento do Estado para 2022 e de uma provável – mas não necessariamente obrigatória – queda do governo, também assim seja. Mesmo que mais nenhum partido tenha votado favoravelmente a uma proposta que só o PS – repito, só o PS – aprovou.

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PS, PSD, CDS: Cor de Campanha Quando Foge

Ainda sou do tempo em que, da esquerda à direita, não faltava quem acusasse o PCP de esconder a sua imagem histórica atrás da sigla CDU. «Uma farsa», gritavam, «uma aldrabice», insultavam, «uma espertice», avisavam os arautos da «identidade». Não deixa, por isso, de ser absolutamente irónico que, neste ano de centenário do Partido e de campanha eleitoral autárquica, estejamos todos a ver precisamente a antítese dessa pungente narrativa. Enquanto que o PCP decide celebrar 100 anos inundando o país de milhares de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, o PSD faz uma campanha autárquica praticamente sem laranja e o PS mete o punho vermelho na gaveta. O CDS, bem, esse nem sequer conta, porque dentro do bolso do PSD não se lhe consegue ver a cor.

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Candidaturas Tiririca: Quem ganha com isso?

Há uma diferença abissal entre usar humor na política e ter uma política que nada mais procura ser do que humor. Nesta campanha ou pré-campanha para as autárquicas temos assistido a um aumento exponencial de candidatos-palhaço, que exploram com sucesso tudo o que garanta parangonas, de gente que brinca aos outdoors, aos slogans, que anseia pelas partilhas e sobretudo pela fama. Haverá várias explicações para o fenómeno, desde logo pela força presente do terreno virtual, mas uma das que quero aqui salientar é o imanente sentimento de desprezo, de menorização do acto e até dos cargos em questão da parte de quem leva a cabo uma campanha de puro e duro espalhafato. Porque não se trata só de desprezo e menorização do acto eleitoral em si; trata-se de desprezo e menorização da democracia como um todo.

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PS e a Ferrovia: A Memória Curta

Foto: José Sena Goulão (Lusa)

O PS e, em particular, o sonoríssimo e ufano Pedro Nuno Santos, têm andado numa roda viva de anúncios e gabarolices a respeito de medidas tomadas em relação ao sector ferroviário nacional. De súbito, o PS parece ter-se tornado no partido «dos comboios», no arauto da «recuperação da ferrovia», do «salvamento das máquinas ao abandono», do investimento e da promoção de um transporte até aqui efectivamente deixado ao abandono. Tudo estaria certo e seria merecedor de aplauso não fosse a colossal hipocrisia que todo o aparato propagandístico não deixa de ocultar. Afinal de contas, este PS, que é o mesmo e não outro, foi também de forma inequívoca um dos grandes responsáveis – por acção directa e por omissão – pelo abandono, pela destruição, pelo enfraquecimento da ferrovia em Portugal nas últimas décadas.

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PAN: O Partido de Estimação do Capital

Quando o sistema capitalista se sente ameaçado reage. Defende-se. Ataca. Se puder, aniquila o adversário, derruba o obstáculo, impede o seu crescimento. Com inúmeros tentáculos, tantos quantos os seus múltiplos interesses, não é por outro lado expectável que leve ao colo ou seja mansinho face a quem possa minimamente pôr em causa o seu domínio selvático. Vem isto a propósito da completamente desproporcionada atenção mediática que o PAN e o seu congresso tiveram nos media durante os últimos três dias. E a conclusão é simples: o PAN é um partido “de estimação” do sistema, amigável, de ecologia fofinha, que como não belisca interesses instalados tem neles direito a um “colinho” como nunca se viu com partidos ou movimentos ecologistas.

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O Sapateiro, o Rabecão e a Idade das Trevas

A Idade Média foi ganhando o timbre de ser ou ter sido a «idade das trevas». Mas essa fama tem sido já competentemente contraditada pela historiografia séria. Sucede, pois, que esse epíteto, outrora imaginado sobretudo por aqueles que viam na ausência de cristianismo o caos da civilização, é muito mais válido nos tempos actuais do que em qualquer outro período da história até aqui conhecida. A negação da ciência e do método científico em níveis estratosféricos;  a ascensão meteórica do «oculto» e do «inexplicável» como razões, princípios e fins, em si mesmos; o triunfo mediático da dúvida insincera baseada não na vontade de saber, mas no propósito de estabelecer uma correspondência com a crença ou a convicção interior; a assunção de que «todos nos estão a enganar» e há «interesses instalados» nas mensagens e ideias veiculadas pela ciência, suposição essa que, curiosamente ou nem tanto, nunca é colocada no âmbito do poder financeiro (que efectivamente engana e que efectivamente controla tudo e todos).

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