Bem-vindos ao «pelotão da frente»

Nacional

Ano da desgraça de mil novecentos e oitenta e seis. No dia primeiro do mês Janeiro, Portugal é formalmente anexado a uma grande corporação capitalista, que para levar a cabo o seu desejo de domínio e monopólio europeu e mundial, necessita, como é normal neste ciclo, de fiéis serventuários. Atribuem-nos milhões para adoçar a boca e que são gastos como sabemos. Abate-se a produção nacional, sequestra-se a nossa capacidade económica, aniquila-se grande parte da nossa independência financeira, social e também política. Prometem-nos a «modernidade», a «solidariedade» e a oportunidade «imperdível» de entrarmos num «pelotão da frente» que, é preciso recordar a jactância, faria de nós «um grande, moderno e avançado país». Depois de anos de desbragada ilusão, o doloroso definhamento histórico salta à vista. Um retrocesso cujos indicadores sociais e políticos só encontram comparação em períodos de catástrofe, ou de pós-guerra. A realidade, essa teimosa, essa persistente, mostra-nos todos os dias – como o PCP na altura isoladamente afirmava – o grande sarilho, a grande tragédia, a grande farsa em que PS, PSD e CDS nos meteram.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união «dos 3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI.

A União Europeia presta-se hoje, perante o resto mundo, a um papel que a deveria envergonhar. Todavia, bem sabemos que o capital não tem moral, nem ética, especialmente quando agoniza. Como foi fácil, afinal, que ditames financeiros e económicos pusessem a nu a falsidade da apregoada solidariedade entre estados-membros. Como é fácil descartar um país e um povo inteiro, que, aparentemente, parece estar a cometer um “crime” de desobediência às regras definidas por burocratas da alta finança, só porque a vontade do seu governo difere da vontade de organismos não eleitos. Como é fácil manter os igualmente frágeis (como Portugal) aninhados e submissos, enquanto se espezinham os semelhantes que lutam contra a miséria que lhe querem impor. Difícil, senão impossível, é continuar a propalar a existência de “democracia” no seio desta União, feição ou característica que nunca teve, nem nunca terá.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união dos «3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI. Nada mais importa para além disso. As decisões, os mandos e desmandos partem da cúpula, sendo que os demais, em submissão, limitam-se a cumprir as ordens e a readaptar, se necessário, o discurso para esconder essa obediência. No meio de tudo isto sofrem os povos, sejam gregos ou portugueses, que com sacrifício continuam, sabe-se lá até quando, a alimentar um sistema que os ignora e maltrata. Uns sempre no topo, outros sempre de rastos. É esta a «modernidade». É este o «progresso». É este o chamado «pelotão da frente».