Crónica dos dias negros

Nacional

As eleições foram há um mês e um dia. Falou o povo, o PS decidiu responder ao apelo da esquerda e, entretanto, meteram-se ao barulho o Cavaco, os banqueiros, a direita mais conservadora e saudosista, comentadores e opinadores, no Expresso e no Observador, com particular incidência, com as suas três mãos: duas agarradas à cabeça e uma a bater no peito, em defesa dos superiores interesses da nação.
Nas televisões, a generalidade dos comentadores avisa para a desgraça dos mercados, a fragilidade de um possível acordo do PS com a esquerda e meia-dúzia de maluquinhos criam eventos no facebook para darem as mãos e saírem à rua contra qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é.

Cavaco entrou em pânico e convidou a minoria parlamentar a formar governo, mesmo sabendo que será chumbado, deixando de lado a estabilidade política e os mercados – outra vez os mercados. Paulo Rangel, de braço dado com o seu colega no Parlamento Europeu, Francisco Assis, vão lançando avisos para as tempestades que se avizinham.

Pelo meio, Cristas levanta-se e revela-nos que foi buscar inspiração a Jesus para ser ministra e Calvão da Silva – valha-me deus, que a chuva no Algarve é o criador a colocar-nos à prova – de fato completo e galochas. Foi obra do senhor, que ainda chamou um octogenário para a sua beirinha, tão bom e misericordioso, e o pé-de-meia para um segurozinho, talvez a piscar o olho à ala de ressabiados do PS, que devemos ter sempre algum de lado para uma necessidade, como se o nosso quotidiano não consumisse toda a nossa necessidade.

O dono dos jornais diários de Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro assina um editorial em que avisa para o perigo comunista e assume o combate aos vermelhos, que medo, que nos vêm tirar tudo. Bem vistas as coisas, só tem medo que lhe tire alguma quem tem alguma coisa para ser tirado. E a esmagadora maioria da população não tem.

A direita pinta os dias negros, a comunicação social faz-lhe eco, ou oco, como preferirem, contra tudo aquilo que devia ser o jornalismo. Ontem mesmo, lia-se por todo o lado que os refugiados que chegarão a Portugal terão médico de família e isenção de taxas moderadoras. Os jornalistas, sem conhecerem ou procurarem conhecer a lei de asilo e o estatuto do refugiado, e nós, o povo, pequeninos que somos, enchemos o peito de brio para os que são ainda mais pequenos que nós e dizemos que não pode ser, e os nossos, os nossos pobres, que ainda há uns dias eram os malandros que viviam à custa do rendimento mínimo, sem quererem trabalhar, malandros, a viver à custa de quem trabalha, como eu.

Sem percebermos que nós é que estamos mal, que aceitamos não ter médico de família como se fosse normal, e pagamos tudo e mais alguma coisa porque nos dizem que tem que ser assim, que pagamos ou temos o abismo, quando o Ricardo Salgado, coitado terá a sua reforma aumentada para o triplo. O mesmo Salgado a quem o agora ministro Calvão da Silva, valha-me deus, atestou a idoneidade.

Ao final do dia, o Expresso titulava que, caso o PS forme governo, os funcionários públicos seriam aumentados quatro vezes no próximo ano, quando o que deveria dizer é que os roubos nos salários de que foram vítimas seriam repostos, ainda que sem retroactivos.

Que PSD e CDS entrem em pânico por perderem os lugares, mesmo apesar das nomeações em catadupa que surgiram antes das eleições, para boys e girls de toda a espécie e feitio, é uma coisa; que haja órgãos de comunicação social que se prestem ao seu serviço, é vergonhoso, mas, ao que parece, também e coisa que não abunde por aqueles lados.

Que PSD e CDS pintem os dias de negro, é uma opção, que a comunicação social esteja, descaradamente ao seu serviço, é um negro diferente, um negro triste, um negro cinzento tão pobre, tão sem nada que faz lembrar os anos em que só à força do lápis azul era possível travar a verdade. Os tempos são outros, os lápis são cinzentos, como são cinzentos e negros os interesses que se movem em alguns meios dos nossos órgãos de comunicação.