De pequenino se torce o bastão extensível

Nacional

A esmagadora maioria dos fenómenos sociais, económicos, culturais e até pessoais, são mais claros e mais bem explicados quando analisados à luz da luta de classes. Mas há alguns que saem desta esfera de análise e pertencem a algo milenar: a estupidez humana.

Isto a propósito da celebração do Dia Mundial da Criança em Portalegre. Achou por bem a câmara municipal, presidida por Adelaide Teixeira, independente do movimento CLIP – os independentes, esse milagre da evolução democrática -, e a PSP local integrar a simulação de uma manifestação nas comemorações da data. Um mini-corpo de intervenção contra um mini-grupo de manifestantes. Crianças armadas com pequenos escudos e bastões a serem atingidas por bolas de papel que simulam pedras da calçada arremessadas por outras crianças.

Parece que não mas estamos no séc. XXI. Parece que não mas estamos num país onde a discussão em torno das cargas policiais tem existido frequentemente, e onde, apesar de muitos tentarem escondê-lo, a violência policial é mesmo um problema. Parece que não mas esta actividade foi aprovada e/ou assistida por oficiais da PSP, autarcas, professores, auxiliares da acção educativa e provavelmente pais.

Esta é daquelas que mói a cabeça e me deixa sem palavras. Por isso mesmo, e porque diz tudo o que é preciso, cito o pequeno texto que o meu camarada de blog, Bruno Carvalho, escreveu no seu mural de Facebook:

“Há 68 anos, em plena ocupação nazi-fascista, um grupo de crianças
napolitanas não pôde brincar aos polícias de choque e aos manifestantes.
Os «scugnizzi», meninos de rua, órfãos e miseráveis, pegaram em armas e
juntaram-se à insurreição que o povo napolitano protagonizou e que
expulsou pela primeira vez as forças ocupantes de uma grande cidade
italiana. 

Há 58 anos, durante a ocupação francesa, o pequeno Omar foi
assassinado pelas tropas paraquedistas, em Argel, quando o combatente
da FLN, Ali La Pointe, o tentava proteger. Catarina Eufémia estava
grávida e tinha um filho ao colo quando a assassinaram. 

Na obra de
Soeiro Pereira Gomes, Esteiros, o escritor comunista dedicou o livro aos
“filhos dos homens que nunca puderam ser meninos”. Foram gerações e
gerações de crianças submetidas ao trabalho infantil, à miséria e à
guerra, foram décadas de luta para que fossem reconhecidos os direitos
dos meninos à paz, à liberdade, aos estudos, às brincadeiras e ao
convívio social para que venha uma autarca embebida dos mais râncios
valores inculcar-lhes a ideia de que o protesto merece a brutalidade das
forças policiais. 

Num país normal, Adelaide Teixeira mereceria o
desprezo absoluto e não teria outro caminho que a demissão.
Mas não é novidade. No mesmo dia, o
Estado levou centenas de crianças ao Pavilhão Atlântico para assistirem a
exercícios e manobras policiais. No fim, como durante o fascismo,
cantaram em coro o hino nacional.

Depois de ler o Bruno continuo a achar que isto é mais estupidez humana que outra coisa, mas caramba, a luta de classes está lá sempre. Às vezes bem camuflada, mas está.