Eventualmente, precários – Um abraço de Leixões até Setúbal

Nacional
Foto de Carlos Santos – Global Imagens

Hoje foi o dia, mais um dia, em que o Governo do PS alinhou num plano para furar a luta de cerca de 90 trabalhadores, que o são eventualmente, num plano orquestrado em conjunto Operestiva. O pretexto é, como não podia deixar de ser, a Autoeuropa. A empresa que é o alfa e o ómega do que são as nossas exportações e, por isso, tem de valer tudo. Não podemos pôr as pessoas à frente do PIB, não vá o PIB atropelá-las, o PIB que vai subindo a toda a velocidade, rumo nos píncaros de todos os PIB, nos Himalaias dos PIB. A Autoeuropa e os seus trabalhadores, que também são um exemplo de união e luta e eram os melhores do Mundo até dizerem não à administração. A partir daí, passaram a ser uns irresponsáveis que, citando Camilo Lourenço “mereciam salário zero”.

O que indigna alguns comentadores e fazedores de opinião, não é haver um Porto com dimensão internacional que funciona com dez contratados e 90 eventuais. Não são precários, estão abaixo dos precários. Estão no nosso neorrealismo, na Seara de Vento, nos Gaibéus, nos Esteiros. Estão na praça virtual à espera de um SMS que lhes diga se trabalham ou não, se amanhã ganham ou não. Assinam contratos por turno. Dois turnos, dois contratos. Na era da WebSummit, do choque tecnológico, do minuto-ao-minuto, é o sistema que nos devia chocar a todos. São os estivadores, os trabalhadores da Efacec, os trabalhadores das corticeiras, dos têxteis. Sim, ainda há quem trabalhe agarrado a uma máquina de costura, horas a fio, sem poder levantar a cabeça, com batas sem bolsos para não poderem ter telemóveis. É assim o nosso século XXI.

Em Leça da Palmeira, acho que uma grande parte das pessoas da minha idade, pelo menos a norte da freguesia, passou por ser eventual. Era o nosso primeiro emprego, nas férias ou às sextas-feiras ou nos dias em que não tínhamos aulas, íamos para os transitários. Assinávamos a folha – o contrato – e trabalhávamos noite fora. No meu primeiro dia, entrei às 08h00 de sexta e saí às 09h00 de sábado. O último camião a ser fechado era amarelo e azul, já nem foi no cais, foi mesmo na rua, estávamos mortos. Ser eventual é isto.

Também há precariedade aqui ao lado, em Leixões, onde um sindicato conseguiu a proeza de, entre 1981 e 2017, manter exatamente o mesmo número de associados. Durante 36 anos, o sindicato manteve o monopólio dos trabalhadores com contrato. Talvez por isso haja a crença de que os estivadores ganham bem. Porque há um grupo de estivadores que vivem à custa da exploração de outros estivadores, com quem conseguem estar lado a lado sem sentir vergonha na cara. Sem qualquer arrependimento ou simpatia, fazendo o papel do capataz que mantinha os escravos debaixo de olho. Só que a História recusa-se a parar e há avanços positivos porque houve estivadores que não cederam às intimidações e ameaças. Esses sim, os trabalhadores.

Qualquer que seja o resultado desta greve dos estivadores, eles já ganharam. Ganharam a estima e solidariedade dos outros trabalhadores, ganharam o respeito de colegas que não são precários, ganharam a inveja daqueles que precisam de entrar escoltados, num autocarro com vidros escuros, que os esconde a eles mas não esconde a sua vergonha. Ganharam consciência de classe.

Bruno Dias, deputado do PCP, no piquete de greve

4 Comments

  • Nunes

    26 Novembro, 2018 às

    Lá tinha de vir a ratazana «Jose», amiga dos senhorios e dos patrões.

  • Jose

    25 Novembro, 2018 às

    A trabalho precário – emprego precário.
    Para além disso é asilo.

  • Adérito

    22 Novembro, 2018 às

    Um abraço aos trabalhadores que mostraram ao Pais o que de verdade existe espalhado por todo o lado. Precaridade. Um bom artigo que assino por baixo. Um belo texto que devia ser lido e relido por todos. Principalmente pelos comentadores do regime… Que escondem a miseria a que muitos trabalhadores estão ainda sujeitos.

  • Adérito

    22 Novembro, 2018 às

    Este comentário foi removido pelo autor.

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