Gás abafado em silêncio

Nacional

Um bairro com forte presença curda, na cidade destruída de Aleppo, na Síria, foi bombardeado com armas químicas proibidas. O ataque foi reivindicado pelo grupo Jaysh al-Islam, uma facção sunita apoiada pela Arábia Saudita, uma daquelas que a imprensa portuguesa designava como “rebeldes” entre 2011 e 2014.

O grupo Jaysh al-Islam é uma das principais facções paramilitares na coligação de forças sunitas, salafistas, reaccionárias ou mesmo islamofascistas que combatem o Exército Árabe da Síria, comummente designado pelos media nacionais como “forças leais a Bashar Al-Assad”. Na esfera política, o Jaysh al-Islam é liderado por um homem chamado Mohammed Alloush, figura principal das facções jihadistas nas negociações que decorrem em Genebra com vista a eventual fim dos combates num país devastado pela acção dos grupos criminosos – sírios e internacionais – que para ali convergiram depois da destruição e da pilhagem de outros países, como a Líbia.

O ataque jihadista com armas químicas em Aleppo foi silenciado, ignorado e desvalorizado. Em Portugal, onde o ataque com armas químicas ocorrido no Verão de 2013 na zona de Damasco foi noticiado de forma extensiva – sempre no pressuposto, num demonstrado, de ter sido levado a cabo pelo Exército -, poucos saberão que uma facção jihadista declaradamente apoiada pelo principal aliado dos Estados Unidos da América na região levou a cabo um bombardeamento com armas proibidas, que provocou vítimas fundamentalmente entre a população civil curda. Creio que é totalmente legítimo que nos interroguemos acerca das razões que determinaram a cobertura extensiva do ataque de 2013 e o silenciamento generalizado do ataque desta semana.

Entretanto, de Genebra chegam notícias de uma interrupção abrupta das conversações de paz. De acordo com as notícias foram os chamados “grupos da oposição” que quebraram as conversações, enquanto a destruição da Síria continua.

Uma enorme porção do seu território continua ocupado por grupos islamofascistas de várias filiações, boa parte das quais directa e explicitamente apoiadas pelas ditaduras reaccionárias do Golfo. Na Síria, a destruição tornou-se num género de “novo normal” que por cá nos habituámos a observar como a consequência natural de uma certa selvajaria típica dos povos não ocidentais. Nada mais falso. Uma observação mais atenta do conflito que desde 2011 reduziu as principais cidades do país a escombros revela-nos um povo resistente e empenhado na resistência contra a destruição e o desmembramento do país. De resto, se como muitos defendiam em 2012 e 2013 houvesse de facto um movimento interno de oposição “democrática” em armas contra o governo sírio, os combates teriam há muito resultado na derrota das chamadas “forças leais a Bashar Al-Assad”, que é a expressão mediática para designar o Exército Árabe do país.

A Síria é uma lição para o mundo.