Imbecis, manipuladores e sem vergonha

Internacional

O Bloco de Esquerda, através do seu portal esquerda.net, divulgou uma carta de “autores e intelectuais” sírios e não só, intitulada “O Anti-imperialismo dos Imbecis”, que acusa jornalistas independentes de o serem. Imbecis e anti-imperialistas. O que parecia, finalmente, um exercício de autocrítica, é, afinal, um mergulho no lodo em que se move. Que a posição política internacional do BE varia de acordo com o vento, não é surpresa. Os líbios e sírios sentem-no na pele, todos os dias, desde há muitos anos. Ainda recentemente, no Parlamento Europeu, os eurodeputados bloquistas se abstiveram numa emenda, apresentada, entre outros, por Sandra Pereira, da CDU, que visava o levantamento das sanções à Síria. Marisa Matias e José Gusmão não têm posição sobre se um povo deve ou não viver sob sanções económicas.

Omran Daqneesh

Omran Daqneesh foi o rosto da violência dos combates em Aleppo, quando “os rebeldes” anti-governamentais, na verdade membros associados ao Daesh, Frente Al Nusra e outros grupos radicais islâmicos, estavam a ser expulsos da cidade pelas força sírias, com o apoio da Rússia. Os media venderam-no como símbolo da violência do regime. Não era. Não se trata aqui de considerar a oligarquia russa melhor do que a estado-unidense, na prossecussão dos seus interesses. Trata-se, neste caso, de constatar que havia várias forças a combater o governo sírio, que tinha apoio da Rússia, entre elas, os EUA e, por coincidência, o ISIS.

A carta

Na referida carta, divulgada a 27 de Março, os subscritores e o BE consideram que os jornalistas independentes e plataformas alternativas, “apresentando-se como ‘opositores’ ao imperialismo, prestam regularmente uma atenção particularmente seletiva às questões da “intervenção” e das violações dos direitos humanos. Esta atenção ‘seletiva’ alinha-se frequentemente com as posições dos governo [sic] russo e chinês. Quem não partilhe o seu ponto de vista perentório é muitas vezes (e falsamente) qualificado de “exaltado da mudança de regime” ou de idiota útil dos interesses políticos ocidentais”.

Até aqui, parece que, pela primeira vez na história dos conflitos, a cobertura mediática da guerra na Síria, feita pelos media dominantes, do The Guardian ao WaPo, passando pelo NYT e CNN, é aquela que o Bloco, juntamente com os subscritores da carta, considera a narrativa verdadeira. É sabido que os media subsidiários dos EUA desempenham e desempenharam um papel que acompanha a política externa estado-unidense, no seu caminho de ingerência externa em dezenas de Estados soberanos. Sempre a bem dos valores democráticos, claro. Ou não?

É que os próprios autores da carta consideram que “Por todo o mundo, do Vietname à Indonésia, passando pelo Irão, ao Congo, à América do Sul e Central, as provas que a potência norte-americana foi terrivelmente destrutiva são esmagadoras, em particular durante a guerra fria e no seu seguimento. O balanço das violações massivas dos direitos humanos que se acumularam em nome da luta contra o comunismo é claro. E no período pós-guerra fria, o da pretensa “guerra contra o terrorismo”, as intervenções dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque nada fizeram para sugerir uma mudança fundamental de práticas”.

Até aqui, parece que estamos a ler um manifesto anti-imperialista, mas continuemos:
Mas os Estados Unidos não estão na origem do que se passou na Síria, apesar das afirmações destas pessoas. Esta ideia, apesar de todas as provas em contrário, é o sub-produto de uma cultura política provinciana que insiste ao mesmo tempo na centralidade da potência dos Estados Unidos no mundo e no direito de identificar que seriam os “bons” e os “maus” num dado contexto politico [sic]”.

O fenómeno começa aqui. Não se percebe bem se é ingenuidade ou mesmo manipulação, da mais descarada. A Síria consegue ser, segundo o BE e os autores da carta, o único conflito no médio oriente, desde os primórdios do século XX, que não tem o dedo dos EUA ou dos seus interesses. Os EUA são, assim, o bom da fita, num cenário que envolve ISIS, Irmandade Muçulmana, ataques químicos que nunca existiram – mas que encheram as páginas dos media ocidentais, os verdadeiros –, Arábia Saudita e outros atores regionais que atuam a cobro das sucessivas administrações estado-unidenses. O único caso. Se fosse verdade, seria notável. Mas é demasiado delirante, até para o Bloco.

Tão amigos que eles são

Entre os signatários, está o inevitável Chomsky, vários representantes de grupos trotskistas, anarquistas e, curiosamente ou não, representantes religiosos. Constam ainda académicos e membros de organizações cujo financiamento nos leva, espante-se, ao Departamento de Estado dos EUA como é o caso da No Peace Without Justice. Parece mesmo um nome radical de esquerda, não parece? Que algumas pessoas estejam de boa-fé ao assinar a carta, dou de barato. Que um partido político de esquerda – social-democrata ou radical, conforme convém – partilhe esta visão, deveria ser preocupante para quem dele faz parte. Abaixo são apenas cinco dos nomes que fazem companhia ao Bloco, na sua notável campanha pela democracia, para além de uma série de gente para quem o ativismo é profissão:

Ali Akil: Fundador da Solidariedade Síria na Nova Zelândia, autor de um notável texto em que lamenta que os bombardeamentos – diretos – dos EUA em território sírio tenham chegado demasiado tarde. https://www.rnz.co.nz/news/national/328418/us-strike-%27too-little,-too-late%27-syrian-nzers

Mohammed Zaher Sahloul: Membro da Muslim American Advisory Council, organização com ligações à Irmandade Muçulmana.

Haid Haid: Membro da Chatham House, um célebre think-tank que, fora dos EUA, é o mais influente no que diz respeito às Relações Internacionais. É aqui que também se decide muito do que serão as políticas dos principais atores internacionais. Em semi-segredo. A Regra de Chatham diz que pode revelar-se o que se discute, desde que não se indique quem diz o quê.

Mayson Almisri: Membro do grupo Capacetes Brancos, cuja ligação ao Daesh e à Al-Nusra, nem a BBC consegue desmentir: “Nevertheless, there are other photographs and videos online that seem to show individual White Helmets supporting jihadists – from the so-called Islamic State group or the al-Nusra Front (al-Qaeda’s representatives in Syria) – either cheering their arrival in an area, or appearing to assist in an execution by removing the body afterwards. “There’s no way to deny it,” says Nur (not his real name) who helps manage the White Helmets’ media online. “Former volunteers were in pictures waving flags.”

Zeenat Adam: Ironicamente, fundadora da “Stop the Bombing Campaign”, na África do Sul.

3 Comments

  • Alexandre

    2 Abril, 2021 às

    Por último, ao ler o documento da «Esquerda.net» nota-se que Carlos Carujo limitou-se a traduzir o texto, mas não reviu a desinformação que lá está.
    Trata o governo de Assad, como regime brutal, sem entender o cerco a que Turquia, Arábia Saudita e Israel impuseram a este país. Nega qualquer envolvimento da CIA e do Mi5 na compra e armamento de bandidos (chamados Daesh ou ISIS) que o embaixador da ONU da síria confirmou ser cerca de dois mil (na altura em que John McCain visitou um desses bandos).
    Ou seja, é um documento traduzido à pressa. O BE devia ter vergonha em assinar este documento. Ao fazê-lo, está a aceitar as sevícias que John Biden e o Pentágono querem fazer ao planeta.

  • Alexandre

    2 Abril, 2021 às

    Ricardo M. Santos. não esquecer que todo o projeto dos «ISIL» em Cabo Delgado, em Moçambique, pode ser uma ideia do Pentágono em querer retirar o controlo da exploração do gás natural à empresa francesa Total na zona. Logo após as matanças que se verificaram, John Kirby, o porta-voz do Pentágono veio dizer que os E.U.A. estaria determinado em lutar contra o Daesh.
    Estranho que pareça, a partir desta semana, tanto a ONU (controlada também pelos EUA) e outras ONG’s (onde também anda o ex-ministro da defesa António Vitorino) têm intensificado a sua campanha de propaganda, a favor de uma intervenção na zona e dando a entender que a soberania moçambicana e o seu exército não têm capacidade para controlar as matanças destes bandidos (pagos pela CIA ou Arábia Saudita).

  • Jorge Nunes

    2 Abril, 2021 às

    O BE ao serviço do imperialismo norte-americano e à estrutura de poder montada na Casa Branca e no Pentágono – a mais corruptora no planeta.

    De forma a ganharem espaço na comunicação social, vergam-se às maiores vergonhas, como a perda de caráter e dignidade.

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