Não é solidariedade, é responsabilidade

Nacional

A história repete-se, já sabemos. Ciclicamente os episódios repetem-se, com outros protagonistas, outras roupagens, mantendo aquelas que são as questões centrais. A humanidade assiste e interpreta os seus papéis, consoante a época, dependo desta, nessa repetição, a diferença no resultado. Há quem hoje leia sobre o que aconteceu na Europa dos anos 30 como algo distante, que dificilmente encontrará paralelo. Como se fosse uma invenção cinematográfica, sempre olhada e interpretada com a distância que a qualidade de espectador nos confere. Até porque, na maioria das vezes, a técnica da pessoalização dos conflitos leva-nos a pensar que determinados fenómenos tiveram lugar porque aquele chefe de estado era mau, era maluco e tudo dependia da sua vontade pessoal.

A realidade encarrega-se, diariamente, de evidenciar que os resultados não diferem consoante seja uma boa ou má pessoa no poder. Os resultados são consequência directa de um sistema, uma ideologia, tomadas de posição concertadas que não dependem de um indivíduo mas antes do poder económico e do poder político.

A criação estudada e propositada de condições sociais precárias, o aumento do desemprego, o aumento da pobreza, a debilitação dos sistemas públicos de segurança social não são coisas que caem do céu: são políticas e estratégias delineadas, concretizadas pelas pessoas em quem todos nós votamos. Ou seja, somos nós que determinamos quem executa as políticas e que políticas executa, sejam boas ou más pessoas. Naturalmente, ao votar sistematicamente PS, PSD e CDS-PP, nenhum outro resultado se pode esperar que não seja o actual: pobreza, desemprego, destruição dos serviços públicos. Exactamente o cenário da Europa dos anos 30 que cria o caldo de cultura em que olhamos sempre para o lado e nunca para cima. Passamos a ser os fiscais do próximo, a verdadeira ameaça ao nosso bem-estar é o desempregado, o que recebe prestações sociais, o estrangeiro e, claro, o refugiado.

Não é, portanto, de espantar, a quantidade de comentários racistas e xenófobos que invadiram o quotidiano a propósito da crise de refugiados. Eles são uma ameaça, no quadro da ofensiva ideológica a que a maioria da população não é imune, ao pouco que se tem. Como foram os comunistas, os judeus, os homossexuais, os ciganos na europa nazi-fascista. Contudo, mesmo depois das consequências tremendas da ideologia nazi-fascista, ela repete-se: a Hungria ergue muros de arame farpado e permite que se dispare sobre os refugiados, a UE fala em quotas para se receberem refugiados nos países, a Alemanha contrata refugiados por salários miseráveis, e, no entanto, os países da UE apresentam-se como solidários como se estivessem a fazer um favor humanitário ao receber refugiados.

Apresentam uma qualidade de que não dispõem: são eles os responsáveis pela existência de refugiados por participarem activamente nas decisões e contingentes de guerra que provocam a fuga de milhares de pessoas dos seus países e a morte de tantos outros que ali permanecem. Como se dizia numa iniciativa do Conselho para a Paz e Cooperação: não é solidariedade, é responsabilidade. «Se atropelar alguém, não sou solidário por lhe prestar assistência. É a minha responsabilidade e se o não fizer, é crime». Dito assim é bastante simples. O problema é que a mesma Europa que se diz solidária, rejeita as suas responsabilidades e continua a financiar e a manter guerras, continua a destruir empregos, serviços públicos, continua a destruir direitos e a promover o individualismo. É a mesma Europa da repressão, da autoridade musculada, das intervenções policiais. E é a mesma Europa sem fronteiras para o capital e para as políticas repressivas e securitárias.

O impensável? Há refugiados alojados em campos de concentração. Há refugiados em campos de trabalho. Há movimentos nazis que se passeiam nas ruas de cabeça erguida e braço estendido. Está um camarada há uma semana num hospital em consequência de uma violenta agressão de um nazi que o viu ostentar um autocolante da CDU.

Não, não é impensável. Sim, a história repete-se. E sim, há responsáveis e todos nós temos um papel.

Tu já decidiste em que lado estás?