O Macedo que ainda não se demitiu

Nacional


Sem que até aqui se tivesse percebido muito bem porquê, Paulo Macedo, à data e hora de redacção deste post “ainda” ministro da Saúde em Portugal, veio gozando na comunicação social dominante de uma invulgar «narrativa» que o «vendeu» – ou tentou «vender» – à opinião pública como «ministro bom» ou «ministro competente». A ocorrência verdadeiramente criminosa – não há outra forma de a classificar – de dois casos de extrema gravidade, no espaço de poucos dias, em que dois doentes acabam por morrer após horas de espera nas urgências de dois hospitais distintos – Lisboa e Santa Maria da Feira – só veio demonstrar aos olhos dos mais ingénuos ou dos mais distraídos acerca da verdadeira situação do sector da saúde neste país, o quão nefasta, fria, arrogante, desumana, indigna e criminosa pode ser a política do corte cego que norteia e perpassa todos – repito – todos os ministros e ministérios deste governo.

Não faltaram médicos porque não estivessem disponíveis para exercer a sua profissão. Faltaram médicos porque este governo não tem por bitola pessoas e necessidades humanas, mas sim tabelas, números, cortes, cortes e mais cortes a todo o custo.

À luz da razoabilidade mais elementar, nesta altura, já só por acéfalo seguidismo partidário, ou por manifesta e atroz ignorância, é que se pode continuar a chamar «competente» ao responsável político pela situação que a Saúde em Portugal atravessa. Não faltaram meios humanos – médicos e enfermeiros – nas urgências de dois hospitais (um a norte e outro a sul) por um mero “azar”. Não cola, e até roça o insulto, sequer a ideia de atipicidade de ocorrências clínicas, pois é precisamente nesta altura do ano que sempre se justifica e sempre se justificou o reforço de meios e o aumento da capacidade de resposta. Não faltaram médicos nos serviços porque não os houvesse. Faltaram médicos porque a política economicista em curso assim o determinou. Não faltaram médicos porque não estivessem disponíveis para exercer a sua profissão. Faltaram médicos porque este governo não tem por bitola pessoas e necessidades humanas, mas sim tabelas, números, cortes, cortes e mais cortes a todo o custo.

Por trás da propaganda e da postura tacticamente “silenciosa” do ministro, o panorama da saúde é caótico. Há milhares de utentes em todo o país sem médico de família. Há listas de espera de meses e anos, repito, meses e anos, para cirurgias e tratamentos oncológicos. Há sobrecarga de trabalho sobre o pessoal clínico e administrativo dos diversos serviços de saúde. Há serviços de pediatria a funcionar em contentores. Há medicamentos vitais e urgentes que não chegam a quem deles precisa. Em todo o país há serviços de saúde a funcionar a meio gás. Há doentes sem cuidados. Há idosos sem o devido apoio clínico. Há falta de gente, de meios, de soluções. Já muitos portugueses tiveram de se confrontar com tais situações e já perceberam, sofrendo na pele, o estado da incompetência que grassa na Saúde. Só Paulo Macedo é que ainda não percebeu. Só Paulo Macedo é que ainda não deu por nada. Só ele é que ainda não entendeu que o melhor que pode fazer neste momento é demitir-se.