Queriam três e já aqui moram tantos

Nacional

Do ponto de vista histórico, a burguesia perante as profundas crises económicas e sociais, que caracterizam a dinâmica de funcionamento do sistema capitalista, encontram no fascismo uma barreira tolerável, um mal menor do seu prisma, às movimentações populares e reivindicativas que ameaçam a sua ordem social.

Esta aliança de conveniência, recorrente ao longo da história, propõe a narrativa fascista, teoricamente anticapitalista, para recolher parte do justo descontentamento, porém despolitizado, e assegura na sua prática, essencialmente capitalista, o sustento do grande capital e a estabilidade do seu mercado, sobrando ainda o reforço e legitimação da violência dos aparelhos repressores dos regimes burgueses para as resistências democráticas e populares.

Este é o enquadramento para a encruzilhada histórica atual, e é também o fundamento para um conjunto de declarações, no mínimo, alarmantes que têm sido proferidas nos últimos dias.

Verifiquemos.

Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, que desviou, por momentos, o foco da reconquista de Olivença, veio a terreiro sublinhar a sua preocupação pelo facto de os protestos estarem a ser liderados por imigrantes e serem, ainda, a grande maioria. Mais avisado seria que o estadista fosse prudente e não desse por garantido que todos os cidadãos nacionais encerram os seus acentos do Algarve ao Minho, passando pelos arquipélagos, mas sendo certo que para o caso isto pouco importa, certo é que os imigrantes que Nuno Melo aprecia não são os que cá trabalham e que por cá vivem, mas aqueles que por cá não estando fazem vida especulando a habitação.

Pedro Pinto, deputado do Chega, sucursal do CDS em esteroides, sem mais caracterizações que já é centro de alargada chacota, veio sustentar o argumento do ministro afirmando que não existem cidadãos portugueses brasileiros, que em Portugal os cidadãos de direito falam português de Portugal. Extraordinária ironia, ordinária dedução, vindo de um grupo parlamentar que tem francas dificuldades em articular como primazia a língua comum e onde assentam dois deputados nascidos fora do país. Sabemos que para Pedro Pinto “Angola é nossa”, mas será também o Brasil e Moçambique?

Seguimos nos proponentes da quarta república, que na verdade anseiam é o regresso à segunda. O líder, André Ventura, vai lançando farpas à inércia do governo em matéria de habitação, lindíssima e reiterada ironia atendendo ao facto de terem sido parceiros na aprovação da nova lei do arrendamento. Contudo os seus mais fiéis cães-de-fila estão por todo o mundo digital largando pérolas como “deviam ter apanhado mais” (os manifestantes entenda-se) ou “carrega PSP”, como ouvimos quando a polícia carrega sobre claques adversárias, com uma diferença que agrava o ridículo paralelismo, é que têm mais empatia e compreensão pelo rasto que as claques de futebol têm deixado ao longo de décadas única e exclusivamente porque há clássico. É este paradoxo um perfeito exemplo do exposto no início deste texto da face dupla do fascismo.

Atente-se agora, é que passamos para outras agremiações partidárias e sem a necessária cautela podemos tomar os seguintes pelo mesmo.

Luís Montenegro, que lidera o governo de PSD/CDS e gere ainda uma maioria de direita na Assembleia da República (onde 160 deputados possuem mais de 1000 imóveis, outra ironia a do conflito de interesses), deu o mote para o tom a imprimir com o arrogante aviso que dirigiu à nação, deixando claro que estava desavisado importar climas de instabilidade e conflitualidade de outros contextos. Conveniente o argumento, ainda que sem adesão à realidade, tomara, como Miguel Torga lembrou, que pudéssemos cultivar um pouco do romantismo cívico pela agressão. Adoram-no, mas nunca leram (este ou qualquer outro livro, acha-se sem certeza).

Os dias são curtos e tomara que ficássemos por aqui.

Mas é de sinalizar a arrogância moral do par de edis que estão à frente das cidades de Lisboa e Porto, caindo sempre no apelo à serenidade, à legalidade, à responsabilidade, à proporcionalidade, à maturidade, à humildade, à normalidade, muito ade para tão pouca liberdade.

Hugo Carneiro, deputado do PSD, vamos evitar o outro Carneiro que já lhe bastará a vergonha de ter anunciado a viabilização do orçamento, veio demonstrar preocupações com a possibilidade, possível só aos olhos desta gente, do poder cair na rua. Não estava no meu cartão de bingo que nos cinquenta anos da promulgação da Constituição da República Portuguesa se parafraseasse Marcello Caetano, fascista, entregando o poder ao General Spínola, outro fascista. Talvez não haja lugar a tamanha surpresa, não vieram, afinal, os seus fundadores da União Nacional?

Mas, então, porque decidiu Ascenso Simões, deputado do PS, parafrasear o mesmíssimo? Uma vez mais, tomara que o tivesse feito e ensacado a viola de seguida. Ascenso Simões foi mais longe, responsabilizando as populações dos subúrbios das cidades, dizendo que não estudam, nem trabalham, que deambulam durante o dia e aos quais se vêm juntar outro tipo de, e passo a citar, “vagabundagem”, que, cito outra vez, “se drogam em conjunto” e “urinam em espaço público”. Sérgio Sousa Pinto também falou, mas, convenhamos, todos temos o nosso limite, este foi o meu. Passou-se um par de anos do PS “mais à esquerda de sempre”.

Concluamos. O Ministro da Administração Interna, ministro fetiche da esquerda liberal, mas atrelado aos interesses do seu governo, foi incisivo no aviso, “as acampadas e os acampamentos terminaram”, mas foi mais qualquer coisa, ameaçador, autoritário quiçá, “ninguém ouse trazer o caos”. É Luís Neves quem tutela o aparelho repressor do estado, todos os estados o têm, é certo, a questão será, a quem serve o aparelho repressor do estado, quando os donos do estado são as classes dominantes?

Só nos faltaria mesmo um superintendente-chefe desse aparelho sugerir a revisão da lei que decreta o direito à manifestação. Não nos faltou, o aludido polícia sugeriu mesmo tal coisa, considerando-a, a lei, datada e referente, infelizmente cito de novo, a “tempos de amplas liberdades”, é de supor que já não o sejam.

Que ninguém tenha a ideia de lembrar Seguro, o taciturno, para trazer o exército para as ruas, como anunciaram França e Itália perante as anunciadas manifestações.

O verdugo pediu três para pôr Portugal na ordem, serão mesmo precisos mais?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *