Românticos

Internacional

“A cidade vive uma das suas noites de Inverno, sem suspeitar do drama que vai rebentar: e não só Moscovo, mas Paris, Nova Iorque, e Istambul, e Singapura, e Pequim, todas as cidades do mundo inteiro o ignoram ainda. Todas continuam a viver a sua vida, umas em plena luz, outras ainda no alvorecer, e noutras sente-se já o calor do meio-dia, todas com as suas preocupações, as suas alegrias, as suas esperanças, os seus desgostos, os seus automóveis, os seus fiacres e os seus riquexós, e as suas fábricas e as suas lojas e as suas casas de pedra ou de madeira, e todas essas pessoas que vão para o trabalho ou que voltam para casa, ou passeiam, ou estão sentadas nos cafés, ou se beijam nos parques ou enchem os cinemas, e os que nascem, e os que morrem. Salvo algumas pessoas na Terra, ninguém ainda sabe a notícia que vai abalar o mundo.

Tínhamos chegado perto do Cinema Gato Preto. Em qualquer parte, de súbito, abriram-se as portas de um pátio, umas portas de madeira, altas, imensas. Era perto de nós, ou na nossa frente, ou do outro lado, lá em baixo, não sei. Dessas portas saíram camiões, homens. E ouvi um grito. Eram de certeza várias pessoas que tinham gritado ao mesmo tempo, mas eu julguei ouvir um único grito. Um único ser gritou, mais forte que a rua imensa, iluminada, animada, mais forte que a noite e o frio: Lénine morreu! Que passou depois? Vi os acontecimentos aos pedaços, e não cronologicamente, todos ao mesmo tempo. O que ouvi , também. Arrancavam-se os jornais das mãos daqueles que tinham saído das portas de madeira. Um eléctrico parou diante de mim. Ficou vazio num instante. Todos os eléctricos pararam. Todos vazios. Não ouço nada. Um velho chora, tira o gorro, aperta-o contra o coração. É calvo. Chora. Os trenós pararam. Os trenós estão vazios. Os cinemas esvaziam-se, a multidão parece fugir a um incêndio. E os restaurantes e as casas. Tudo se lança para a rua. A Avenida Tverskoi cobriu-se de gente, as pessoas juntam-se, empurram-se em redor dos vendedores de jornais. Sentado no estribo de um eléctrico, um guarda-freio chora. A rapariga de faces vermelhas que encontrámos há pouco, chora. Kerime chora, com um jornal na mão, mas eu nada ouço, tudo o que vejo parece desenrolar-se num imenso aquário. Alguém caiu. Outro. As pessoas lançam-se nos braços umas das outras, chorando, vejo-as, mas não ouço qualquer som. Alguém me puxa pelo braço.

Volto-me, é uma velha enrugada, baixinha, vestida de uma peliça, com a cabeça envolta num xaile. Puxa-me pelo braço, diz-me qualquer coisa com a sua boca sem dentes, não percebo. Inclino-me para ela. Pergunta-me com a voz de uma criança de seis anos, com o medo de uma criança de seis anos: “Lénine morreu?” Aceno que sim com a cabeça. “Morreu…” Julgo que vai benzer-se, mas não, largou o meu braço: “Que desgraça para nós…” Repete: “Que desgraça…” Que desgraça! Que desgraça! A voz torna-se mais forte, alarga, alarga, cresce como o génio dos contos que surge da garrafa mágica, depois perde-se subitamente, e então não ouço. No dia do enterro do meu avô ouvi soluçar dez, talvez vinte pessoas ao mesmo tempo; podem-se imaginar cem pessoas soluçando no mesmo instante, mas uma cidade inteira a chorar numa única voz, esse ruído não se pode ouvir mais que alguns minutos. Ou talvez não se ouça, mas o instinto lava-nos a não o ouvir mais para salvar os nossos nervos e a nossa razão, para não enlouquecermos, e não é já essa voz que ouvimos, mas soluços aqui e além.(…)

Levaram Lénine para Kollomi Zal.

Dos quatro cantos do país, os comboios trazem pessoas a Moscovo, todos os que querem ver Lénine pela última vez. (…) Nas ruas, nas praças, noite e dia ardem fogueiras gigantescas. Noite e dia, as filas de homens avançam para a Kolloni Zal. As ambulâncias transportam ao hospital os doentes e os enregelados. (…) É Krupskaia quem eu vejo primeiro. Está de pé diante dos montões de flores, os seus cabelos grisalhos, lisos, separados por uma risca, o vestido caindo a direito. Os braços ao lado do corpo. Os seus olhos salientes muito abertos, estão fixados num ponto. Olhei para onde ela olhava, vi Lénine. A sua testa, a sua testa amarela, incrivelmente larga: curva como o universo. Lénine estava deitado de costas, as mãos cruzadas no peito. Vi-lhe a condecoração da bandeira Vermelha.”

Nazim Hikmet, Os Românticos

Esta é a descrição de como foi vivida, há exactamente 90 anos, a morte de Lénine, pela população de Moscovo e pela população de toda a Rússia. Descrita por Hikmet, o poeta turco, um romântico, um comunista. O livro acaba com um poema:

“Sou comunista
Sou amor dos pés à cabeça
Amor: de ver, pensar, compreender
(…)”

Lénine não seria um homem afável, nem simpático. Ainda assim, a sua perda despertou nos homens e nas mulheres, que com ele trilharam o caminho da revolução, um sentimento de orfandade. Só senti algo semelhante em Junho de 2005, quando morreu o Álvaro. Longe de Lisboa, com outros amigos, chorámos baba e ranho, surpreendidos pela nossa reacção, com dor de verdade e sem vergonha. Eram ambos românticos, como o Che, aquele que dizia que “o verdadeiro revolucionário é guiado por sentimentos de grande amor”. Românticos por materializarem o grande sonho da humanidade. Comunistas.

Hoje não ouviremos falar de Lénine, tal como não ouvimos noutros dias. Os avessos à igualdade não o permitirão. Hoje. Porque amanhã é outro dia. Lénine era um imprescindível, como diria um outro poeta (1). Mas no combate dos românticos não há insubstituíveis, há muitos imprescindíveis. E desta forma, “Lénine ainda está mais vivo que os vivos” (2).

(1) Bertolt Brecht
(2) Maiakovski

*imagem – mural de Pedro Penilo

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