Tudo o que é sólido dissolve-se ao espelho

Nacional

Nunca saberemos se a Rainha Má era uma má rainha. Nos tempos medievos a que remonta a história, bastava uma mulher não ser tão tacanha como a Branca de Neve, ou simplesmente estar uma ideia à frente do seu tempo, para logo lhe ser posposto o maligno adjectivo.

(— Obrigado por ouvires Spotify)

Mas se a simples constatação de uma mulher, nos refegos da Baixa Idade Média, chefiar um Estado liberta da patriarcal tutela não sobejasse como sintoma de anacroníssimo progresso, vejamo-la agora, no alto coruchéu do torreão delgado como almenara, quando se dirige ao objecto amado, que nunca larga.

— Espelho meu, espelho meu… — Não é um «OK Google» nem um «Hey Siri», mas acendeu-se imediatamente o espelho como um verdadeiro ecrã — haverá no reino mulher mais bela do que eu?

(— A sério. podias estar a ouvir rádio, mas estás a ouvir Spotify)

— Não, minha Rainha. Sois de todas a mais bela — responde o espelho.

Isto é conversa de Instagram, já se viu. Mas note-se que o algoritmo do espelho mágico, para poder dar a resposta que desde a mais tenra infância sabemos confiável, deve ter acesso a quantidades inimagináveis de dados pessoais de todos os súbditos do Estado que, estamos em crer, não o terão consentido ao abrigo da nova lei da protecção de dados, ou não saberia o espelho da existência, por exemplo, da operação mineira clandestina do grupo Sete Anões nos confins da floresta.

(— Saltar é fixe. Pões um pé à frente do outro e andas aos saltos)

Eram precisos, pois, milhões de gigabytes de padrões faciais, medições automáticas de ângulos de cinturas, cálculos avançadíssimos de índice de massa corporal e as necessárias equações para destrinçar as tendências subjectivas de likes, corações e comentários elogiosos.

Atire a primeira pedra quem puder culpar a Rainha Má por nunca largar o espelho (até parece que nós largamos!) que lhe transmite uma representação do mundo mais credível que o próprio mundo e feito para a comprazer; uma espécie de mapa à escala de um por um da realidade mapeada em que o simulacro é mais consistente do que o original simulado.

(— Dizem que menos é mais mas com o Spotify Premium…)

Até que um dia, estava a Rainha recostada no faldistório a ver a net enquanto os súbditos laboravam as terras reguengueiras, quando o espelho responde algo imprevisível à habitual pergunta:

— A minha rainha é deveras muito bonita, mas a Branca de Neve é agora no reino a mais bela!

O desenvolvimento das forças produtivas atingira finalmente o seu limite histórico. Todas as suas representações, mesmo aquelas criadas para perpetuar o velho mundo, não conseguiam mais encobrir a crise. Não restava alternativa à Rainha Má.

(— E ainda tens centenas de músicas para ouvir.)

Como a Rainha Má, vivemos nós também cada vez mais acantonados nos nossos espelhos mágicos, feitos para nos prender a atenção no mundo dos símbolos e das representações. Karl Marx poderia estar a falar desse espelho digital, quando, há dois séculos, descrevia a imprensa livre como “o ubíquo olho vigilante da alma de um povo, a encarnação da fé de um povo em si próprio, a ligação eloquente do indivíduo com o Estado e o mundo, a cultura encarnada que transforma as lutas materiais em lutas intelectuais (…) a confissão franca de um povo a si próprio e o poder redentor da confissão é bem conhecido. O espelho espiritual em que um povo se pode ver a si mesmo (…) que chega a cada casa mais barato do que o gás. Tem ângulos infinitos, é ubíquo, omnisciente. É o mundo ideal que emerge do mundo real e que acaba por voltar ao seu interior”. Também no nosso caso, as relações sociais acabam por intrometer-se no jogo de espelhos feito para lhes escapar. Como escreveu Marx, o mundo ideal regressa sempre ao mundo real.

(— Consegues imaginar tudo o que é melhor sem interrupções?)

Dito de outra forma: os nossos patrões têm o plano premium das nossas vidas básicas. Podemos publicitá-las à vontade no Instagram como produtos comerciais e objectos de inveja, mas elas nunca têm as praias tailandesas dos patrões. Nós estamos sempre no período experimental – um a seguir ao outro, um enorme, permanente, período experimental – na Netflix, no Spotify e nos contratos de trabalho. Como não há o Twitter de transbordar de ódio?(— Queres experimentar sem pagar durante um mês?)

De um lado do espelho, vendemos a nossa atenção ao mais alto licitador publicitário que pensa que nos conhece, do outro lado, vendemos o nosso trabalho ao patrão menos explorador que pensa que nos possui. «Ai mas ninguém é obrigado», estão as Brancas de Neve desta vida agora a pensar escarninhamente. É um privilégio não perceber porque é que assinamos os contratos de trabalho da mesma forma que aceitamos condições na net.

(— E ainda tens centenas de músicas para ouvir)

Mas não há fugas: o mundo virtual pode distorcer grotescamente a realidade se o espelho for suficientemente côncavo ou convexo, mas acaba sempre por reflecti-la porque, no final do dia, toda a vida intelectual, espiritual, filosófica e religiosa é sempre o reflexo e o produto das relações sociais. Podes chegar ao fim do feed do Facebook a saber exactamente o mesmo que sabias antes. Até podes passar o Tinder indiferenciadamente para a direita ou para a esquerda e desceres às mais remotas profundezas abissopelágicas da pilha de humanos de cartão, para te dizerem no final aquilo que já sabias: que não há ninguém perto de ti. Nenhum príncipe nigeriano vai herdar este pesadelo.

(— E agora podes experimentar o premium durante um mês.)

Mas como não sentir compaixão pela Rainha Má? As redes sociais afiguram-se-lhe agora, todas elas, igualmente irrespiráveis; já não suporta o bombardeio de pop-ups com cruzinhas ardilosas; suplicia-a a inclemência das notificações que proclamam que a Branca de Neve atingiu a maioridade histórica. Ainda assim, num transe desvairado, arrasta um dedo compulsivo pelo espelho mágico onde posts e letras voam, quase ilegíveis, como folhas largadas pela janela em andamento:

— A Branca de Neve é a mais bela.

E não adianta mudar de aparelho, nem serve sequer alinhar perfeitamente dois espelhos frente a frente para que abram um infinito corredor de inteligência artificial rumo a um ponto de fuga longe de tudo isto, porque, porra, mal se intromete algo real na ilusão, logo o sendeiro se interrompe.

(— Obrigado por ouvires Spotify. A sério podias estar a ouvir rádio)

Da mesma forma que, na Idade Média, os senhores procuravam deslocar os sonhos e as esperanças das curtas vidas dos seus servos para a vida após a morte, os novos e pós-modernos senhores procuram deslocar os nossos sonhos e as nossas esperanças do real para o simbólico, outro tipo de além. Em vez do paraíso após a morte, dão-nos simulações do paraíso durante a vida: uma representação dos nossos amigos nas redes sociais, um símbolo da democracia quando opinamos online, uma simulação da liberdade na capacidade de visitar, digitalmente, qualquer museu do mundo, um simulacro da mudança através da linguagem, uma reprodução do poder nos videojogos… E tornamo-nos nós próprios também representações, desprovidas de consciência de classe e definidas pelas nossas escolhas de consumo. Passamos a ser a vaidade que o nosso Instagram anuncia, o sarcasmo abnegado do nosso Facebook, o cinismo permanente do nosso Twitter, ou a personalidade amoral do nosso TikTok. «Tudo o que é sólido de dissolve no ar», diria Marx. Até nós.

(— Com o período experimental do Spotify, podes ouvir todas as…)

A Rainha Má ergue-se de rompante do faldistório. A pesada cíclade restolha no lajeado do torreão em círculos de fera enjaulada.— Espelho meu, espelho meu…

— A Branca de Neve é a mais bela.

Era preciso sair do mundo virtual pelas escadas de emergência. Era preciso comer um coração sangrento, cru e quente. Então mandou mercenários, armadilhou pentes e envenenou maçãs. Mas a nova classe (a burríssima, insuportável e muito sonsa Branca de Neve) avançava sobre os castelos dos nobres vestida de sol e montada num cavalo pálido. O tempo dos senhores feudais acabara. Era o fim do seu mundo.

(— Sabias que com o Spotify Premium…)

Os nossos espelhos digitais, criados para nos vender e para nos prender, fervilham igualmente com as contradições do mundo material e dividido em classes. O espelho mágico também democratiza a ciência em arquivos de artigos científicos pirateados; multiplica a agitação política em fóruns, grupos de vendas e chats dos jogos online; permite-nos organizar melhor a luta e pensar como poderiam funcionar a democracia e a economia do futuro Estado em rede.

No chão despedaça o espelho, em mil estilhaços, a Rainha, Tormentosa. Mais justo cognome seria este se a História fosse justa e a escrevesse quem quebra espelhos.

1 Comment

  • Emilio Antunes Rodrigues

    18/09/2020 às 22:20

    A verdade é que não escolhemos e ainda compramos o veneno com que nos envenenam

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