Unidos como os dedos da mão

Nacional

Em 2004, num Congresso em Almada, o camarada Jerónimo de Sousa sucedia a Carlos Carvalhas como Secretário-Geral do Partido. Assisti às peças sobre esse Congresso na televisão, em casa da minha madrinha, numa pequena sala que servia sempre de actividades paralelas às conversas que duravam noite dentro na sala de jantar e de estar, com família e amigos.

Inscrita na JCP desde o ano anterior, mas ainda muito verde e inexperiente, olhava para aquele momento com a solenidade que o que não conhecemos, mas admiramos, nos impõe.

Uns meses antes tinha participado na primeira iniciativa nacional da JCP em que estive, na Voz do Operário, um encontro nacional do ensino secundário. Foi onde fiz a minha primeira intervenção política, sem a ter escrito ou preparado, num lance arriscado. Não repeti a façanha até muitos (mas mesmo muitos) anos depois, embora apenas em duas ou três ocasiões. Há coragens que só temos quando não sabemos bem o que estamos a fazer.

Adiante. No final desse encontro, depois de intervir no encerramento, o então Secretário-Geral do Partido, o Carvalhas, passou por mim e outros jovens camaradas e cumprimentámo-nos. As televisões a filmarem. E eu sem perceber bem o que significava todo aquele aparato à volta dele. Aliás, conversava com uma camarada da Marinha Grande da JCP quando se aproximou de nós uma camarada que só alguns anos depois fiquei a conhecer, a Luísa, que me disse, enquanto se aproximava a comitiva: “vai lá cumprimentar o Secretário-Geral”. Julguei que seria a esposa dele, raciocínio que com o tempo, ao conhecer o funcionamento do Partido, se tornou cada vez mais hilariante!

Um outro momento no final desse encontro deu-se quando um camarada mais velho veio ter comigo para me dizer que gostou muito da minha intervenção. Corei de vergonha e não me alonguei muito no agradecimento. Entretanto encontrei-o cá em Braga, porque tinha assumido a tarefa de acompanhar a organização regional. Era o Paulo.

Quando o vi em Braga estranhei, mas não o suficiente, porque tudo no funcionamento da nossa organização era novo, ainda, para mim. Recordo-me muitas vezes a manhã em que fui fazer contactos ao Centro de Trabalho para uma reunião do secundário da JCP e tive de ir perguntar onde ficava a sala da juventude. A vergonha de um tempo em que todos os rostos me pareciam muito mais conhecedores da realidade do que eu, num sítio onde ainda pedia por favor, para muita estranheza de quem por ali andava todos os dias.

Com o passar dos anos aquele Centro de Trabalho tornou-se também a minha casa, já lhe conhecia os cantos e os cheiros, bem como os rostos que por ali passavam, ou os que comecei a encontrar em reuniões nacionais, em manifestações ou na Festa. De entre os mais familiares, tornou-se o daquele camarada mais velho que eu, mas mais novo que o Carvalhas, que sabia quem eu era antes de eu decidir intervir naquele encontro nacional.

A partir daí perdi a conta ao número de vezes em que o Paulo Raimundo soube sempre dizer-me as palavras certas, dar-me o ânimo necessário, fazer-me sentir segura e capaz de enfrentar momentos em que achei que iria fracassar pela certa. Nunca precisou de muito. Estava sempre à distância de um pedido de ajuda, e tinha sempre tempo para pensar em conjunto e ajudar a descomplicar os momentos em que eu entrava em pânico – não direi que por coisas menores, porque estar à altura das nossas tarefas no Partido sempre me pareceu coisa de gigante.

Depois disso passaram-se vários anos, o primeiro Congresso a que fui, como convidada, no Campo Pequeno; os dois seguintes, em Almada (naquele mesmo pavilhão que em 2004 tinha visto na televisão e onde pareciam todos tão distantes de mim e da minha adolescência, ali sentada no sofá da minha madrinha) como delegada, como no último Congresso, há dois anos, em Loures. Algures entre isto deixei de ser adolescente, assumi tarefas na JCP e depois no Partido, conheci centenas de camaradas de todos os lados, tudo se tornou natural, passou a ser a minha vida, muito longe da sensação de estar naquele sofá.

Também as tarefas do Paulo se alteraram desde essa altura. No entanto, houve sempre tempo e espaço para as suas palavras encorajadoras. Em 2013, em campanha para as autarquias – ano em que recuperámos um vereador na Câmara Municipal – regressou a Braga por umas semanas e acompanhou várias noites de listas e decisões e desabafos, desânimos e gargalhadas. Decidiu-se que seria eu a apresentar o comício de encerramento dessa campanha em Braga e, nessa noite, não consegui jantar mais do que uma sopa tal era o tamanho dos meus nervos. No entanto, levava comigo o rascunho de guião que o Paulo me tinha ajudado a preparar, e isso deu-me a segurança necessária para acreditar que tudo correria bem.

Enganei-me várias vezes: disse que encontraríamos a banda que animou o comício na edição da Festa do Avante! desse ano quando não era bem aquela, e ainda troquei o nome a uma das freguesias que compõe a União das Freguesias gerida pela CDU no concelho, enquanto chamava o seu candidato e presidente ao palco. O que poderia ser considerado um pequeno desastre não o foi. Primeiro, porque a alegria daquele comício foi tão contagiante que nem importavam os meus erros. Depois, porque quando descemos do palco no final das intervenções, o Paulo dirigiu-se a mim com um abraço e disse-me com o sorriso que nos ajuda a nunca duvidar: “és a maior”. E eu acreditei. Tanto, que em 2021, na última campanha, me recordava desse momento sempre que o meu estômago começava a apertar antes de ume entrevista, de um debate ou de um comício.

Neste fim-de-semana, vi sem ser na televisão. O momento em que o Paulo Raimundo passou a ser o Secretário-Geral do Partido. Emocionei-me (sem surpresa) quando o Jerónimo e o Paulo se abraçaram, e depois quando uniram assim os dedos das mãos, num gesto simples que é tão simbólico do que somos neste Partido.

O que senti no domingo já não foi o fascínio de outrora. Senti orgulho. Do Jerónimo. Do Paulo. De ali estar. De aqui estar. Entre aqueles e aquelas que se reconhecem no rosto uns dos outros. Mesmo nos rostos novos que se juntam, que nunca vimos, mas em cujas expressões reconheço muitas vezes aquele fascínio antigo, inexperiente mas seguro de que era uma coisa extraordinária a que me estava a acontecer. Diria até que sem esse primeiro impacto, de olhar de baixo para cima perante uma história tão corajosa e retumbante como a que o nosso Partido construiu ao longo destes quase 102 anos, dificilmente compreendemos a sério o que é olhar olhos nos olhos, ao mesmo nível.

E depois de uma longa viagem de regresso a Braga, vim para o meu sofá, sorrir para a televisão enquanto via a primeira entrevista ao novo Secretário-Geral do nosso Partido – do que também é meu.

Gosto de ciclos que se fecham pela forma como dão lugar a novos. E como me esqueço, às vezes, desta dependência de uma coisa na outra, atrapalho-me. Mas dias como estes ajudam-me a sentir um sossego muito especial. Nunca estou realmente só: tenho o meu Partido.

Ah, e no sábado cruzei-me com o Carvalhas. Sem vergonhas, porque agora sei bem quem é: é meu camarada.

1 Comment

  • Diana

    16 Novembro, 2022 às

    Confirmo: és a maior!❤️

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