Viva la Libertà!

Nacional

Não é hábito por estas paragens repetir o que faço por aqui, mas talvez seja o momento em que esta arte nos deva entrar em casa mais vezes e voltemos ao hábito de ver cinema. Hábito que o encerramento de salas, o fim de cineclubes, os preços proibitivos das grandes distribuidoras e a era digital nos roubaram aos poucos, mas de forma que ainda se possa reverter.

E o que me traz, no primeiro dia do ano, à escrita sobre filmes? Viva la Libertà. Um filme de Roberto Andò, (estreado em Portugal e ainda nas salas de cinema apenas em Lisboa graças ao incansável e resiliente Stefano Savio, director da Festa do Cinema Italiano), que parodia a esquerda italiana e a esquerda europeia.

No entanto, nesse jeito de paródia, Andò vai buscar a matriz identitária da filosofia política e do poder público. Na dialéctica histórica a mudança necessária de análises face à mudança da realidade, das formas de produção, das crises sucessivas e da resposta por que todos anseiam. É aqui que Andò coloca o dedo na ferida. Partindo de Oliveri, o secretário geral do maior partido da oposição em Itália que é uma figura silenciosa, pacata, que não se pronuncia sobre as graves medidas sociais e económicas que varreram a Europa (Itália incluída, claro) e, desta forma, vai provocando uma quebra acentuada das intenções de voto, fazendo de Oliveri objecto de escárnio popular.

Até que este decide desaparecer por uns dias (não como Durão Barroso…). Confrontado com o facto, Andrea, o seu fiel assessor, apenas encontra (e fortuitamente) uma solução: o irmão gémeo Giovanni. Giovanni sobre quem nada se sabe a não ser que esteve internado numa unidade psiquiátrica, escreveu um livro sobre filosofia e não fala com o irmão há 25 anos.

De uma forma natural, Giovanni assume-se como Oliveri, com uma diferença: fala sobre tudo. Sem filtros, sem ensaios, sem jogos de cintura. Num primeiro olhar, a sinceridade parece falível, as pessoas não gostam de ouvir que a classe política é tão só o reflexo da sociedade. Se há corrupção é porque quem vota nessas pessoas será possivel e intrinsecamente corruptor ou corrompido conscientemente. Se «os políticos são mentirosos» é porque quem neles vota também mente. Se apenas procuram benefício é porque quem neles vota, é do benefício que espera.

Mas não, às vezes, a linha é demasiado ténue entre a sinceridade e a demagogia. O dito partido dispara nas intenções de voto. E logo (tal como sabemos ter acontecido em Itália, ou na Grécia com o Syriza, na República da Irlanda, em França…) se pergunta: e as coligações? Com quem se vão coligar?

«O consenso é uma coisa demasiado séria. A única coligação possível é com a consciência de cada um.»

Mais uma manchete. E um comício que nunca teve tanta gente. Giovanni sobe ao palco, mimetizando todas as suas manias obsessivas em relação ao chão que pisa e, assim que chegado ao microfone, olha ao acaso para uma das pessoas que assiste e diz «sim, é contigo que falo». E fazendo o diagnóstico que nos é tão familiar, responde simplesmente que não se deve esperar que a resposta esteja nele. Mas sim na pessoa para quem ele fala. Porque essa pessoa tem direitos que lhe dão o poder de tomar nas mãos o destino da sua vida e, quem sabe, do devir colectivo.

E é neste filme repleto de ironia e sarcasmo, onde ora me sinto insultada, ora fico espantada com os exageros e as simplificações, ora me sinto arrebatada por um discurso político de um líder que o não é, de um partido que não existe, num comício que é um filme, que no fim ninguém sabe se quem está na cadeira desse partido que agora pode e vai ganhar é o sério e sisudo ou o louco a quem nunca foi diagnosticada qualquer doença mental.

Viva a liberdade, parece-me uma provocação exclamatória. Quase mesmo um repto. Como se Andò dissesse: tu, que estás a ver este filme e passaste a noite negra fascista ou já ouviste falar dela, exclama a liberdade. E quando tantos lutaram por ela, exerce-a, porque é de ti que ela depende.