Voto nela porque é mulher

Nacional

Este post é feito propositadamente após as eleições por não ser dirigido especificamente a qualquer das candidatas, mas antes a quem decidiu o seu voto em função do sexo do candidato. Ouvi várias vezes (mais frequentemente em relação a Maria de Belém) «voto nela porque é mulher» ou «vou votar nela porque é mulher». Afirmação que de imediato me eriça a pele.

O facto de ser mulher determina em quê o seu projecto político ou o programa presidencial?

Claro que já ouvi muitas teorias sobre a feminização do exercício do poder (até mesmo que as mulheres são mais sensíveis às questões sociais, o que, desde logo, me faz pensar que Maria Luís Albuquerque ou Helena André – ex-ministra do Trabalho e Solidariedade Social do PS – devem ser uma espécie de híbridas), claro que a discussão das quotas e da paridade é para aqui chamada e claro que este princípio também terá baseado alguma campanha e algumas candidaturas (e sobre isto nem vou dizer tudo o que acho senão vai cair o Carmo e a Trindade, como caiu com os engraçadinhos, mas não cai quando o óbvio até está chapado em outdoors).

Ora, a ideia da paridade é uma cosmética de poder para que continuem as desigualdades, nomeadamente em relação às mulheres, os baixos salários, designadamente das mulheres, a precarização do trabalho, sobretudo das mulheres, etc. Contudo, as adversativas não chegam para vincar que os direitos humanos das mulheres são direitos dos seres humanos, também dos homens, e que nenhuma paridade resolverá, para todos os desiguais, este problema, como afirmou a minha querida camarada Odete Santos em 2006. Não existe, de facto, um corpo homogéneo
feminino e tudo fica na mesma – com mulheres no poder: a paridade não quer a alteração do modelo político neocapitalista do famigerado neoliberalismo e, antes, se insere na aparência de igualdade forjada em sábios discursos e proclamações. Lagarde, Maggie, Maria Luís Albuquerque, Manuela Ferreira Leite, Teresa Morais, Elza Pais: a paridade fica-lhes tão bem!

Voltando às Presidenciais e à valorização simplista do sexo (querem mais sexista do que isto?), vou votar nela porque é mulher. Mas porquê?

Tentando responder a esta pergunta, porque deliberadamente me alheei do cobertura mediática das eleições, a bem da sanidade mental e de algum equilíbrio no entendimento da humanidade, li os programas/manifestos/propostas. Todos. E, curiosamente, ao ler o das candidatas, ou não encontrei rigorosamente nada sobre o papel da mulher ou encontrei algo que me desagradou profundamente. Passo a explicar. Na «missão» de Maria de Belém não há uma única menção aos direitos das mulheres ou sequer à igualdade. Maria, que foi Ministra da Igualdade. E alguém se lembra de alguma medida que tenha sido tomada para melhorar as circunstâncias concretas das mulheres em Portugal? Exacto.

Marisa Matias não se esquece das mulheres e da igualdade. Refere a IVG (e como não, se foi a única bandeira do BE durante anos, o alfa e o ómega dos direitos das mulheres?). Mas também escreve o seguinte:

Serei uma Presidente de todos e todas as portuguesas, mas não esqueço o que se está a fazer aos mais pobres para salvar os bancos, não esqueço o que se está a fazer aos jovens para os fazer desistir do país, não esqueço o que se está a fazer às mulheres para que sejam sofredoras submissas, não esqueço o que se está a fazer aos trabalhadores para pagar salários miseráveis, não esqueço o que se está a fazer aos velhos para desonrar vidas inteiras de trabalho e de sacrifício. É em nome deste povo que sofre, mas que resiste, que me candidato.

E isto, lamento, mas não percebo. Sofredoras submissas? Ou seja, o que se está a fazer não é um ataque aos seus direitos económicos e sociais mas sim um ataque psicológico para que sejam sofredoras submissas? Perceberia se fosse para que não tenham igualdade salarial, para que não participem na vida social e política, enfim, uma série de coisas, mas… sofredoras submissas? É isso que estão a fazer?

Daí que reitere: votar numa mulher porque é mulher é dos actos mais sexistas que existem, dos actos mais acríticos e que em nada contribuem para a desejada emancipação e igualdade. É reduzir uma questão importante a uma questão biológica e de poder. E, depois de ler as propostas, e apenas baseada nelas, não votaria em nenhuma delas. Conhecendo então os seus projectos políticos, escusado será dizer que também não votaria.

Mas é a premissa que está em causa, independentemente do nome da mulher.

Porque as mulheres há muito conquistaram o reconhecimento de que são seres humanos, é justa a sua recusa de retorno à natureza. É este também um dos sentidos do perene verso de Aragon, que exprime a solidariedade entre homens e mulheres em luta: «A mulher é o futuro do homem»! (Ainda, a Odete).

De cada vez que ouço a frase «voto nela porque é mulher» é como se a história recuasse séculos. Como se Inez Milholland, quando ao lutar pelo voto das mulheres – de todas as mulheres -, nos Estados Unidos, contra as mulheres burguesas que defendiam o voto apenas para a mulher branca com estudos (tal como as republicanas em Portugal, que algumas feministas tanto celebram), morresse outra e outra vez após o seu último discurso, como se o acto heróico de Clara Zetkin ao discursar no parlamento nazi em defesa da classe trabalhadora fosse apagado dos livros. Como se o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora se resumisse às flores e declarações vazias.

Não votaria em ninguém por ser homem ou mulher. Votaria e voto porque defendem causas, princípios, valores de igualdade, de dignidade, de emancipação e transformação. Porque lutam por causas comuns sem esquecer as diferenças objectivas.

E se a mulher é o futuro do homem, tornemo-nos nesse futuro, nessas mulheres. Capazes de votar em quem pensa e age para este mundo de igualdade.