Com a semente que Abril deixou

Nacional

Para muitos, deixar para trás o subúrbio e visitar Lisboa é um luxo. Se partirmos da Amadora e tivermos de usar outro transporte como o metro regressamos a casa com menos 6,90 euros. São os cálculos que faço quando o comboio atravessa a Reboleira. Pela janela, vejo uma cidade destroçada. Arrancaram-lhe a identidade e a quem lá mora pouco mais deixaram do que a miséria de viver agrilhoado sem poder sair do bairro. Ficou-lhes o sabor amargo de terem um dia achado que isto da CEE ia ser como os Jogos Sem Fronteiras. Um divertido intercâmbio sem obstáculos que nos levaria a ser felizes por estarmos mais próximos uns dos outros. Eles, lá na Europa, sabiam das nossas privações.

Foram tantas as décadas que vivemos isolados do mundo que se abriram os sorrisos ingénuos de quem acreditou que, de facto, a Europa estava connosco. Já bastava de convulsões sociais e a própria URSS cedia caminho. À sombra, Mário Soares e Cavaco Silva conspiravam. Depois das privatizações, desmantelaram o país e venderam-no aos sucateiros alemães, franceses e britânicos. Sem indústria pesada, sem pesca, sem agricultura, Portugal estava lançado na roleta capitalista. Mas o salão de jogos era nos bastidores e os homens do charuto acenavam para a plateia com auto-estradas, arranha-céus e estádios de futebol.

Observo o que resta da Sorefame e imagino as mãos dos homens que construíram esta carruagem. As suas crianças terão sido, provavelmente, expulsas do país. Andarão à deriva por essa Europa que afinal joga com fronteiras e que não tem Eládio Clímaco como apresentador. Algum adolescente terá ensinado o ex-operário a abrir o skype para que a filha o veja lavado em lágrimas. Em Londres, Amesterdão, São Paulo ou Luanda, há uma geração inteira que perderá a velhice dos progenitores e que não acompanhará os avós nos seus últimos dias.

Dos altifalantes do comboio chega uma voz feminina: “Senhores passageiros, informamos que por viajar nos transportes públicos sem um título válido pode ser alvo de uma multa de 350 euros”. Como numa peça de teatro, segue-se a acção. Ao meu lado, atravessam três fiscais e três seguranças da CP. Mas não são actores. São personagens de uma tragédia que se abate à minha frente. Diariamente, milhares de mulheres e homens abrem passo entre as cancelas das estações para fintar a miséria que não lhes dá sequer a dignidade de poderem comprar o passe.

É esse o crime que o anúncio pago pelos contribuintes persegue: “Abra os olhos e combata a fraude”. A violência do embate toca fundo e fervem-nos as veias quando pensamos que há três décadas houve quem fechasse os olhos para acreditar na fraude. E agora que estamos na União Europeia forjada pela oligarquia que sempre patrocinou PS, PSD e CDS, é sem dúvida a hora de recordarmos aqueles que arrancavam das camas para atravessar a madrugada e gritar à porta dos locais de trabalho que havia que abrir os olhos e combater a fraude da integração europeia. Daqueles que em momento algum, mesmo com vento contrário, vergaram os braços.

Recordemo-los porque agora sabemos por que regressaram alguns do exílio no Brasil. Para nos arrancarem pais, filhos, avós e netos das nossas casas. Uns emigraram, outros morreram e houve quem ficasse para os chorar a todos. Já o tinham feito durante 48 anos e voltaram a fazê-lo. Esmagaram-nos a terra e o mar. Os fornos das fábricas deixaram de cuspir fumo. E porque a dignidade se constrói lutando, chegará o dia em que lhes arrancaremos o futuro das mãos com a semente que Abril deixou. É para isso que devemos abrir os olhos.