Autor: Bruno Carvalho

Por que vale a pena votar no João Ferreira

Foi há poucos dias. Depois de escrever uma reportagem sobre o frio que os portugueses passam em casa, um dos entrevistados contou-me que uma mulher havia deixado de dar sinais de vida há poucos dias na aldeia dos seus pais, na Guarda. Cá fora, a vida decorria normalmente, como se nada fosse, mas atrás da porta, o corpo desta mulher estava em hipotermia e só foi descoberto depois de arrombarem a porta.

É assim o debate político. A narrativa mediática é que determina a campanha. Com sondagens para os gostos de alguns, debates que mais pareceram entrevistas e entrevistas que mais pareceram debates, assim como programas com comentadores ligados ao arco do poder, as eleições são um jogo viciado em que não há pé de igualdade entre candidatos. Cá fora, a vida decorre normalmente. Mas atrás dos cortinados, nos bastidores, há um país ligado às máquinas.

Ler mais

És tu que pagas a vida que eles levam

Todos os anos, sem excepção, a direita, do PS ao Chega, celebra o 25 de Novembro. São muitos os que defendem que esta data passe a figurar no calendário como feriado nacional. Porquê? Porque consideram que foi um dia decisivo para derrotar aquilo a que continuam a chamar de ameaça do comunismo.

Ou seja, os militares que impuseram uma pesada derrota sobre o processo revolucionário que amanheceu a 25 de Abril do ano anterior e que acelerou a 11 de Março de 1975 devolveram o país à Europa Ocidental. Foi uma dinâmica lenta porque encontrou pela frente a resistência dos trabalhadores e do povo mas que conseguiu a integração de Portugal na CEE, a privatização da banca, a destruição da reforma agrária e o desmantelamento do aparelho produtivo.

Ler mais

A polémica já não é sobre a Festa do “Avante!”

Jornais, rádios e televisões distanciaram-se tanto da realidade daquilo a que se chama cidadão comum que praticamente já ninguém lhes dá qualquer credibilidade. No fundo, esta armadilha mediática em que vivemos é identificada com o sistema político, económico, social e cultural em que vivemos. O mesmo que mantém os trabalhadores na miséria. Os milionários que financiam o Chega fazem parte da mesma elite que financia o PS, o PSD e o CDS-PP e que sabem a importância de terem alguém que instrumentalize o descontentamento social de forma a que não caia nas mãos dos comunistas. Foi assim nos anos 20 e 30, é assim agora.

Ler mais

#FreeSimonTrinidad

Simón Trinidad faz hoje 70 anos e apodrece há 16 anos numa prisão nos Estados Unidos. Em meados dos anos 80, quando só era conhecido como Ricardo Palmera, geria o Banco del Comercio na pacata Valledupar. Activista de esquerda e candidato da Unión Patriótica, debate-se com o ódio da oligarquia e do Estado colombiano que assassinam os seus camaradas.

Ler mais

Para que nos deixem ver as estrelas

Enquanto ele limpava religiosamente a arma com uma escova de dentes, eu pensava para mim que é a perspectiva revolucionária que devolve a cada comunista o entusiasmo de cumprir cada tarefa independentemente da sua natureza e da distância histórica da ruptura com o capitalismo. Outros, ao nosso lado, jogavam xadrez entre a folhagem verde que durante tantas décadas os protegeu do exército colombiano. O facto é que o entusiasmo, combustível da militância dedicada, fez parte daquele barco com um rumo bem definido que catapultou os povos da Rússia para o assalto aos céus mesmo que, pouco tempo antes dos acontecimentos de Fevereiro de 1917, que foram a ante-sala da tomada do poder pelos bolcheviques, Lénine deixasse no ar que podia não chegar a ver a revolução socialista em vida.

Ler mais

Foi nos Estados Unidos mas podia ter sido na Amadora

Cresci num bairro operário da Amadora. O meu vizinho do lado era padeiro, o de baixo era mecânico e o do outro lado era carpinteiro. Nunca tive problemas com as autoridades. Quando era miúdo e passava pela rua que dava para a pastelaria Elvina, na Amadora, havia uma frase na parede que me intrigava: “Se a polícia nos protege, quem é nos protege da polícia? Mas aquilo não dizia nada à minha existência diária. Remetia-me antes para as realidades ficcionadas que vivia quando ficava a ler na marquise da minha avó. A repressão era algo que só existia nos livros do Zola ou do Emilio Salgari. Ler mais

Aos jornalistas que não são cães-polícia

Gosto de escrever histórias de piratas, ladrões, bêbedos e revolucionários. Como as canções de Fabrizio de André. A minha primeira reportagem foi um fiasco. Queria fazer um trabalho sobre o jardineiro senegalês que matou o presidente da Junta de Freguesia da Pena com uma maceta. Falei com ele uma vez ao telefone e tentei que mo deixassem entrevistar na prisão. Não deixaram. Para todos os efeitos, a primeira reportagem que escrevi na vida, ainda estudante, foi sobre uma operação policial espanhola contra vários jovens independentistas galegos acusados de terrorismo. Quando estagiei na Agência Lusa, a primeira notícia foi sobre um ataque do Movimento para a Emancipação do Delta do Níger. Ler mais

Uma bala é uma bala

Eu tinha acabado de chegar à rádio quando a emissão foi interrompida por uma mensagem urgente de Hugo Chávez ao país. Os acontecimentos sucediam-se em catadupa e a sensação era de que a história não era apenas uma disciplina mas algo que caminhava em cima dos ombros daquela gente. Nos bairros chiques da parte oriental de Caracas, os ricos sabiam pela primeira vez o que era ter insónias e insinuavam que as empregadas domésticas eram agentes chavistas. Ler mais