Acender o rastilho do futuro

Nacional

Depois do fim da União Soviética, tentaram convenceram-nos de que a história havia acabado. Restava-nos o capitalismo para o resto da nossa existência enquanto humanidade. Como uma doença silenciosa, fizeram-nos acreditar que os sindicatos eram nossos inimigos, que as colectividades eram algo fora de moda e que os partidos comunistas estavam ultrapassados. Fomos domesticados e as cidades foram higienizadas. Passámos a gostar de ruas cheias de anúncios publicitários, das praças vazias e do silêncio.

Achamos que progresso é ter um McDonalds ou um KFC. Os lugares onde vivemos, a pouco e pouco, perderam a identidade e passaram a ser todos iguais. Deixámos de ver manifestantes como gente de bem que luta por todos nós e deleitámo-nos com piquenicões do Continente ou com megas feijoadas na Ponte Vasco da Gama. A pouco e pouco, a arte e a cultura foi-se esvaziando de conteúdo. Os cinemas fecharam e passámos a gastar os nossos dias a ver Netflix.

Enquanto nos esvaziavam a alma, traímos a memória dos nossos pais e avós. Começámos a desdenhar quem vive do seu trabalho e a celebrar os vendedores de banha da cobra. Primeiro foram os empreendedores e o mito de que sozinhos e com muito trabalho conseguíamos ser melhor que os outros. Dantes, o filho do operário, do sapateiro, da padeira, da costureira sabia que a união fazia a força e havia orgulho em ser-se parte dos que trabalham. Agora, está na moda a cultura criptobro, os que vivem fascinados com a bolsa, as criptomoedas e as apostas online. Deixámos de ser trabalhadores e passámos a ser colaboradores.

Já se sabe, tudo o que vem de fora é bom. Desde que venha dos Estados Unidos. E que não sejam imigrantes. Importa muito pouco que os nossos avós fossem migrantes descalços quase mortos de fome do Alentejo ou de Trás-os-Montes. Ou que vivessem em barracas. Agora, odiamos quem vem trabalhar e viver nessas condições e até nos ajoelhamos se for preciso quando se trata de um americano louro que vem dar-nos uma gorjeta. Fomos colonizados. Vendemo-nos. Eles ficam com as nossas casas e com as nossas praias. E não, não são os pretos e os indianos.

Deixámos que os bancos e os fundos imobiliários tivessem no governo os seus representantes. São eles que traçam o nosso destino. E chegámos ao ponto em que não nos podemos revoltar porque a violência é sempre má, menos quando é a polícia a violentar-nos. Aí encontramos todas as justificações. “Não querem trabalhar”, “são arruaceiros”, “a lei é para cumprir”. Neste tempo do team building, querem-nos calados, sem dignidade, sem coragem. Escravos. Só nos resta futuro colectivo com a ruptura com o actual estado de coisas.

Não, não és colaborador. És trabalhador. E vives fodido para pagar a casa, o colégio do puto e as compras do mês. Na era das percepções, querem vender-te a ilusão de que sozinho podes tudo e de que calado vais longe na empresa. Talvez um dia sentado na poltrona às portas da morte te dês conta da cobardia do que fomos e de que juntos poderíamos ter sido tudo. É o medo. O medo é a mordaça que nos põem todos os dias para que sintamos que melhor assim do que num lugar desconhecido.

Preferimos não arriscar do que pensar que talvez haja mesmo uma forma de vivermos todos melhor e que não haja um filho da puta a comprar iates e uma nova casa na Comporta com o dinheiro do nosso suor. Agora imagina que um dia incendiamos o horizonte e descobrimos que o riso das nossas crianças será um dia a nossa vingança, como escreveu um dia Bobby Sands. Imagina um país de gente digna, com a coluna vertebral intacta, que não prefere enfrentar o colega ou o vizinho a enfrentar os poderosos. Imagina o combustível colectivo que seríamos para queimar de uma vez por todas o sistema que permite que um ser humano possa ter centenas de casas e outro não tenha nenhuma, que permite que uma pessoa possa ganhar tanto num mês como milhares numa vida inteira, que permite que um primeiro-ministro, à frente de um governo, olhe para todos nós e diga, sem medo, que somos egoístas.

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