Só a revolução libertará a computação para a Humanidade

Nacional

Quando, em agosto de 2026, a Sony anunciou que em breve deixaria de produzir e distribuir o suporte físico dos seus jogos eletrónicos e passaria a vender licenças para jogar, através do recurso a licenças para transferência e instalação dos programas de software necessários apenas para visualizar nos ecrãs dos jogadores licenciados as imagens e os comandos associados a cada jogo, houve um pequeno tumulto silencioso na comunidade gamer. Esse tumulto teve algum eco na comunicação social e uma pequena influência no quotidiano social em que nos movemos.
Não é de hoje que o comprador não é o dono dos programas de software de código proprietário, sendo que o código pertence sempre à empresa que registou a sua propriedade industrial. Não é de agora que não podemos fazer o que entendermos com o código dos programas da Microsoft, da Oracle, da Apple, da Google ou de qualquer outra corporação do mundo do software. Por exemplo, nunca tivemos acesso ao seu código-fonte, nunca pudemos alterá-lo para melhor responder a necessidades pessoais ou sociais, nunca pudemos copiá-lo. Portanto, aparentemente, estamos apenas perante a alteração do acesso ao suporte físico do software e nada mais.
Todavia, quando encaixamos o movimento da Sony no cenário mais macroscópico da grande indústria das tecnologias, nomeadamente da computação e das comunicações, a questão já não parece de menor relevância. Na verdade, não estamos perante apenas uma alteração formal no que toca aos direitos do comprador, do gamer, do utilizador de software, mas perante uma alteração material e real da relação do utilizado com o código, a máquina, a computação e a comunicação.
Também não será irrelevante relembrar que a computação na nuvem não é uma forma de utilização do software completamente nova. Desde há muito que existem inúmeras ferramentas de produtividade, jogos e outros programas a funcionar exclusivamente em servidores e unidades de processamento cuja localização nos é desconhecida (a nuvem) e aos quais acedemos através de uma ligação à internet. Isso não significa, porém, que a dimensão que essa forma de acesso ao software vai tomando não tem impactos qualitativos na relação dos utilizadores com a máquina.
A computação na nuvem comporta inúmeras vantagens: concentra em grandes servidores e centros de processamento (data centres) a espinha dorsal do hardware, da infraestrutura necessária para a execução de complexos programas informáticos e permite aligeirar o recurso disperso a grande capacidade computacional; permite aceder a software pago ou não pago a partir de qualquer ligação à internet e permite executá-lo à distância sem a necessidade de utilização de grande capacidade computacional própria; permite desenvolver software que não fica dependente da capacidade de computação de cada utilizador, seja individual ou empresa e aliviar a corrida permanente às constantes melhorias necessárias no mundo do hardware.
Igualmente, o recurso à computação na nuvem encerra desvantagens evidentes: a necessidade de uma comunicação de banda larga com a rede, o pagamento de rendas de acesso ao software, com uma tendência para se tornarem periódicas e eternas, como já se verifica com muitas aplicações de uso profissional, comercial, industrial ou até académicas ou pessoais.
O surgimento da nova face das ferramentas de Inteligência Artifical, os LLM (Large Language Models) veio colocar na ordem do dia, na comunicação social, nas preocupações sociais e políticas, as necessidades de computação e do respetivo financiamento e investimento, especialmente através das polémicas em torno da construção e funcionamento dos centros de dados e dos seus consumos imediatos associados. Ao mesmo tempo, como o mercado de capitais bem ilustra com a bolha especulativa em torno da IA e dos processadores que fornecem a capacidade computacional necessária para o seu funcionamento pleno, há uma corrida para o monopólio dos chips, da tecnologia de impressão no silício e de toda a cadeia industrial relacionada com os semi-condutores.
A concentração desta propriedade, no atual contexto global – e agora colocando de parte as diversas questões geopolíticas que se levantam ou podem levantar – num restrito oligopólio com fortes laços com o centro imperialista norte-americano tem implicações brutais na forma como o mundo acede à informação, às comunicações, à computação e ao software. A questão fundamental tão-pouco se coloca apenas nos jogos da Playstation, apesar de poderem ter sido um primeiro sinal mais alarmante, mas no acesso geral à capacidade informática geral.
Num momento do desenvolvimento das forças produtivas e da tecnologia em que a capacidade computacional desempenha um papel mais fundamental do que nunca, a concentração da sua propriedade convoca a Humanidade para uma postura de resistência sob pena de toda sua conectividade, as suas ligações, o seu acesso à tecnologia informática ficar nas mãos de um punhado de grandes monopólios cada vez mais fundidos com o capital financeiro e o estado, num percurso fascizante e de consolidação do poder imperialista.
Enquanto a Sony anuncia a eliminação da distribuição da versão dos seus jogos em suporte físico, Musk pede uma autorização para colocar até um milhão de satélites dotados de capacidade de processamento em órbita com o fim de dominar todas as redes de comunicação do mundo e de construir a maior malha de centros de dados do mundo e Sam Altman afirma que é um desperdício existir DRAM espalhada pelo mundo num momento de escassez de memórias DRAM – essenciais para a computação avançada. Estas declarações de intenções não são apenas delirantes anúncios dos grandes grupos económicos da tecnologia, antes são uma janela para a forma como o capitalismo e os seus principais agentes vêem o planeta a vida humana na charneira decisiva dos tempos modernos.
A capacidade computacional que hoje ainda existe em empresas, indústrias, estados, universidades, computadores pessoais pode vir a ser extinta para ser concentrada totalmente nas mãos das grandes corporações que já anunciam que a pretendem concentrar e dominar. Mais, também anunciam que não pretendem apenas deter toda a atual capacidade computacional mas também o seu desenvolvimento potencial. Num contexto com essas características, todos – indivíduos, associações, escolas, universidades, empresas e estados – seríamos apenas os consumidores de um software alheio, de um hardware alheio e de uma rede de comunicações alheia. A dependência do pagamento de uma renda tornar-se-ia total enquanto se mantivessem formalmente privados esses meios e essas infra-estruturas. Uma empresa pode controlar todas as ligações da humanidade, todas as utilizações de todos os programas, todas as comunicações. Ao mesmo tempo, pode cobrar pelo acesso e apropriar-se dos resultados desse acesso.
Não é feudalismo porque é o expoente máximo do papel do capital financeiro, a fusão total do grande capital bancário com o grande capital industrial, a integração plena e total do estado no funcionamento do capitalismo a uma escala supranacional e porque a exploração continua a assentar – e até de forma crescente – sobre um cada vez maior número de assalariados, da mina à engenharia, todos submetidos à máquina capitalista suprema que tanto explora quanto controla.
Este movimento de concentração dos meios de produção, de apropriação dos resultados do trabalho e da cobrança de portagens para aceder ao conhecimento coletivo da Humanidade tem de ser travado agora.
E, ainda que exigindo regulamentação por ser a mais imediata reivindicação, todos sabemos que não será com regulamentação.

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