A guerra do avesso da guerra

Internacional

O avesso da guerra imperial contra o Irão é a guerra social contra os EUA: aquilo que por fora faz pontaria às crianças iranianas, aponta por dentro às crianças americanas. Dito de outro modo: os planos de explodir o Irão ameaçam implodir os EUA. Assumiu-o Trump, sem flores de retórica e com lixo entre os dentes, no início do mês: «Não podemos tratar das creches, do Medicare, do Medicaid [programas de saúde pública para os mais vulneráveis]. Todas essas coisas individuais… podem ser os Estados a tratar disso. Só temos de tratar duma coisa: protecção militar (…) Estamos a fazer guerras, não podemos tratar das creches». Dois dias depois, o magnata apresentou o orçamento para 2027: mais 445 mil milhões para a guerra, um aumento de 42% em relação a 2026 para uns fabulosos 1,7 biliões de dólares (quase seis vezes o PIB de Portugal). Se o avesso de um número é uma quantia negativa da mesma coisa, uma precisa ausência quantificada, uma falta que se sente, então, no forro de um orçamento para a guerra encontraremos outra guerra.

Uma guerra contra as crianças

Os mesmos que matam centenas de meninas numa escola do Irão, não poupam as crianças dos EUA. Um alvo a abater é o Programa Especial Suplementar de Nutrição para Mulheres, Bebés e Crianças (WIC), sem o qual metade das mães, bebés e crianças nos EUA não conseguiriam comer fruta nem vegetais. A Casa Branca quer cortar o valor deste subsídio de 54 para 13 dólares mensais no caso das mães lactantes e de 27 para 10 dólares mensais no caso dos bebés e das crianças. Da mesma forma, este orçamento propõe cortar em 69% o financiamento dos programas escolares de apoio às crianças pobres como o Programa de Educação Para as Crianças e Jovens Sem-abrigo ou o Programa de Literacia Integral para o Desenvolvimento dos Estados. Já outros programas, como o da Aquisição da Língua Inglesa para os filhos dos imigrantes, desaparecem. Trump também quer eliminar os Subsídios para o Desenvolvimento da Educação Pré-Escolar do Nascimento aos Cinco Anos, o único programa federal de financiamento de creches nos EUA.

Uma guerra contra a habitação

Para poder explodir as casas dos iranianos, a administração Trump precisa de destruir a habitação do seu próprio povo. Na calha para a eliminação também encontramos o Programa de Parcerias para o Investimento na Habitação (HOME) que, desde os anos 90, já ajudou a construir e reabilitar mais de 1,3 milhões de casas acessíveis para a classe trabalhadora. O mesmo destino teria o Programa de Assistência Energética para Habitações de Baixos Rendimentos (LIHEAP), que ajuda seis milhões de famílias pobres a manterem as casas quentes nos invernos extremos do Norte e fria nos verões tórridos do Sul. Da mesma forma, Trump quer eliminar o Programa Secção 8, que ajuda 2,3 milhões de famílias vulneráveis a pagar a renda.

Uma guerra contra os trabalhadores

Tal como no Irão, quem mais sofre com os ataques dos EUA são os mais pobres e os trabalhadores. O orçamento propõe acabar com os chamados Subsídios em Bloco para Serviços Comunitários, de apoiam 10 milhões de pessoas em situação de miséria extrema. Trump também quer cortar em 10 por cento o orçamento da Divisão de Horários e Salário do Departamento do Trabalho, que fiscaliza o cumprimento do salário mínimo, do trabalho infantil, de horas extraordinárias e do pagamento dos salários. Todos os anos, esta divisão devolve aos trabalhadores 0,5% dos 50 mil milhões de dólares em salários roubados pelos patrões, mais do que o valor total dos assaltos a casas dos EUA num ano.

Uma guerra contra o conhecimento

Se no Irão, os EUA bombardeiam universidades, hospitais, laboratórios e monumentos, no seu próprio  território o imperialismo não é diferente. Este orçamento vem cortar em 13%, 6 mil milhões de doláres, o financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde, a principal instituição de investigação em Saúde naquele país. O mesmo destino teriam os Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças, que arriscam um corte de 32%. Programas que financiam a educação superior nas regiões mais pobres, como o TRIO, o SIP ou o GEAR UP, seriam por e simplesmente eliminados. No total, os programas federais para o ensino superior soferiam um corte de 81%. Já os programas de educação técnica e profissional, literacia e alfabetização para adultos, como os Job Corps, sofreriam cortes de 90%.

A guerra imperial no exterior e a guerra social no interior são ambas expressões necessárias da mesma lei do movimento, uma unidade de contrários, uma relação dialéctica, entre aparência e essência, entre o que existe por dentro e o que se vê por fora, articuladas pela insaciável sede de lucro.

*artigo originalmente publicado no jornal Avante! n.º 2733 (16/04/2026)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *