Cândido, A voz que fez da palavra um acto de Abril

Nacional
Cândido Mota, Arquivos da Festa do Avante! 2014

Candido Mota, Arquivos da Festa do Avante! 2014

Há vozes que informam. Outras que entretêm. Depois, há daquelas raras que ficam na História, não só pelo timbre ou a presença que transcende, mas pelo sentido que carregam. A de Cândido Mota era dessas.

Partiu o camarada de mil lutas, mas não se apaga a presença. Há vidas que não cabem no tempo em que existiram, mas que se prolongam na memória colectiva, na cultura que ajudaram a construir, na luta que nunca abandonaram. 

Cândido Mota fez da palavra um lugar de encontro. Na rádio, abriu caminhos onde antes havia silêncio imposto. No 25 de Abril, a sua voz não foi apenas um instrumento, foi parte da própria libertação. Nos dias decisivos, no Rádio Clube Português, ajudou a dar forma sonora àquilo que o povo conquistava nas ruas. A palavra deixava de ser vigiada, passava a ser livre. E ele esteve lá, inteiro.

Foi tanto antes como depois daquela madrugada que se reconheceu a dimensão do seu percurso. Sendo militante comunista, nunca separou a cultura do compromisso mais amplo. Sabia que a arte não é neutra, que a palavra não é inocente, que a voz pode ser instrumento de alienação ou de consciência. Escolheu sempre o lado certo: ser a voz de uma cultura que se queria disruptiva e alinhada com a classe a que sempre pertencera.

Na Festa do Avante!, durante décadas, a sua voz tornou-se parte da própria identidade da Festa. Não era apenas quem apresentava. Era quem acolhia. Era quem marcava o passo, quem criava ambiente, quem, com uma sobriedade discreta, ajudava a transformar aquele espaço num território de fraternidade, cultura e luta. Ele era e será parte desse projecto de futuro que alavancamos e que a nossa Festa bem reflecte, apelando à participação de todos quantos queiram construir um futuro justo.

Para milhares, a Festa começava quando a sua voz se fazia ouvir. Era sua a voz que anunciava o início de 3 dias inesquecíveis, repletos de abraços, reencontros, amor e combate. E, nesse momento, havia algo mais do que programação cultural rotineira: havia comunidade. Havia trabalhadores, jovens, artistas, militantes, todos reunidos num espaço onde esse futuro justo parece mais próximo. A sua voz ajudou-nos a construir esse futuro, ainda que por instantes. Ajudou-nos a vislumbrá-lo, ao sol e à chuva, para que não mais o largássemos da mão.

Cândido Mota pertenceu a uma geração para a qual resistir não era apenas enfrentar a injustiça, mas era, também, transformação. Era criar espaços, criar cultura, criar consciência. Uma geração que não se resignou, que não se vendeu a outros interesses, que nunca traiu os seus ideais.

A sua forma de estar dizia tudo, mesmo quando já falava pouco. Rigor, coerência, disponibilidade, a serenidade de quem não precisa de provar nada, porque já escolheu o seu lado há muito.

Hoje, ao evocarmos o camarada Cândido Mota, não o fazemos apenas com saudade. Fazemo-lo com exigência. Num tempo de individualismo bacoco, em que tudo se torna mais superficial e descartável, a sua vida lembra-nos de que há outra forma de estar, mais firme, inteira e comprometida, que não é performativa, mas, pelo contrário, prima pelo compromisso constante.

O futuro constrói-se assim, não com grandes gestos isolados, mas com a persistência de quem, como ele, nunca deixou de fazer o que era preciso, onde era preciso. De quem transformava a excepção na regra.

E, por isso, mais do que uma despedida, esta é uma passagem de testemunho. Cândido Mota não irá até à Quinta da Atalaia para a 50ª edição da Festa que, indelevelmente, marcou, mas a sua presença e a sua voz continuarão a ecoar pelas suas avenidas. Ora, camaradas, amigos, visitantes da Festa do Avante!, façamos do exemplo de Cândido Mota um motor de esperança, com a convicção inabalável de que haverá sempre futuro enquanto houver quem sonhe.

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