A habitual falácia do PS

Nacional

Sempre que ao longo da história da democracia o PS quis substituir o PSD no poder, a estratégia foi sempre a mesma. Falar «à esquerda», exortar a esquerda a compromissos, mostrar vontade de coligações, intenção de propor acordos, de formação de maiorias, estabelecer concertações, mostrar que «agora é que vai ser de esquerda» e que vai ser diferente dos governos PSD/CDS. No período pré-eleitoral a disponibilidade foi sempre a melhor, a abertura a «entendimentos» foi sempre total. Contudo, em retrospectiva, uma coisa foi o discurso antes de eleições, outra coisa foi a sua prática depois de chegar ao poder. Foi sempre assim. Com Costa, já se percebeu, não só não está a ser diferente, como se prevê que vá terminar exactamente da mesma forma.

Se há coisa que o PCP não faz, nunca fez e nunca fará é assinar «cheques em branco»

A comunicação social tem dado especial contribuição à falácia. António Costa, sem dizer nada de substancial sobre as suas ideias para o país (sobre cortes e reposição de salários e pensões, sobre o tratado orçamental, sobre as privatizações em curso, sobre os benefícios ao grande capital, etc.) conseguiu sair do Congresso como grande timoneiro da «convergência de esquerda». Os jornais e os comentadores conseguiram extrapolar a ideia dessa grande disponibilidade do PS (mesmo, repito, com base em nada e coisa nenhuma) e transferir o «ónus» da hipotética falta de entendimento para uma qualquer «casmurrice» do PCP ou de outras forças à esquerda do PS. Até as declarações de Jerónimo de Sousa, óbvias e muito clarividentes, foram subvertidas e interpretadas como uma espécie de «princípio de aceitação». Nada mais falso.

Ora, como é sabido, se há coisa que o PCP não faz, nunca fez e nunca fará é assinar «cheques em branco». O PCP não faz «aceitações prévias» de nada, a não ser, como manda a mais elementar regra de responsabilidade e bom senso, comprometer-se a ouvir e a dialogar, sendo que essa natural disponibilidade não é nem pode ser encarada como «princípio de aceitação» de coisíssima nenhuma. Jerónimo de Sousa limitou-se a insistir naquilo que verdadeiramente importa. O que é necessário é saber em torno «de quê» António Costa e o PS estão dispostos a fazer entendimentos. De que políticas, de que medidas concretas, para servir quem e como? António Costa não respondeu a isso no congresso, nem vai responder no futuro, porque neste «esquema» montado uma vez mais pelo PS para atrair eleitorado, o que interessa não é a resposta nem a substância. O que aqui importa é que passe a ideia de vontade de convergência do PS, por um lado, e da irredutibilidade do PCP, por outro. Fica no ar a ideia de «boa vontade» e «espírito aberto» do PS, que só não conseguirá uma «convergência à esquerda» se os «irredutíveis gauleses» do PCP fizerem um finca-pé «habitual».

Para já, bem pode o PS contentar-se com o Livre – essa vacuidade política que vai sendo levada «ao colinho» pela imprensa – e continuar a tentar lançar falácias disfarçadas de «apelos ao entendimento». Enquanto António Costa não disser de forma clara que vai repor o que foi roubado, que vai estancar a sangria social em curso, que vai travar as privatizações e fazer o grande capital – e não os trabalhadores e os reformados – pagar pela crise que provocou, podem estar certos de que não terão da parte do PCP qualquer acordo ou sequer «princípio» de aceitação política.