A Liberdade

Nacional

A Liberdade abriu as portas das masmorras onde apodreciam os presos políticos, nacionalizou a banca e entregou as terras aos camponeses. A Liberdade encostou os pides à parede. Trouxe direitos e pensões, instituiu o salário mínimo, as férias pagas e o subsídio de desemprego. A Liberdade construiu creches, escolas e hospitais para todos.

A Liberdade levantou no alto das estátuas equestres uma bandeira vermelha, defendeu com a vida os Centros de Trabalho do PCP, proclamou a igualdade entre mulheres e homens, saiu à rua em Maio, ocupou as fábricas, declarou o fim da guerra e escreveu na Constituição que era para “abrir caminho para uma sociedade socialista”.

A Liberdade fez ecoar nos salões dos palácios as novas e as velhas canções da guerra das classes. Cantou o Acordai nas ruas, interrompeu o primeiro-ministro com a Grândola, Vila Morena e incomodou, como sempre desde sempre, os ricos de todas as partes do mundo.

A Liberdade roubou um pacote de feijão-verde no LIDL porque tinha fome e o salário de 500€ não basta para viver. A Liberdade invadiu o campo da bola quando os seguranças estavam a espancar um adeptoA Liberdade viu um trabalhador morrer a trabalhar ao sol e sentiu ódio quando leu as práticas esclavagistas do continente. A Liberdade acorrentou-se às escadas e disse que dali não saía a bem nem a mal, porque não se pode viver assim. A Liberdade conheceu a miséria desde pequenina e já escolheu há muito tempo o seu lado, na grande luta entre exploradores e explorados.

A Liberdade veio a Lisboa para dizer que não é justo trabalhar mais horas pelo mesmo valor. A Liberdade não teve medo e disse aos homens mais ricos que há greve no 1º de Maio. A Liberdade exigiu transportes públicos. A Liberdade foi despedida ao terceiro contrato, para não ficar efectiva e disse aos jornalistas que está farta de andar de part-time em part-time e de estágio em estágio.

A Liberdade ficou presa no estrangeiro quando a Patinter tentou boicotar a greve. A Liberdade teve medo pelo seu futuro e decidiu lutar contra o encerramento da Renoldy. A Liberdade “invadiu” o Ministério e foi detida no Porto, por pintar num muro uma foice um martelo.

A Liberdade prometeu: tudo para todos e nada para nós. Gritou cem mil vezes “a luta continua” até a voz lhe sair rouca e cem mil vezes mais até estremecer cada átomo do mundo e a sua vontade se fazer nervo. Cansada, por fim, a Liberdade sentou-se e escreveu um email aos amigos em que perguntava assim: “Vamos fazer deste 1º de Maio o maior de sempre?“.