A nova “ameaça vermelha” (actualizado)

Nacional

Quando um dia se fizer a história do processo pós-eleitoral de 2015, analisando a forma como a imprensa se mobilizou para caricaturar, marginalizar e descredibilizar uma solução governativa de ruptura com longo anos de submissão não disfarçada da política à finança e aos interesses das corporações nacionais e internacionais, não duvido que uma das conclusões prováveis se refira à forma como o medo foi arma de arremesso usada e abusada por um batalhão de fazedores de opinião fortemente empenhados em derrotar qualquer alternativa real ao status quo.

O que se passa na imprensa nacional é triste mas não surpreende. Na luta de classes há sectores da sociedade bem conscientes do seu lugar e do seu papel. Momentos como este que vivemos têm o mérito de tornar mais evidentes uma coisa e a outra.

Creio que o tempo é de resistir à tentação de entrar no debate sobre acontecimentos de há 80, 70, 60, 40 ou 25 anos atrás. Parece-me que a ruptura com a política de direita que poderá ainda surgir do complexo quadro pós-eleitoral nada tem a ganhar com estéreis discussões sobre posições do PCP relativamente a momentos históricos, análises de contexto ou relacionamentos institucionais de um passado que para a maioria dos portugueses pouco ou nada importa. De resto parece-me óbvio que atacar uma eventual participação do PCP numa solução governativa à esquerda através de referências a gulags, khmers vermelhos e maoismo é bem a ilustração não apenas da ignorância histórica daqueles que o fazem mas também – e sobretudo – de um quase patético estado de histeria que se instalou no meio daqueles a quem Serge Halimi chamou “os novos cães de guarda”.

Que os jornais se encham de notícias sobre o nervosismo dos mercados ou de artigos sobre o 25 de Novembro é coisa que revela bem a forma como o regime se sente relativamente ameaçado pela alteração da correlação de forças no seio da sociedade portuguesa. E se por um lado é bom não alimentar ilusões acerca da magnitude desta mudança, por outro lado parece-me justo e adequado não a desvalorizar nem remeter para a condição de detalhe pós-eleitoral. Fazê-lo seria entrar no jogo retórico em que a direita – a direita em sentido amplo, político, económico e mediático – quer paralisar o país.

Acontece que nem a democracia é um jogo nem o presente quadro pós-eleitoral é uma disputa sem real importância para o futuro de Portugal, dos portugueses e daqueles que aqui vivem e trabalham. Deixai-os dar largas ao seu desespero porque no fundo esse desespero é um bom sinal.

[imagem: capa da “Time Magazine” de 11 de Agosto de 1975]

post scriptum:
Relido o post fico com a sensação
de que o terceiro parágrafo carece de clarificação pois numa leitura
mais apressada pode muito bem ser interpretado como um convite a uma
certa forma de oportunismo; o que pretendi defender, eventualmente de
forma mal formulado, foi que neste contexto – neste em particular, até
clarificação em definitivo do quadro institucional pós-eleitoral – a
direita tudo fará para que o povo perca o foco do que é essencial: uma
ruptura com esta política e com estes protagonistas; é nesse sentido que
procura agitar espantalhos, activar estereótipos, alimentar medos
injustificados, caricaturar posições e análises dos comunistas
portugueses sobre temas e contextos diversas da história nacional e
internacional; creio que por hora é preciso resistir à tendência
(natural e compreensível) para dar resposta às provocações de que somos
alvo porque o aparente debate para que nos convocam é descontextualizado
e está armadilhado.