A Ucrânia na encruzilhada.

Nacional

Desaparecida dos telejornais, das manchetes dos jornais e das notícias radiofónicas a Ucrânia parece ter deixado de fazer parte da actualidade.

As previsões económicas que apontam para uma quebra de cerca de 11% do seu PIB são tão ausentes do noticiário português como a decisão de Poroshenko de banir da Ucrânia dezenas de jornalistas de várias nacionalidades, incluindo alguns da insuspeita BBC. O FMI encontra no silêncio noticioso, quebrado aqui e ali por peças da imprensa internacional mais alinhada com o sistema, terreno fértil para a imposição contínua de “reformas” bem nossas conhecidas. O preço a pagar pelo estreitamento das relações entre a Ucrânia e o chamado “Ocidente” é o empobrecimento do país e dos seus trabalhadores. Poroshenko não se queixa. No último ano não apenas a sua fortuna pessoal cresceu consideravelmente como os resultados da sua chocolateira Roshen se multiplicaram por nove, um inexplicável milagre económico no seio de um país à beira da catástrofe.

Entretanto as facções mais extremistas das forças que sustêm a Junta de Kiev consolidam a lei da selva nas ruas das grandes cidades ucranianas. Perseguições, espancamentos e homicídios – como aquele que vitimou o jornalista Oles Buzina, em Abril de 2015 – são parte do dia-a-dia da “nova Ucrânia”. Em Karkiv, por exemplo, uma multidão de encapuçados tomou de assalto o edifício das autoridades políticas locais. Imagens difundidas pelo canal RT mostram uma linha de polícias aterrorizados a serem violentamente agredidos por um batalhão de fascistas. A Berkut deu lugar a um corpo de polícia desmoralizado e impotente face à brutalidade dos nossos senhores da Maidan.

A acção violenta dos grupos nazi-fascistas que impõe a sua “lei” tenderá a agravar-se já que boa parte daqueles que Kiev envia para aterrorizar as populações do Donbass são membros de estruturas de extrema-direita, herdeiros directos dos batalhões SS ucranianos de Stepan Bandera. Declarações recentes do Coronel Alexander Pravdivets, responsável pelo recrutamento militar no país, dão conta da deserção de cerca de 16.000 homens mobilizados para o leste do país, “parte significativa dos quais” na posse de armamento. Não são necessários grandes poderes adivinhatórios para se chegar à conclusão de que boa parte destas armas cairão nas mãos do crime organizado ucraniano, incluindo aquele que usa suásticas e o Wolfsangel do batalhão Azov na manga do casaco.

O processo de paz ucraniano é frágil e as provocações às autoridades federalistas do Donbass somam-se. Os acordos de Minsk sofrem sucessivas violações, incluindo nos pontos em que aparentemente se verificam avanços objectivos (a alteração constitucional que concede maior autonomia aos territórios do Leste é uma farsa que não contou com a participação dos federalistas de Donetsk e Lugansk na sua elaboração, tal como previa o ponto 11 do segundo acordo). Poroshenko não deseja a paz e a Junta de Kiev tudo fará para deitar sofre a fogueira quanta gasolina seja necessária. A NATO terá então portas escancaradas para chegar onde sempre desejou e Poroshenko venderá “chocolates” como nunca antes.

Trata-se de uma situação para ir acompanhando com atenção.