Até os mortos vão ao nosso lado

Nacional

Vi-te num canto, num dia de chuva em Janeiro. No meio de tanta gente, estavas tu, recolhido, perto de uma janela onde pudesses fumar. Fixava-te porque me intrigavas. Não sei bem porquê, mas sentia que tinha que te falar. Assim foi. Falaste-me de Génova, de música clássica, de punk, do teu ofício de leitor, de dentes e de cães.

Desde esse dia que falámos sempre e sobre tudo. Estavas sempre perto, tu e a tua máquina fotográfica. Em todas as lutas, lá estavas tu. Nunca deixaste de ser assertivo e agressivo quando não concordavas. Não deixavas nada por dizer. Detestavas os amigos que não respeitassem a solidão e que não te fizessem companhia.
E eu sempre respeitei demasiado a solidão. 
Fizemos gatinhos que contestam, nas redes e nas paredes, brincámos com espadas de laser, dançámos músicas que não suportámos, escrevemos peças, rimo-nos de nós, limpaste-me todas as lágrimas quando a vida já não parecia possível de decifrar. Ouvias-me e falavas-me. Festejámos golos e algumas vitórias que são inconfessáveis. Deixaste num muro palavras só para mim.
A morte de alguém que amamos é sempre um duro golpe. Quando amamos e respeitamos, o golpe adensa-se e abre feridas que não sabemos se algum dia poderão ser curadas. O que podemos fazer é respeitar a existência, em toda a sua plenitude e celebrá-la. Celebro a tua luta, o teu compromisso, a tua coerência, a tua irascibilidade mas, e sobretudo, a tua amizade. O tanto amor que tinhas em ti. O tanto amor que sabias dar. O tanto amor que tinhas pela vida, pela humanidade. Celebro-te, Ricardo.