Autor: Manifesto74

A arte de desinformar

Portugal não é um país com muita população. Assim, os grandes iniciativas de massas, com dezenas e centenas de milhares de pessoas são fenómenos raros e por isso mesmo alvo de grande atenção mediática. Num breve exercício de memória, podemos recordar grandes acontecimentos e celebrações desportivas, manifestações do movimento sindical e de outros movimentos sociais, alguns eventos religiosos, santos populares, grandes concertos e espectáculos musicais com artistas internacionais de renome. Haverá mais um ou outro exemplo, mas não muitos mais. E, com excepção das grande manifestações sindicais, estes acontecimentos são alvo de grande divulgação e atenção mediática, antes, durante e depois de terem lugar.

A Marcha Nacional A Força do Povo, ocorrida ontem e promovida pela CDU, segundo a sua organização teve a participação de cerca de 100 mil pessoas. Não discutirei este número, não tenho essa intenção ou objectivo, pois, tendo participado nesta Marcha, em nenhum momento consegui ver o seu início e o seu fim devido à sua magnitude. Mais importante do que a precisão científica de um número final, importa sublinhar a sua dimensão humana e impacto político.

Eu gostaria de referir que sou de uma região longe de Lisboa. Onde o PCP não tem a implantação que precisava para melhor intervir, e onde a CDU não tem nenhum deputado ou sequer vereador eleito, tão pouco qualquer maioria em Junta de Freguesia. E desta região, saíram cerca de 700 democratas para a Marcha. Portanto, fica claro que, não sendo esta Região uma excepção positiva à regra, a Marcha foi uma iniciativa com muita, muita gente.

Se iniciativas desta dimensão humana são raras, com a natureza de apoio político são ainda mais raras. Nas últimas largas décadas, as únicas iniciativa de dimensão e natureza semelhante foram as marchas do PCP em 2008 e da CDU em 2009. Ou seja, a marcha de ontem foi singular e seria expectável que sob qualquer critério com o mínimo de razoabilidade tivesse uma cobertura noticiosa relevante. Mas não foi nada disso que aconteceu…

RTP empurra para a frente

O Telejornal da RTP não considerou que a Marcha fosse motivo de abertura, pelo contrário, empurrou-a para o mais tarde que conseguiu. Assim, apenas 20 minutos após o seu início veio a primeira de duas curtas peças sobre a Marcha. A ordem cronológica do Telejornal até à Marcha foi, a abrir o caso Sócrates, depois Passos sobre Sócrates, incêndio em fábrica de tintas, convenção do PS, lesados do BES, iniciativa de PSD e CDS(repescada, pois tivera lugar no dia anterior), novamente a convenção do PS(só sobre a convenção do PS foram mais de 6 minutos), e eis que, finalmente, a CDU.

As duas peças juntas, as tais que apenas ao fim de 20 minutos a RTP apresentou, tiveram os tempos somados de 3 minutos. Em nenhuma das peças houve qualquer plano panorâmico sobre a Marcha, apenas imagens focadas sobre quem estava em palco ou pequenos grupos de manifestantes.

Na segunda peça houve um breve roda-pé sobre o número de autocarros(que rapidamente saiu de imagem), nas duas peças houve 3 entrevistas a participantes, não se tendo feito qualquer referência aos números da organização sobre o total de participantes. Apenas se soube que a Marcha “reuniu várias gerações”.

Na SIC, a estrela foi a Branquinha 

A SIC conseguiu fazer um pouco pior que a RTP, conseguiu ridicularizar-se ainda um pouco mais.
O Jornal da Noite da SIC também empurrou a Marcha da CDU mais para a frente, abriu com o caso Sócrates, seguiu para a convenção PS e, ao fim de 9 minutos, lá chegou uma única peça sobre a Marcha.

A primeira imagem da peça, o primeiro impacto, que a SIC dá da Marcha é a de uma cadela a beber água, seguem-se mais 40 segundos com a cadela a beber água e/ou em acrobacias rumo ao colo do dono, e ainda uma entrevista ao dono onde o telespectador fica a saber que a branquinha “é um cão espectacular que veio da rua”, dos 4 minutos totais que durou a peça da SIC, os primeiros 40 segundos foram passados nisto.

Após o destaque a Branquinha, uma imagem positiva da cabeça da Marcha, a que se seguiram diversas entrevistas aos participantes, o que não teria mal nenhum desde que não se entendesse que esses grandes planos individuais seriam instrumentais para esconder tudo o resto que se passava à volta, como de facto aconteceu. Seguindo esta linha de encobrimento, a SIC colocou em imagem na peça um momento em que o grande plano é uma Praça dos Restauradores mal composta e com a Marcha ainda por chegar.

De resto, mais do mesmo, nenhuma perspectiva panorâmica sobre a Marcha e da intervenção de Jerónimo de Sousa tivemos 31 breves segundos(a Branquinha teve 40 segundos de atenção). Nenhuma referência ainda ao número de participantes da organização, ou outros por tentativa de aproximação. O telespectador limitou-se a ouvir que foram milhares…o que conjugado com as imagens exibidas permitiria eventualmente concluir que não estariam muitos milhares.

A TVI não foi a pior

A TVI seguiu um critério semelhante ao da RTP e SIC. Contudo com algumas diferenças que é justo referir.

Devido à final da Liga dos Campeões de futebol, o Jornal das 8 começou às 19:00. Cronologicamente, a sua sequência de abertura foi(e a esta hora ainda não havia notícias de Sócrates) a final da Liga dos Campeões, o incêndio na fábrica de tintas, a convenção do PS, iniciativa de PSD e CDS(tal como a RTP, também foi repescar uma iniciativa já do dia anterior), e finalmente a Marcha numa peça de apenas cerca de 2 minutos.

A peça da TVI destaca-se das peças da RTP e SIC apenas por dois motivos, foi a única que, pelo menos, tentou dar uma imagem panorâmica que reflectisse dentro do possível a dimensão da Marcha e foi a única que citou o número de manifestantes referido pela organização. Os seus breves 2 minutos assim até nem pareceram tão maus, e terão permitido ao telespectador ter uma ideia da dimensão da Marcha.

Em relação aos jornais de Domingo dia 7, zero. 

Nos quatro principais jornais generalistas de hoje, Domingo dia 7 de Junho, nenhum faz qualquer referência de capa sobre a Marcha de ontem. O Público deu a sua fotografia de capa a um “caçador de tesouros” e é o único jornal que faz uma breve, mas errónea no conteúdo, referência ao “líder do PCP”. Ao que parece no desenvolvimento da notícia d’O Público lá vem a fúria, a aldrabice e a cegueira costumeiras.

Creio que estes encobrimentos e desaparecimentos da Marcha Nacional A Força do Povo, nas várias deturpações publicadas, pelo estilo, natureza e forma, pelo método e conteúdo, não serão mera azelhice ou coincidência, falta de atenção ou de pessoal de serviço. Antes reflectem opções políticas e ideológicas dos proprietários económicos da comunicação social, ou proprietários fácticos das suas linhas editoriais, colocando-as ao serviço dos grandes grupos económicos, intoxicando e subvertendo o papel e função da comunicação social.

Quem paga, manda. Quem tem o poder, manda. E as eleições vêm aí. A CDU, o seu projecto e a sua força humana são incómodas, são para desaparecer, por forma a que tudo siga como até agora. Pensarão eles.

P.S.- a Marcha da CDU observada pela perspectiva da televisão venezuelana TeleSur aqui
P.S.2- para que não haja qualquer mal-entendido, gostava que ficasse claro que gostei de ouvir tudo o que os camaradas e amigos presentes na Marcha disseram e como disseram aos órgãos de comunicação social(as suas motivações são as minhas). Estamos na Luta!

* Autor Convidado
Filipe Guerra

De pequenino se torce o bastão extensível

A esmagadora maioria dos fenómenos sociais, económicos, culturais e até pessoais, são mais claros e mais bem explicados quando analisados à luz da luta de classes. Mas há alguns que saem desta esfera de análise e pertencem a algo milenar: a estupidez humana.

Isto a propósito da celebração do Dia Mundial da Criança em Portalegre. Achou por bem a câmara municipal, presidida por Adelaide Teixeira, independente do movimento CLIP – os independentes, esse milagre da evolução democrática -, e a PSP local integrar a simulação de uma manifestação nas comemorações da data. Um mini-corpo de intervenção contra um mini-grupo de manifestantes. Crianças armadas com pequenos escudos e bastões a serem atingidas por bolas de papel que simulam pedras da calçada arremessadas por outras crianças.

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Até Sempre Comandante Mozgovoy

(Mozgovoy intervém nas celebrações da Revolução de Outubro)

Alexey Mozgovoy terá falecido hoje, vítima de um atentado, juntamente com mais três pessoas. Mozgovoy, originário da região de Lugansk,  foi poeta e solista de coro antes do despoletar do processo de fascização da Ucrânia, contra o qual se opôs activamente desde o início das manifestações pro-UE na Praça Maidan de Kiev, fundando o Batalhão rebelde Fantasma. Mozgovoy desde o início da guerra apelou à reconciliação de todos os ucranianos, de Oeste e Leste, insistindo na ideia da separação entre classes no interesse pela guerra civil e na necessidade de punir os oligarcas pela guerra e pelo saque do país.

Pela sua lucidez, coragem, exemplo e estímulo, Mozgovoy tornou-se um alvo prioritário. Por diversas vezes a sua morte foi tentada(e anunciada), surgindo daí a alcunha de Fantasma para o seu batalhão.
O exemplo de Mozgvoy perdurará.

* Autor Convidado
Filipe Guerra

Democratizar a Cultura, valorizar os seus trabalhadores

O PCP tem feito uma série de audições públicas que visam recolher depoimentos, propostas e ideias que possam enriquecer o programa eleitoral a apresentar às eleições legislativas. No dia 18 de Maio, foi a vez da Cultura, num debate bastante participado e intitulado “Democratizar a Cultura, Valorizar os seus Trabalhadores”.

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Ser arquitecta no país da austeridade, por Joana Pereira

É bom projectar a cidade, projectar o habitar, projectar cada espaço que serve o ser humano… para mim e para nós é uma função primordial, pois é presença constante em tudo no nosso quotidiano e que gera não só relações lógicas de vivência dos espaços, como também cria o património do amanhã.

É bom projectar, ser criativo e ter ideias para ajudar a solucionar problemas, as pessoas dizem; “oh arquitecto, como é que eu nunca me tinha lembrado disso antes?”, “oh arquitecto, era mesmo isto que eu queria”, “oh arquitecto precisava disto”, “oh arquitecto o que acha daquilo”. E é bom quando isso acontece, significa que de uma forma ou de outra o reconhecimento do nosso trabalho vai ganhando terreno. Mas infelizmente nem sempre isso acontece… e é então que me pergunto, porque continuamos nós sem uma tabela de honorários fixa e actualizada que possa defender estes arquitectos, que já vulneráveis às desculpas de uma suposta crise, não têm algo que os unifique e proteja… Desta forma, e desculpem a expressão, irão continuar a deitar-se muitas calças abaixo para que se consiga algum trabalho que coloque pão na mesa…

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“Medo e Revolução” por João Viana

A minha amiga Lúcia Gomes pede-me um texto e, em troca, dá-me liberdade para o escrever. Aceito a medo. Nas últimas comemorações do 25 de abril, ao olhar para um grupo que desce a avenida ostentado um cartaz onde se lê CORAGEM, dá-se o click. Vou falar-vos sobre o medo e também sobre revolução.

A forma como o medo pode durar e durar até perder-se nos tempos, mas também a forma como num simples piscar de olho o medo pode ir-se embora, dando lugar a uma revolução de criatividade, felicidade, progresso e tudo o mais que se quer da vida…. Há muito, muito tempo, lá na minha terra, em África, isto de que vos vou falar aconteceu.

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Ser técnico superior no país da austeridade, por Luís Capucha Pereira

Sou o Luís, tenho 34 anos, e dizem que sou um privilegiado. É o que me fazem crer, e a realidade, muito sem eu querer, obriga-me a anuir – tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições. Nunca ganhei muito, mas o salário nunca atrasou.

No entanto, desde 2008 que não tenho aumentos. Um terço do meu salário esvai-se em impostos diretos. Já não era bom, mas tem piorado, fruto da sobretaxa de 3,5% em IRS, do aumento dos descontos para a ADSE, eu sei lá!, até tenho medo de olhar para o meu recibo de vencimento…
Como sou um privilegiado, impuseram que trabalhasse 40h semanais como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou um privilegiado, impuseram que tivesse 22 dias de férias, e não 25, como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou privilegiado, retiraram-me quatro feriados – um privilégio para todos os trabalhadores portugueses: esses privilegiados de grau diverso. (É preciso… pois!) Tenho a minha carreira congelada e, quando descongelar, sei que vou demorar 10 anos para progredir um pouquinho, para esperar mais dez anos para progredir mais outro pouquinho e, assim, de dez em dez anos, até à reforma cansada (com sorte e o colesterol controlado talvez dure além da esperança!).

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