Das Primaveras do capital aos Outonos que nos querem impor

Nacional

O frio nos países nórdicos é uma realidade inultrapassável e, ainda assim, os habitantes desses distantes povos andam vestidos em casa, no Inverno, como nós andamos vestidos na rua durante o Verão. As casas dos pobres dos países mediterrânicos são uma merda. Estão mal isoladas, são feitas de materiais baratos e não têm aquecimento central. Andamos em casa como se estivéssemos na rua e, no Sul da Europa, onde os termómetros raramente baixam dos zero graus, um gajo sente mais frio que na Escandinávia.

Em pleno Inverno, um grupo de voluntárias da Cruz Vermelha vestiu a roupa de Verão para uma sessão fotográfica. O objectivo é produzir um calendário cujas receitas revertam a favor daquela instituição. Vários órgãos de comunicação social fizeram eco do acontecimento. Com roupa de Inverno, e sem qualquer referência dos media, uma dezena de trabalhadores recebeu a carta de despedimento da Cruz Vermelha. O que é que têm em comum as raparigas que apareceram nos telejornais? Colaborarem gratuitamente com a Cruz Vermelha. O que é que têm em comum os trabalhadores que não apareceram nos telejornais? Exercerem a sua actividade profissional a troco de um salário e serem todos sindicalizados.

Há dias, uma notícia de um conhecido jornal nacional falava das regalias dos trabalhadores da TAP a propósito da greve marcada para o fim deste mês. Curiosamente, por engano ou não, na mesma notícia, o secretário de Estado dos Transportes era citado e referia-se a direitos ao contrário do jornalista. Já sabemos que há muitos profissionais da comunicação social que reagem de forma pavloviana aos comunicados ministeriais e aos comunicados sindicais. Os primeiros representam a pureza textual e os segundos contêm uma linguagem marcadamente ideológica que há que depurar.

Para se saber, através dos media, as razões que levam trabalhadores a avançar para uma greve há que esperar por uma acção de luta que se localize para lá das nossas fronteiras. Quando rebenta uma paralisação em Roma, Atenas ou Madrid, as reportagens enchem-se de imagens de gente que combate por melhores condições de vida. Quando rebenta uma greve em Portugal, as peças jornalísticas fazem-se com lamuriantes reportagens sobre as duras consequências da luta dos trabalhadores sobre outros da mesma condição com que nenhum jornal alguma vez se preocupa. O direito ao trabalho é, de facto, a coisa mais importante para governantes, patrões e jornalistas. Mas só em dias de greve.

E o discurso indignado dos media sobre os negros assassinados nos Estados Unidos? Os mesmos que são capazes de inventar todos os motivos para justificar a execução policial de jovens negros nos bairros da Amadora são os que derramam lágrimas e apresentam peças compreensivas para a revolta anti-racista em várias cidades norte-americanas. E os antifascistas de Donbass que são pró-russos nas páginas dos mesmos jornais que glorificaram a revolta ucraniana liderada por nazi-fascistas? É assim que funcionam os termómetros nas redacções. A temperatura é a que os seus donos impõem. Primaverizam-se revoltas que interessem aos grandes grupos económicos e financeiros. Outoniza-se a esperança que não desarma e que empenha todas as suas forças para transformar o mundo em que vivemos.