Fausto: Para lá do que é eterno

Nacional

Foto de Egídio Santos, captada na Festa do Avante! de 2015.

A 26 de Novembro de 1948, nascia-nos Fausto Bordalo Dias a bordo do navio Pátria, em pleno Oceano Atlântico, em alto-mar, por cima das águas. E parece que não podia ser de outra maneira. A 19 de Novembro de 2022, o seu disco-epopeia Por este rio acima, inspirado nas viagens de Fernão Mendes Pinto, completava 40 anos de pimenta e maravilha. Foi na amplitude de uma Aula Magna transbordante de emoções que centenas de navegantes se reuniram para os celebrar, como quem celebra o aniversário de um melhor amigo comum. No dia 20, voltariam outros tantos a navegar rumo ao edifício da Reitoria da Universidade de Lisboa, já que a primeira data esgotara num piscar de olhos. Também não podia ser de outra maneira.

Fausto entra em palco conduzido por um assistente, começando, desde logo, a provocar sacos lacrimais alheios. Não são lágrimas de tristeza, não. São lágrimas de quem está perante a generosidade de um homem cuja voz-caravela, a voz-barlavento, se apresenta, de novo, e cada vez com mais esforço, para fazer um mar de gente feliz, neste país pequenito que engrandece; neste país que, se cantasse, soaria assim. Ouvir-se-á por aí que a sua voz já fraqueja há alguns anos, que já não é o que era, que até se terá enganado num ou noutro verso. Não é mentira. Mas a verdade é bem mais bonita do que isso. Quando a sua voz dá sinais de fraqueza, os fiéis tripulantes compensam, em uníssono, num concerto cujo coro era composto por todos nós. Estávamos todos a postos, ao leme, para que o navio voasse. Arrepia, sim senhor.

Tal como ninguém se zanga como José Mário Branco; tal como ninguém comove como Zeca Afonso, ninguém faz estalar esta alegria de costas largas e arranjos pujantes como Fausto. O nosso Fausto de veia maruja. Uma alegria própria, desconcertante e unificadora; colorida e desvairada, da qual escorre o gengibre e o mel; uma alegria dionisíaca de sabedoria e interjeições; de quem habita a impaciência do cavaquinho, entre as quatro paredes do sonho. A ouvir Fausto, ninguém tem frio; a gente vai a voar, em polvorosa, ao ritmo de uma banda exímia e de vozes às quais Fausto confia a responsabilidade de interpretar alguns dos temas. O vigor da bateria de Mário João Santos, que traça o seu caminho em direcção ao peito, ou a doçura também vigorosa da voz de Luanda Cozetti, renovando O que a vida me deu, amparam-no, num rasgo honesto, digno e inesquecível. Não fomos lá assistir a um concerto isolado, como outro qualquer. Nem sequer fomos celebrar apenas o álbum que acabava de se tornar no quarentão mais bonito do mundo. Seguimos antes numa Peregrinação, para celebrar aquele homem que é tão grande, e aquela obra ainda maior do que ele, tão imponente quanto terna; tão erudita quanto popular. O que aplaudíamos, então, não era só a sua prestação, mas todos estes anos de genialidade criadora que vieram desaguar àquele auditório cheio de vida, e que ficarão fossilizados na memória colectiva.

O nosso Fausto, tal como o de Goethe, terá sempre uma parte imortal que fica e pega de mergulhia. Fausto Bordalo Dias não é a fragilidade da sua voz ou do seu corpo. É canções que são monumentos; é para lá do que é eterno; salas cheias de amor e lágrimas; é cada um de nós a cantar de cor e a gritar ó é tão lindo, ó é tão lindo, e Malaca, Malaca, e na verdade o que nos dói é que não queremos ser heróis. É o casal idoso que, de mão dada, o acompanha há décadas; é a menina de 10 anos que já canta de trás para a frente os refrões; é os sonhos lindos que nos lembra e não acabam; todos nós a crescer, insubmissos, entre açucenas; todos os que bem sabem que quem conquista sempre rouba; que isto que é de uns também é de outros; é esta que vos escreve e que se emociona ao ouvi-lo cantar palavras como “garrida” ou “gangrena”, recordando que foi com ele que as aprendeu; é um aplauso final que faz doer as palmas das mãos e se prolonga no tempo, aguardando o regresso daquele que nasceu a navegar.

4 Comments

  • João Melo

    27 Novembro, 2022 às

    Fausto, português angolano nascido no Huambo, homem não do mundo, mas de toda a humanidade, a humanidade plena. O gênio de “Por este rio acima”, disco que não me canso de ouvir, sempre novo, inesperado e poderoso. Obrigado por este belo texto!

  • Maria da Luz

    22 Novembro, 2022 às

    Oh é tão lindo! Obrigada Fausto, obrigada Milene.

  • Luis Filipe Almeida Ferreira

    22 Novembro, 2022 às

    Sou fã de Fausto Desejo-lhe os meus 18 anos.
    Nasci em 1959.

  • António Pires

    21 Novembro, 2022 às

    Agradeço a Milene Vale por este pedaço enorme do texto, e ao Manifesto pela sua publicação. Obrigado a ambos. Pedir desculpa ao autor e a Mankfesto por o ter partilhado.

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