L: lugar de fala

Teoria

L: lugar de fala

O conceito de lugar de fala parte de duas premissas correctas para chegar a uma conclusão errada. Por um lado, é necessário e desejável que os actores sociais se representem a si mesmos: é claro que devem ser as mulheres a encabeçar as suas próprias lutas; ninguém duvida de que não há ninguém melhor que um operário para falar sobre a luta dos operários e é óbvio que os homossexuais não precisam que os heterossexuais sejam os porta-vozes das suas reivindicações. Por outro lado, também é certo que a sociedade de classes atribui às “verdades” de diferentes actores sociais valores distintos.

Através da lente pós-estruturalista, estas duas constatações levam à conclusão de que, por exemplo, quando um homem fala sobre a luta das mulheres está a reproduzir a sua posição de poder numa performance que perpetua a secundarização da mulher. Por esta lógica, os brancos não deveriam combater o racismo, os homens não poderiam combater o machismo e os portugueses não deviam falar sobre os palestinos. Esta lógica (oposta ao universalismo do marxismo, que convoca todos os trabalhadores do mundo para uma união em torno da classe que ultrapasse todas as diferenças) proíbe a solidariedade e fecha cada luta numa redoma identitária desligada da realidade económica e social.

Por outro lado, o lugar de fala representa um gigantesco passo atrás na tradição racionalista da esquerda: em vez de uma considerarmos uma ideia correcta ou errada a partir da evidência empírica, da argumentação e de critérios logicamente demonstráveis, com o lugar de fala não precisamos sequer de considerar a ideia, bastando apenas catalogar e desautorizar o seu portador em função de características suas, uma falácia antiga também conhecida como ad hominem. Assim, Engels, que era capitalista e alemão, não teria legitimidade para “falar” sobre a classe operária inglesa e deveríamos reconhecer a Luc Mombito, o melhor amigo de André Ventura, mais legitimidade para falar sobre a luta anti-racista que a Jerónimo de Sousa.

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

 

1 Comment

  • Guilherme

    10 Julho, 2021 às

    Esta questão de ‘deferência epistémica’ é nociva e leva ao pior tipo de política de esquerda, àquela baseada na diferença e no particular.

    A deferência epistémica apresenta-se como uma solução para um problema epistémico e político. Mas não só não resolve esses problemas, também adiciona outros novos.

    Pode-se pensar, e bem, que as questões de justiça deveriam estar principalmente preocupadas em consertar as disparidades em torno dos cuidados de saúde, condições de trabalho e segurança material e interpessoal básica. Mas mesmo assim, as conversas sobre justiça passaram a ser moldadas por pessoas que têm conselhos práticos cada vez mais específicos sobre como consertar a distribuição de atenção e poder de conversação.

    As práticas de deferência que servem as campanhas focadas na atenção (por exemplo, “lemos muitos homens brancos, vamos agora ler algumas pessoas de cor”) podem errar nos seus próprios termos altamente questionáveis: atenção a porta-vozes de grupos marginalizados pode, por exemplo, desviar a atenção da necessidade de mudar o sistema social que os marginaliza.

    E aqui chegamos à consequência mais perniciosa desta lógica: a sua instrumentalização pelas elites destes grupos, os membros da diáspora que, mais vezes do que não, são frutos do recorte mais abastado da dada população de imigrantes.

    As elites de grupos marginalizados podem beneficiar deste arranjo de maneiras compatíveis com o progresso social. Mas tratar os interesses das elites do grupo como necessariamente ou mesmo presumivelmente alinhados com os interesses do grupo em si envolve uma ingenuidade política que não podemos permitir.

    Tal tratamento dos interesses da elite funciona como uma Reaganomics racial: uma estratégia baseada em fantasias sobre a taxa de câmbio entre a economia da atenção e a economia material.

    Talvez os sortudos que conseguem empregos que condizem com a descrição mais culturalmente autêntica e esteticamente radical da carnificina constante estejam realmente a ganhar um ponto para a ‘sua’ cultura.

    E depois de obterem a influência que merecem e assegurarem a sacola, o seu conteúdo irá eventualmente escorrer para os trabalhadores que fazem a limpeza depois das suas conferências, para as favelas das megacidades do Sul Global, para o seu interior.

    Mas provavelmente não.

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