Todos os artigos: Teoria

Dicionário de confusões conceptuais

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

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Z: Zelensky

Z: Zelensky

A guerra canonizou-o. São Zelensky nem teve subir a uma azinheira para aparecer aos portugueses como o presidente perfeito que nunca tivemos: corajoso, altruísta, humilde e honesto; um marido invejável na corrida ao Prémio Nobel da Paz; material incorruptível para fronhas e velinhas à prova de extremistas e oligarcas. Tudo muito lindo, mas devagar com o andor que o santo é de barro.

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Y: youtube

Y: Youtube

Corriam os idos de 2006 quando a revista Time convidou o público, investido digitalmente com o poder da web, a decidir democraticamente quem seria a “pessoa do ano”. Dada voz à internet, a internet falou e elegeu, com 35% dos votos, Hugo Chávez. Mas, em vez do democraticamente eleito Hugo Chávez, nesse ano, a pessoa do ano foste «TU». O florão numa janela de Youtube, num ecrã de iMac, na capa da revista, vinha acompanhado da epígrafe «Sim, tu, tu controlas a idade da informação. Bem-vindo ao teu mundo». Estava dado o mote para a democracia na era das redes sociais.

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Sobre o resultado das eleições

Perdi a conta ao número de variações de “o povo é burro e vota mal, agora vai ter o que merece, pobres de direita” que li no rescaldo das eleições.

Mas é claro que os pobres “são” de direita! Ao dominar a infraestrutura da sociedade, o capital domina também a sua superestrutura, tendo o monopólio da criação e circulação de ideias. A maioria das pessoas que vivem nesta sociedade com esta cultura partilham dessas ideias hegemónicas. Essa ideia de que os explorados não sabem o que é melhor para eles e votam contra os seus interesses por tacanhez é elitismo, é ter uma ética de esquerda mas uma epistemologia de direita, é uma ideia que nasce duma posição destacada, à parte e acima do povo.

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Justiça portuguesa ajuda neonazis a voltar a matar

Foi assim que um juiz português justificou a alteração da medida de coacção do conhecido e cadastrado neonazi Mário Machado para ajudá-lo a ir combater para a Ucrânia: “assim sendo, e considerando a situação humanitária vivida na Ucrânia e as finalidades invocadas pelo arguido para a sua pretensão, o arguido poderá deixar de cumprir a referida medida de coacção”.

Mário Machado, um dos assassinos de Alcindo Monteiro, é um criminoso condenado por várias agressões, roubo, sequestro, coacção, posse ilegal de arma, extorsão, discriminação racial, difamação, entre muitos outros crimes. A justiça portuguesa acaba de validar “as finalidades invocadas pelo arguido”, ou seja, juntar-se a grupos armados de extrema-direita, obter treino e experiência militar e voltar matar. É essa “a sua pretensão”.

Não passarão.

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X: xpat

X: xpat

Xpat, ou expatriado, designa uma pessoa “com sucesso” proveniente de um país dito “desenvolvido” que, muito glamorosamente, vai experienciar a vida que tinha noutro país. Por ser rica e não gostar de ser confundida com trabalhadores pobres e não-brancos, essa pessoa não gosta de se assumir como “imigrante”, pelo que se auto-intitula expatriada.
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W: Wuhan

W: Wuhan

Wuhan: o nome da cidade chinesa ficou inscrito na certidão de nascimento da COVID-19, uma certidão emitida pelo imperialismo ocidental e carimbada com o selo do racismo sinofóbico. O mito do “vírus chinês” cunhado por Trump é uma reedição do “perigo amarelo” do século XIX: mais uma vez, o chinês é apresentado como uma ameaça existencial ao mundo civilizado. Quer seja por comerem morcegos (nós comemos caracóis e tripas), quer seja pelo “regime totalitário” que confinou milhões de pessoas (mais tarde nós fizemos o mesmo), a China, qual judeu internacional, é o bode expiatório da pandemia global.

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V: voluntariado

V: voluntariado

Fazer voluntariado é trabalhar gratuitamente. No contexto capitalista, todas as razões são boas para não pagar um salário: a falta de experiência de jovens desempregados e sem contactos no mundo do trabalho; a generosidade das boas pessoas que não se conformam em assistir impávidas ao sofrimento alheio; a ideia de que a cultura não é propriamente um sector profissional normal e que, por isso, é normal trabalhar de borla; a vontade de conhecer pessoas novas e de “crescer espiritualmente”; a autocongratulação moral e a necessidade de autopromoção ou, simplesmente, o preço exorbitante do bilhete de um festival.

De embrulhar prendas para o Continente a controlar portas no Rock in Rio; de pedir comida para os pobres à porta do Pingo Doce a picar bilhetes no DocLisboa; de escrever comunicados de imprensa para a Volvo Ocean Race a distribuir restos de comida na Refood, todas as actividades e profissões são “voluntarizáveis”.

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