N: natureza humana

Teoria

N: natureza humana

Uma das vacas sagradas da ideologia dominante é a ideia de que a humanidade está condenada pela sua própria natureza a ser para sempre como já é hoje: egoísta e  individualista, pelo que qualquer projecto de sociedade assente noutros valores e contrária a estas características estaria, portanto, condenada ao fracasso.

Curiosamente, a única prova de que essas características são, desde sempre, a natureza geral de todos é a observação, nos nossos dias, da natureza particular de alguns. A história da humanidade é rica em exemplos de etapas e culturas em que o Homem não era tão egoísta e individualista: é seguro afirmar que na idade média o camponês comum era menos individualista e que a maioria das sociedades primitivas de caçadores-recolectores é menos egoísta. Se concordamos que os andamaneses ou os adivasi, que nem sequer conhecem a propriedade privada, são tão humanos como nós, a explicação para o individualismo e para o egoísmo dos nossos tempos não pode residir na nossa natureza, mas nas nossas circunstâncias históricas sociais e económicas.

Tirando impulsos básicos de sobrevivência de caçadores-recolectores como beber água, comer, dormir, conviver, etc. a “natureza humana” é adaptar-se às circunstâncias materiais. Se a sociedade capitalista premeia e encoraja o individualismo e o egoísmo, é natural que essas características estejam muito disseminadas: a cultura dominante é sempre, afinal, a cultura da classe dominante. Inversamente, uma sociedade mais livre e igualitária, sem exploração do Homem pelo Homem, que premiasse a entre-ajuda e fomentasse o espírito comunitário, veria certamente a “nossa natureza” evoluir lentamente nessa direcção.

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

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