O ANEL do SYRIZA

Nacional

Não sou grego nem vivo na Grécia, logo não consigo analisar a realidade grega como um grego ou alguém que viva na Grécia. Não fico contente com vitórias de partidos políticos, nem em Portugal, nem na Grécia, nem em lado nenhum, fico contente quando vejo políticas progressistas a serem aplicadas. O SYRIZA ganhou, ainda bem, no seu programa apresenta um grande número de políticas progressistas, umas mais avançadas, outras mais recuadas, todas baseadas na realidade de uma Grécia inserida na União Europeia e na realidade interna da organização social e política grega. Ficarei então contente quando e se a vida de quem trabalha na Grécia melhorar.

O SYRIZA não obteve maioria absoluta, parece estar quase a assinar um acordo com o ANEL – Gregos Independentes -, partido conservador, nacionalista, eurocéptico e anti-austeridade. Por agora ainda não é certo que este seja um acordo de governo ou apenas um acordo parlamentar. Tudo aponta para que seja mesmo de governo e para que o ANEL fique com as pastas da Defesa e da Administração Interna, pior. O ANEL não é amigo da multiculturalidade e a sua matriz ideológica tende a privilegiar políticas securitárias. Espero que não tenhamos um SYRIZA forçado a rever o Tratado de Schengen por pressão da coligação.

O SYRIZA tinha as seguintes opções: Nova Democracia, PASOK, Aurora Dourada, KKE, To Potami, ANEL. Aurora Dourada excluída desde logo por razões óbvias, é um partido fascista que se encontra nos antípodas humanos do SYRIZA. Nova Democracia e PASOK querem a continuação da austeridade e o cumprimento do memorando com a Troika, também excluídos. O KKE defende uma ruptura completa com a União Europeia e com a Moeda Única, o SYRIZA não, dificilmente se forma um governo que não concorde em algo tão decisivo, ainda assim, o KKE já deixou claro que votará favoravelmente a todas as políticas sociais e laborais progressistas que o SYRIZA apresentar. O To Potami é constituído por um conjunto de hipsters-populistas que também não rejeitam a Troika e, tendencialmente, têm uma postura de classe, da sua, a burguesia.

Sobrava o ANEL e o SYRIZA escolheu o ANEL. É possível elaborar dezenas de teorias sobre o porquê e o para quê. Pessoalmente e muito a quente, julgo que o SYRIZA cedeu à “realpolitik” na esperança de conseguir um apoio efectivo anti-austeritário. Resta esperar para ver, resta estar atento e vigilante às contradições que possam surgir neste governo, resta ver em que medida as pressões externas podem ou não impedir que a Grécia altere o seu rumo. Se essa alteração acontecer e for visível e inegável, podem as outras forças progressistas europeias ganhar novo fôlego e forçar de vez à mudança de políticas na União Europeia.

Não sou grego, não tenho a certeza disto, nem quero ter. Vejo as constantes comparações e analogias partidárias como exercícios que servem para, aqui dentro das nossas paredes, aumentar tensão e as acusações, baseadas em realidades totalmente distintas. Por exemplo, quando estive em Atenas percebi bem o peso que uma brutal guerra civil ainda tem nos ombros dos gregos, percebi o que é ser vigiado e escoltado em manifestações por polícias armados com metralhadoras e em número incomparavelmente superior ao que vemos nas nossas ruas, etc.

As realidades gregas e portuguesas são mesmo tão diferentes que ninguém acredita que os partidos que por cá representam estes campos ideológicos, na conjuntura actual, pudessem sequer ponderar uma coligação de governo. Isso deixa-me descansado, porque os compromissos não devem comprometer as ideias, e este passo do SYRIZA é arriscado e difícil de aceitar. Veremos.

E por serem realidades diferentes é que não faz sentido uma tentativa de colagem a vitórias alheias. A estória não acaba aqui e o seu desfecho pode ser uma derrota, nessa altura será difícil e pouco legítima a descolagem.
Não são o ontem ou o hoje que importam nestas eleições, é mesmo o amanhã e o resultado do amanhã precisa de tempo para aparecer.

 A Grécia vai ter um novo governo, espera-se que com políticas diferentes. Às eleições de ontem concorreram partidos políticos e não clubes de futebol. Só com calma e distanciamento será possível fazer a melhor análise possível deste novo governo. Como dizia o outro, “a prática é o critério da verdade”. Depois é aprender com os erros e com as virtudes.