Corria o ano de 1957 quando o Partido Comunista Português realizou o seu V Congresso. À polícia política do regime não lhe passaria pela cabeça que os comunistas se juntariam a uns meros seis quilómetros do Forte de Santo António da Barra, onde o presidente do conselho, o fascista de nariz adunco, instalara a sua residência de férias, pobrezinho haveriam de o vir chamar, pedófilo só dali a dez anos quando rebentar o escândalo de Ballet Rose, sempre faz parecer que é assunto predileção da classe dominante, hoje e amanhã.
Por entre as horas acesas de discussão coletiva de como prosseguir a luta contra o fascismo, um grupo de camaradas levanta uma hipótese, a de pedir ajuda internacional para que caia a ditadura, para que se libertem os homens portugueses da opressão e das correntes, as mulheres da subjugação ao poder que as tiraniza, que as agride e mata, as crianças do país da iliteracia, da miséria, da fome e do frio. Há coisas improváveis que em alguma circunstância viessem a acontecer, o único Partido de oposição ao regime dificilmente enveredaria por tal desesperante deliberação, gente que entregava a sua vida à libertação da vida dos seus concidadãos e do seu país, tal coisa não faria, mas que dizer, assim foi e não de outra forma e há coisas que não se explicam.
Não se sabe o momento, ou a hora e o dia, a clandestinidade obriga a reservas, mas de lá sai ratificada, a temente proposta, que venha alguém acudir aos trabalhadores e às famílias lusas, parece que afinal não há concordância de que são os povos que forjam a sua própria história. O fascismo matou já muitos, imensos e demais, neste últimos trinta anos, prendeu, torturou e matou já muitos dos nossos, disse um camarada, está bem, então, a isso vamos, venham de lá esses migrados canhões, morteiros e outros obuses soltar-nos dos grilhões deste amaldiçoada sujeição.
Um é pouco, dois é bom e são três os camaradas que vão a Moscovo. A viagem é dura, feita em segredo, mas isso são contas de outros mistérios, como o são as conversas que as palavras montaram em terras soviéticas, basta dizer que volvidos à lusíada terra traziam como resposta ao pedido um empenhado нет, niet, não. Prossiga a luta e siga a dança, que o maestro é de confiança e a malta não arreda pé, Portugal haverá de ver os dias de liberdade, sim ou sim.
Os assuntos não morrem por dá cá aquela palha, os serviços de espionagem britânicos dão-se conta do pedido, “venham bombardear, venham que vocês bombardeiam bem”, e apelam aos estado-unidenses. A polícia acode à chamada, sempre assim é, ainda que haja pontas soltas, que facilmente se amarram, haja vontade ou haja poder. A administração norte-americana, haja poder, tudo resolve, “Portugal é um país da NATO”, raio de ideia de legitimar um regime fascista por entrar nesse negócio, “expulse-se, então”, enxotado foi, “pode não ser lá muito legítimo”, “a legitimidade é uma coisa qualquer, assim nós determinemos, a verdade idem”, tem sido assim, “invencione-se qualquer coisa para que as bombas doam menos”, “doam menos?”, “a quem as sentir pelas páginas dos jornais e as imagens das televisões”.
Não tarda, bombardeiros e caças, outros aviões mais, de transporte, reconhecimento e logística, sobrevoam os mesmos céus que hoje olhamos todos, estrondeiam cruzando os ares e trazendo a morte libertadora na barriga de cada ave metálica. O céu escurece e chove fogo, caem as bombas e incendeiam-se as cidades, primeiro Lisboa, depois o Porto e Coimbra e Braga, arde ainda Évora e Viana do Castelo e Lamego, “missão cumprida”, diz um gringo pelo rádio da aeronave, sorrindo, é que do alto não se ouvem os gritos desesperados das mães segurando os filhos mortos nos braços, os choros órfãos das crianças nos colos das mães assassinadas, não se ouvem os gemidos moribundos dos homens trucidados que acudiam aos campos, ouvem-se uns esparsos vivas em Beja e Leiria e Bragança, que Salazar é morto. Descontando o ditador, morrem treze mil novecentas e cinquenta duas pessoas, mais de mil e seiscentas são crianças.

Um carro preto, discreto e sério como a própria morte, vai buscar a eminência marcelista à universidade de lisboa, não chega a reitor, pobrezinho que andava frustrado com a política, afastado, mas nunca longe, ama ao regime e à ditadura, Salazar é morto e chega mais presto a presidente do conselho, “entreguem os ouros e os negócios dos povos que oprimimos nas colónias”, apertam-se as mãos e a guerra resolve-se, só os mortos não lhe viram o fim, como em todas as outras.
Marcello, escudeiro do fascismo e proeminente padrinho, aperta o garrote sobre o povo, prossegue, como prosseguiu de facto, a perseguição política, mandou prender e mandou matar, torture-se pelo meio, não há, não houve mesmo, primavera, não é uma só andorinha que a faz, menos ainda um vampiro.
Os comunistas fazem um ato de contrição, foi um erro, ninguém haverá mais de pedir que bombas chovam sobre as cabeças do nosso povo. Encalça-se a luta, como antes a havia sido determinado, distribuem-se panfletos, organizam-se greves, explicam-se de razões ao povo trabalhador, hão de ir à guerra politizar soldados e capitães, são presos, torturados e mortos, e lutam mais um pouco, e a madrugada libertadora nasce, por fim.
Só os mortos não chegam à revolução, os mortos pelo regime durante décadas e mais os que são assassinados pelas bombas convidadas, roubou-se o futuro de tanta gente de verdade, de mulheres e crianças e homens que aspiravam à dignidade.
Se pelo menos os comunistas portugueses não tivessem feito tal apelo.
Não o fizeram, nunca o fariam.
Pelos céus, acima das cabeças dos povos só os seus sonhos, não as bombas de outros.
[para os incautos leitores, este é um conto ficcionado]
