O: operário

Teoria

O: operário

Já não há operários? O proletariado é uma categoria ultrapassada? Qual a diferença entre o trabalhador, o operário e o proletário? A discussão é demasiado extensa e as categorias económicas que dela derivam exigiram muitas mais entradas de verbetes neste dicionário, mas eis as noções básicas:

O proletário moderno é todo o trabalhador que, não possuindo meios de produção, vê-se obrigado a vender a sua força de trabalho. O dono de um pequeno café, por exemplo, pode trabalhar muitas horas por dia, mas não é um proletário. Esta diferença importa porque o proletário, seja ele produtivo (como uma cantora de ópera ou um mineiro, já que para Marx é irrelevante se o proletário produz mercadorias da fantasia ou do estômago) ou improdutivo (como um caixa de super-mercado ou um camionista) trabalha sempre mais do que o valor correspondente ao tempo de trabalho que exerce.

À riqueza excedente criada pelo proletário que termina nas mãos do capitalista chamamos mais-valia e é nela que reside a maior contradição de classe da sociedade capitalista: o capitalista só pode existir esmagando o proletário (reflectindo a tendência para a queda da taxa de lucro) e o proletário só se pode libertar esmagando o capitalista.

O operário é o membro produtivo do proletariado que opera uma transformação material na mercadoria, alterando o seu valor de uso. Regressando ao conceito de mais-valia, o operário, enquanto classe, é o mais explorado de todos os proletários, independentemente do seu rendimento, porque o valor do excedente que lhe é expropriado só conhece os limites da tecnologia. Por ser simultaneamente o mais explorado e o mais próximo do coração material do capitalismo, a fábrica, o operário está em melhores condições para assumir o papel de vanguarda na luta política.

O trabalhador existirá sempre porque o trabalho é intrínseco e à humanidade enquanto processo criativo e metabolismo do ser humano com a natureza, mas o mesmo não se pode dizer da sua actual forma assalariada assente na exploração. Portanto, o proletário moderno continuará a existir enquanto as classes sociais existirem e não estará desactualizado até a humanidade superar o modo de produção capitalista. Já o operário continuará a existir enquanto o capitalismo não puder ou quiser enfrentar os problemas económicos, políticos e sociais que adviriam da automação total.

Há uma guerra pelas nossas palavras. Elas são os instrumentos com que explicamos o mundo e a história ensina-nos que só o consegue transformar à sua vontade quem o consegue explicar. Da mesma forma que os negreiros tinham o cuidado de separar os escravos em grupos que não falassem a mesma língua, o capital verte milhões em campanhas de confusão conceptual, na promoção de novas categorias, na erradicação de certos vocábulos e na substituição de umas palavras por outras, aparentemente com o mesmo sentido. Este dicionário é um breve contributo para desfazer algumas das maiores confusões semânticas, conceptuais e ideológicas dos nossos tempos.

2 Comments

  • Henrique Chester

    7 Setembro, 2021 às

    No MANIFESTO não existe a separação entre Proletário e Operario são o mesmo trabalhador , quando os separa não ficou claro que só o Operario produz mais valia , o resto da classe trabalhdora (o seu Proletariado) não cria mais valia, são trabalhdores necessários mas não são produtivos.

    Esta por fazer a discussão quem é Operario hoje ? Localizar o Operários na fabrica é redutor, os trabalhadores que fazem programas para telemoveis, computadores etc , uma mercadoria devem ser chamados Operarios ?

  • José Braz

    3 Setembro, 2021 às

    Sim, de facto a confusão entre “operário” – categoria profissional e que conjunturalmente constituiu hegemonicamente o proletariado – e “Proletário” – categoria marxista que define uma classe no processo de produção e acumulação de riqueza, tem servido à ideologia da classe dominante para afastar o proletariado da sua ideologia de classe. É pena a entrada não estar traduzida para português, mas acredito que mais cedo do que mais tarde alguém a traduza 😉

    https://www.marxists.org/glossary/terms/p/r.htm#proletariat

    Além da definição curta usada pelo António Santos:
    «”The proletariat is that class in society which lives entirely from the sale of its labour power and does not draw profit from any kind of capital; whose weal and woe, whose life and death,whose sole existence depends on the demand for labour…»

    É especialmente relevante o desenvolvimento do conceito:
    «[…]The following features of Marx’s definition of the proletariat should be noted: (1) proletariat is synonymous with “modern working class”, (2) proletarians have no means of support other than selling their labour power, (3) their position makes them dependent upon capital, (4) it is the expansion of capital, as opposed to servicing the personal or administrative needs of capitalists, which is the defining role of the proletariat, (4) proletarians sell themselves as opposed to selling products like the petty-bourgeoisie and capitalists, (5) they sell themselves “piecemeal” as opposed to slaves who may be sold as a whole and become the property of someone else, (6) although the term “labourers” carries the connotation of manual labour, elsewhere Marx makes it clear that the labourer with the head is as much a proletarian as the labourer with the hand, and finally (7) the proletariat is a class.»

    e agora toca mas é a marchar pá festa que se daz tarde 😉

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