O racismo de Slavoj Žižek

Nacional

Há meses que o filósofo esloveno Slavoj Žižek, ídolo da esquerda pós-moderna, vinha tecendo comentários contra os refugiados que, durante estes dias, chegam à Europa. Em várias entrevistas publicadas, por exemplo, no Der Spiegel e no Die Welt, Žižek estabelecia ligações peregrinas entre “as classes baixas” e os “carnavais de obscenidades”, elogiando o “capitalismo europeu”, os “valores europeus” e o “ocidente”.

Finalmente, neste artigo publicado no NewStatesman, o esloveno debruça-se sobre os crimes sexuais alegadamente cometidos durante a festa de ano novo em Colónia, para fechar um tratado sobre a natureza dos imigrantes e fazer sua a teoria anti-marxista da guerra das civilizações.

Para Žižek, que não perde tempo com contemplações sobre a veracidade dos relatos mediáticos, os abusos foram um acto de “inveja e ódio” dos imigrantes que não podem ser Ocidente mas que lhe guardam um ódio niilista.

“Mesmo que os imigrantes sejam mais ou menos vítimas que tenham fugido de países devastados, isso não os impede de se comportarem repulsivamente”, explica Žižek que critica a “irrespirável estupidez” da “esquerda liberal e politicamente correcta” por desdramatizar os acontecimentos de Colónia.

Para Žižek, os imigrantes serão sempre bárbaros porque “a brutalidade contra os animais mais fracos, contra as mulheres, é uma característica tradicional das classes baixas”.

Nesta concepção, parafraseada a Badiou, a humanidade não está dividida em classes, mas por sujeitos civilizacionais: o Ocidente “civilizado, burguês, liberal e democrata”, “os não-ocidentais obcecados por sê-lo” e “os niilistas fascísticos, cuja inveja se transforma em auto-ódio”.

Perante este cenário, Žižek defende que a “Europa tem que exigir aos muçulmanos imigrantes que respeitem os valores europeus” e argumenta que o continente “não pode abrir as fronteiras, como alguns à esquerda defendem, por sentimento de culpa”.

Para Žižek, o problema não é o capitalismo que assume “não querer criticar por princípio”, mas a “ameaça ao modelo europeu”. Segundo Žižek, são três os tipos de capitalismo que o mundo pode escolher: o “fundamentalista dos mercados, antidemocrático e americano”, o “asiático e autoritário, também anti-democrático” e, finalmente, o “capitalismo europeu” que, defende Žižek, “tem alguma coisa a oferecer ao mundo”.

Se, por um lado, a crítica de Žižek é absolutamente idealista, situando o fascismo como um produto da “inveja” e o fundamentalismo como reflexo do “ódio ao ocidente”, vai ainda mais longe, alinhando, assumidamente, com o “capitalismo europeu” numa imaginária guerra de civilizações.

Afirma Žižek que “é por isto que quaisquer tentativas de iluminar os imigrantes (explicar-lhes que os nossos valores sexuais são diferentes, que uma mulher que ande de mini-saia em público e sorria não está a fazer um convite sexual) são exemplos de uma estupidez atroz – eles sabem isto e é por isso que o fazem: para ferir as nossas sensibilidades”.

Recuperando o “fardo do homem branco”, Žižek assume que “a difícil lição de tudo isto não é simplesmente dar voz aos que estão na mó de baixo: para conseguir uma verdadeira emancipação, eles têm de ser educados para a liberdade”.

Os argumentos de Žižek são os argumentos do racismo, da guerra e do colonialismo. Cabe à esquerda negar toda e qualquer ideia de uma supremacia ética europeia e lembrar, as vezes que forem necessárias, que foi a Europa que deu ao mundo as guerras mundiais, o holocausto e o racismo enquanto sistema de valores economicamente integrado.

Os refugiados que fogem para a Europa não invejam nada no chamado “Ocidente”: pelo contrário, estão a fugir da barbárie criada pela Europa e pelos EUA que continua a destruir as suas civilizações.

A razão pela qual os trabalhadores portugueses devem abrir as portas aos refugiados e condenar quaisquer tentativas racistas de demonizar os imigrantes não tem nada a ver com “culpa”. Essa têm-na os governantes portugueses. A razão racional para a nossa solidariedade é que refugiados, imigrantes e nativos têm os mesmos interesses, o fim da guerra imperialista, e o mesmo inimigo: a exploração capitalista.

Adenda – 10-02-2016

Já que subsistem as dúvidas sobre o tema “o que é que isto tem de racista?!”, aqui ficam algumas pistas:

1 – Zizek não questiona a veracidade dos relatos, mesmo num momento em que emergem provas de que a história está mesmo muito mal contada.

2 – Zizek parte do princípio de que quando os imigrantes cometem crimes sexuais fazem-no inspirados na sua cultura e com a intenção de ferir as sensibilidades ocidentais. Já, quando um europeu comete o mesmo crime, deve-se a outros assuntos.

3 – Zizek acha que os europeus têm o dever de “educar” os imigrantes das culturas “menos civilizadas”, onde as mulheres têm menos direitos, etc. etc.

4 – Zizek associa a pobreza das “classes baixas” à crueldade com os animais, à obscenidade e ao sadismo.

5 – Zizek defende que os movimentos migratórios se explicam com os sentimentos de “ódio e inveja” para com aquilo a que chama civilização ocidental (só por si um conceito de génese racista).

6 – Zizek ignora convenientemente os relatos de abusos sexuais cometidos todos os dias por alemães branquinhos. Esses não precisam de autópsias culturais, né?

Isto para não falar do convite ao imperialismo (sugere que os exércitos dos países europeus vá para as fronteiras dos países devastados fazer a filtragem dos refugiados.

Isto para não referir que toda análise é idealista e baseada em explicações emocionais e culturais.

Isto para não lembrar que num momento em que há crianças a dar à costa, qualquer apelo para “fechar as fronteiras” é criminoso é bárbaro.