Outra vez as FP-25

Nacional

Este texto não tem “mas”, não relativiza o sofrimento das vítimas e dos seus familiares, não reconhece legitimidade à acção armada de um grupo clandestino actuando em Portugal nos anos 80 nem justifica tudo aquilo que no contexto da sua acção militar não tem justificação.

Dito isto:

As “Forças Populares – 25 de Abril” foram o grupo armado e clandestino que operou em Portugal fundamentalmente durante a primeira metade da década de 80, num momento em que se tornava claro que as conquistas da Revolução, incluindo aquelas inscritas como “irreversíveis” no texto constitucional de 1976, davam lugar à restauração do poder económico e político hegemónico da classe dominadora do regime fascista, agora regressada para “em democracia” recuperar a liderança e a influência na tomada de decisão sobre os assuntos fundamentais da política nacional e internacional do Estado português.

As FP-25 foram no plano político-militar uma pedra no sapato do poder político e económico em Portugal, mas apenas isso. A sua actividade, que assumiu em alguns episódios históricos um dramatismo que não pode nem deve ser desvalorizado (foram cometidos crimes violentos, incluindo “de sangue”, com vítimas mortais a lamentar), nunca em momento algum fez tremer o poder instalado, tão pouco contribuiu para qualquer alteração relevante no rumo em curso naqueles anos violentos de recuperação capitalista acelerada.

Pelo contrário, as FP-25 foram um pretexto para o reforço dos meios repressivos que se voltaram não apenas contra o grupo armado em questão, mas também contra os trabalhadores, as suas lutas e todos aqueles que procuravam travar a restauração do poder daqueles que dele haviam sido apeados em 1974.

O tema FP-25 ressurge de tempos em tempos, é um clássico.

O recente lançamento de um livro dedicado às FP-25 – cujo conteúdo em concreto ficará para análise em momento posterior – motivou aliás algumas reacções públicas, nomeadamente de dirigentes e ex-dirigentes da direita mais reaccionária e conservadora que a democracia portuguesa pariu, e que não podem ser ignoradas, sobretudo porque procuram isolar a violência pós-revolucionária “de esquerda”, separando-a por um lado do cenário global de violência política que ainda dominava a sociedade portuguesa (para o ilustrar bastará recordar os acontecimentos do 1º de Maio de 1982, na cidade do Porto, que fizeram duas vítimas mortais e feridos graves) e por outro das manifestações concretas de violência terrorista de direita e extrema-direita que também mataram e destruíram nos primeiros após pós-Revolução.

Seria um erro responder ao zarolhismo de direita com um zarolhismo homólogo, “de esquerda”, sobretudo porque a esta distância histórica, quase meio século após o 25 de Abril e quatro décadas depois do período de maior violência política pós-Revolução, importa sobretudo compreender o fenómeno não apenas nas suas partes mas também no seu todo, não confundido nem os grupos nem as partes em conflito, mas sendo, todavia, capaz de pelo menos compreender o contexto em que a opção pelas bombas, os atentados e assaltos a bancos aconteceram num Portugal que pouca relação histórica parece ter com aquele em que hoje vivemos.

Portugal nunca foi um país “de brandos costumes”. Nem sequer no pós-25/11, essa data que a direita coloca no altar do restauracionismo capitalista, e que foi o pontapé de saída para uma fase ainda pouco estudada e descrita de violência brutal que se abateu sobre uma parte dos protagonistas da Revolução, de que é bom exemplo os acontecimentos de Custóias na viragem do ano de 1975 para 1976, que resultaram em mortos e feridos, incluindo uma criança de 3 anos, familiar de um dos militares detidos na sequência dos acontecimentos de Novembro de 75. A história da violência contra o movimento popular nos pós-25 de Novembro far-se-á mais cedo ou mais tarde, porque está em falta e porque precisamos de a conhecer para melhor compreender a forma como a “democracia” do “arco constitucional” (expressão entretanto caída em desuso) se impôs à lei da bala, da coronhada e de mortos a lamentar (de Luís Caracol, falecido depois de ser brutalmente agredido com o cassetete na cabeça, a Carlos Simões, o homem baleado na luta contra extração de caulino na freguesia de Barqueiros).

A verdade é que, para lá da violência imposta pelo Estado, houve violência protagonizada por grupos políticos armados “de esquerda” e de direita, em ambos os casos com vítimas mortais, crimes sem justificação possível (incluindo assassinatos), assaltos e actos intimidação que, de forma e em tempos diferentes, as forças de segurança perseguiram e a justiça julgou e condenou da maneira que pode e soube. Desses processos resultaram injustiças irreparáveis e um sofrimento que ninguém pode nem deve ignorar.

Não se trata aqui de fazer paralelismos entre aqueles que pegaram em armas pelo socialismo e outros que o fizeram para fazer recuar Portugal ao tempo da ditadura fascista. O que pretendo é dar uma resposta, ainda que superficial, àqueles que procuram dar da violência política em Portugal no pós-Revolução uma imagem parcial, ignorando as centenas de ações violentas, atentados, espancamentos, assaltos, intimidações e assassinatos levados a cabo por grupos políticos de extrema-direita, com ligações a PIDES, legionários e não só, e cujo julgamento – judicial, histórico e político – foi parcial (deixando à margem os ideólogos e os financiadores da chamada “rede bombista”) e está muitíssimo mais esquecido, enterrado e selado do que este (o das FP-25) constantemente trazido à tona por aqueles que o viveram na primeira pessoa – o que é natural e legítimo – e por outros que instrumentalizam o sofrimento alheio para dar dos tempos pós-revolucionários uma imagem desfocada, à medida da sua narrativa da história.

De resto, importa combater essa ideia de que o Portugal do início dos anos 80 era já uma democracia consolidada. Não era. Havia fome, salários em atraso, trabalhadores que se suicidavam por não terem como alimentar os filhos. Havia brutalidade policial, muito superior àquela que hoje ainda subsiste. E havia, pelo em parte não negligenciável da sociedade portuguesa, a sensação de que, criando-se as condições necessárias para o efeito, a direita poderia fazer recuar Portugal aos tempos do fascismo e transformar o país num “novo Chile”.

As FP-25 actuaram quase sempre desligadas da luta popular, não a beneficiaram (bem pelo contrário) e foram motivo de endurecimento das medidas repressivas do Estado. Cometeram crimes sem justificação e causaram sofrimento desnecessário a famílias, incluindo as dos próprios operacionais feridos, encarcerados, perseguidos e mortos durante acções do grupo. O que não se pode fazer, pelo menos de forma séria, é isolar as FP-25 do seu contexto, num ajuste de contas histórico que serve apenas um processo em curso de revisão do significado do 25 de Abril e das suas conquistas – depois sucessivamente terraplenadas durante mais de 40 anos – bem como da recuperação capitalista em Portugal, que trouxe para o poder, progressivamente, aqueles que o haviam suportado antes da libertação do país.

Se o tema “FP-25” não se encontra arrumado, façamos pelo menos um esforço para não embarcar em visões apologéticas – que seriam desde logo uma enorme falta de respeito para com aqueles que perderam filhos, maridos, pais e amigos – ou nitidamente persecutórias, num momento em que já nada o justifica.

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