Para que nos deixem ver as estrelas

Nacional

Enquanto ele limpava religiosamente a arma com uma escova de dentes, eu pensava para mim que é a perspectiva revolucionária que devolve a cada comunista o entusiasmo de cumprir cada tarefa independentemente da sua natureza e da distância histórica da ruptura com o capitalismo. Outros, ao nosso lado, jogavam xadrez entre a folhagem verde que durante tantas décadas os protegeu do exército colombiano. O facto é que o entusiasmo, combustível da militância dedicada, fez parte daquele barco com um rumo bem definido que catapultou os povos da Rússia para o assalto aos céus mesmo que, pouco tempo antes dos acontecimentos de Fevereiro de 1917, que foram a ante-sala da tomada do poder pelos bolcheviques, Lénine deixasse no ar que podia não chegar a ver a revolução socialista em vida.

Muito antes, em 1902, dizia que havia “que juntar todo o material capaz de arder”. Para Lénine, havia que “atiçar o fogo, protegê-lo, avivá-lo onde quer que se acenda uma chama, fazer que se estenda a chama e preparar assim, mediante um esforço tenaz e constante, o incêndio geral no qual a selva húmida e escura não deixará de ser selva”. E ali, no meio das montanhas desta região do nordeste colombiano, soava Silvio Rodriguez num velho rádio com a canção “hoy es la víspera de siempre”, entre mulheres e homens que durante décadas se dedicaram a incendiar o horizonte. Mas não disparavam apenas. Como um formigueiro, cada um tinha uma tarefa. Todas as manhãs, um guerrilheiro imitava um pássaro e ia de ‘cambuche’ em ‘cambuche’ despertando-nos ainda noite escura. Via-os, diariamente, empenhados em todo o tipo de actividades: recolher lenha, abrir latrinas, preparar comida para centenas de combatentes, cumprir turnos de guarda.

A importância do factor subjectivo é conhecida. Há uns meses, numa entrevista, o escritor mexicano Paco Ignacio Taibo II, autor de uma das melhores biografias de Che Guevara, dizia que “a vida não tem sentido se não a desafias”. E falava da épica na política reclamando que “se não há épica, há rotina, compromisso, possibilismo”. O também autor de vários policiais, deu vários exemplos do que é a épica na política e falou de “La Nueve”, uma companhia de 150 combatentes espanhóis que tinham fugido para o norte de África depois da derrota na Guerra Civil. Quando as tropas aliadas chegaram, juntaram-se à luta contra os nazis naquela região. Vitória após vitória, foram transferidos para Inglaterra donde partiram para chegar à costa da Normandia. Uma vez mais, combate após combate, chegaram a Paris. Na noite de 24 de Agosto de 1944, estrearam-se no centro da capital francesa disparando contra as tropas alemãs. Quando a população parisiense saiu às ruas cantando A Marselhesa descobriram com surpresa que os primeiros soldados que libertaram a cidade eram antifascistas de Espanha e que os carros de combate traziam nomes como Guernica, Ebro e Teruel.

São histórias que se juntam a tantas outras como em Stalingrado quando os defensores de um único prédio, cercados pelas tropas nazis, aguentaram mais tempo que França inteira a ser invadida pelos homens de Hitler. Mas parece-me que a política é tudo menos épica. A épica é só o rosto visível de um exército de formigas que se dedicou na maioria das vezes a garantir que a fogueira não se apagava. São os que na mais humilde das tarefas fazem acelerar a história. Para a geração dos que assumiram o testemunho da luta quando ainda estava quente o fim da União Soviética e tudo parecia definitivamente perdido, esse foi o desafio. Para Cuba, ilha que se tornou ainda mais ilha, mas também mais digna, esse foi o desafio.

Quando regressei da Colômbia, trazia na mochila uma agenda das FARC já usada, uma humilde oferta de um jovem amigo e guerrilheiro, que só abri semanas depois. Nela vinha a fórmula química da pólvora e todos os materiais necessários. Sorri. Mesmo na noite mais escura, ainda que sem estrelas, há quem se dedique a iluminar o futuro.

12 Comments

  • Jose

    19/07/2020 às 13:00

    Temos a versão dois do Nunes e as transcrições do Cuco, uma espécie parasitária sempre a lambujar tudo que seja esquerdalho.

    • Nunes

      19/07/2020 às 17:38

      Do parvalhão e ridículo do «Jose», algumas das suas pérolas confusas lançadas nos comentários do blog «Ladrões de Bicicletas»:

      «A análise centrada nas desigualdades económicas é um daqueles exercícios circulares em que há ricos porque há pobres e há pobres porque há ricos; a isto se resume a essência do marxismo.
      O saber-se porque alguém sai da pobreza ou perde a riqueza nunca interessa aos marxistas que chafurdam no seu universo de algozes e vítimas, no qual sempre se imaginam nas hostes que, extinguindo os ricos, salvam o mundo da pobreza.

      Se bem me lembro, de há muito abandonaram a utopia da ausência do Estado, e tudo é no presente dirigido ao seu gigantismo, que o mesmo é dizer que é dirigido à obliteração de memórias e das realidades do presente que reproduzem essa mesma opção.

      Se lhes acrescentarmos o nacionalismo em que envolvem a sua visão do mundo, logo se percebe porque as constantes peregrinações ao ambiente de há dois séculos, que forjou as crenças que reclamam como suas; nas palavras, para esse tempo, dos intelectuais desse tempo, buscam uma coerência que a todo o tempo a realidade lhes nega.»

      «Assalariado – Que ou quem trabalha por salário. = EMPREGADO (Priberam)

      É óbvio que a pretensão da esquerdalhada de apropriar o termo 'trabalhador' aos assalariados reside na intenção de excluir os muitos outros que trabalham do conceito de trabalhador, salvo prova de se sentirem explorados e consequentemente serem admitidos nos tadinhos.

      A azia pelo termo assalariado resulta de entenderem que serem assalariados pelo Estado é a única condição digna associada ao termo, não tanto por radicalismo, mas pela conveniência das promoções automáticas e pelas mordomias que a subserviência – ideológica ou de qualquer outro tipo – sempre proporciona nas estruturas burocráticas.»

      […]

      «Jose», o maior parolo das letras? Ou das tretas?

    • Jose

      20/07/2020 às 0:59

      Ó Nunes! Não me digas que percebeste tudo!

    • Nunes

      20/07/2020 às 14:21

      Continua a aparecer, Jose. O teu manancial aqui e no blog «Ladrões de Bicicletas» é depósito seguro de uma estupidez única.

  • Maria

    18/07/2020 às 22:55

    Vai-te embora daqui, Zé Palhaço! Só dizes asneiras.

  • Maria

    18/07/2020 às 21:54

    O Jose é um atrasado mental. É o quasimodo do André Ventura.

  • Jose

    17/07/2020 às 15:30

    E a pistolinha religiosamente limpa, no caminho das estrelas…que romântico!

    • Nunes

      18/07/2020 às 9:33

      O nabo que escreve «tele-escola» em vez de «telescola» volta ao ataque.

      Aprende a escrever, seu burro e cretino, em vez de vires para aqui provocar quem trabalha.

    • Nunes

      18/07/2020 às 15:57

      Vale a pena ler este outro comentário escrito por «JE» acerca do bimbo «Jose», em Ladrões de Bicicletas:

      «A cultura de honestidade e rigor de jose é assim aquilo que de facto é:

      Uma farsa

      Tenta desconhecer jose que o corrupto é a maior parte das vezes um corruptor…e vice-versa.

      Tenta desconhecer que um e outro são crime.

      Perorava assim deste modo sobre o papel louvável de quem era corruptor

      Dizia jose: "Porque entendem que o poder económico é corruptor, e inevitavelmente é bem sucedido na sua acção porque a natureza do poder político é ser corrompido, não vêm melhor solução que agregar num mesma camarilha o poder económico e o político."

      Uma delícia esta de jose, no papel de assumido evangelista, a tentar perdoar os corruptores…afinal o poder económico, o grande poder económico

      Que é até "bem sucedido na sua acção"

      A água benta que jose tenta deitar aos corruptores tem a ver com a sua solidariedade ideológica e de classe com essa categoria de canalhas

      A sua agitação em prol dos ditos corruptores começou a ser mais marcada e atabalhoada a partir do momento em que os seus terratenentes banqueiros foram caindo um a um. E à medida que as suas odes quer a Barroso, quer a Mexia, quer a tanto outros ia esbarrando sucessivamente nas falcatruas que estes iam cometendo.

      E ele, jose, num esforço árduo de branqueamento de crimes e de criminosos ( os de colarinho-branco, pois então), defendia os acumuladores de riqueza e os corruptores ( são os ricos que corrompem,está explicado)

      E tem estas "ansias " pela "enorme hipocrisia dos corrompidos"…que como se sabe são as mais das vezes os corruptores de ontem ou os de amanhã.»

      […]

      Felizmente, as deficiências deste atraso de vida, chamado «Jose», são bem conhecidas.

  • Jose

    15/07/2020 às 20:46

    «para o assalto aos céus», para a promoção dos infernos.

    • Nunes

      18/07/2020 às 9:37

      Olá, Burro!
      Como é que vai a tua «Tele-escola»?
      Ou será antes «Telescola»?
      Hei, burrico, ainda continuas a vir aqui?
      Caramba, temos aqui alguém insistente.
      Um burrico insistente.

    • Nunes

      18/07/2020 às 15:51

      Mais um precioso comentário de «JE» a respeito do estúpido e imbecil «Jose», em Ladrões de Bicicletas:

      «Ao jose "os processos de corrupção sempre (o) impressionam pela enorme hipocrisia que está associada à desvalorização do papel do corrompido".

      Pois é. Isso sabemos nós.Andou por aqui a defender o direito aos corruptores corromperem assim daquele jeito fofinho, aqui em baixo transcrito:

      "É estúpido ignorar que se há corruptores é porque há corruptos, e pelo que sei são os corruptos que promovem a corrupção e não o contrário"

      Não se riam por favor. Mas eis diante de todos nós o conceito de "cultura de honestidade e rigor" dum que afinal não passa de um treteiro»

      […]

      É caso para dizer: «Chega-lhe com força, JE!»

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