Quem travou a austeridade é quem a pode inverter

Nacional


O acordo entre PS, BE, PCP e PEV representa a possibilidade real de travar a cada vez mais veloz trajectória de austeridade e ataques aos direitos dos trabalhadores inaugurada com o 25 de Novembro.

Esse acordo não escamoteia a história, a natureza de classe ou a tradição política do PS ao longo de 40 anos, mas põe em evidência a preponderância do factor que, malgrado a identidade do PS, nos levou a um entendimento que poderá beneficiar todos os trabalhadores portugueses. À semelhança da actual correlação parlamentar das forças partidárias, os avanços sociais que um eventual governo liderado pelo PS poderá trazer dependerão da capacidade de luta do povo português. Foi a luta dos trabalhadores que impôs uma mudança de política. Será a luta dos trabalhadores a sua garantia, mas também o seu fiador, juiz e, se necessário, agente de execução.

Esta tese é confirmada pela estratégia de tensão posta em marcha por uma direita crescentemente radicalizada e disposta a arriscar cada vez mais: do despudor cartista de Cavaco ao terrorismo mediático orquestrado pela comunicação social dominante, o pânico quase unânime do grande capital é bem revelador dos posicionamentos de classe a que obriga este modesto acordo. A actualidade da luta de classes está, assim, à vista de todos: não vai parar, não deve parar nem poderia parar. A sua intensificação é a intensificação das contradições económicas e sociais do capitalismo.

Cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações sindicais e políticas acumular, na luta, a força para derrotar o golpismo e transformar a travagem da austeridade numa inversão de marcha. Da mesma forma que o grande capital intensifica a sua luta para impedir a travagem da austeridade, a intensificação da luta dos trabalhadores será a única garantia de que o que foi assinado é cumprido, sendo também o factor determinante na estabilidade de qualquer governo.

E nada disto reduz a importância da natureza de classe de cada um. Pelo contrário. Numa experiência científica levada a cabo há alguns anos numa universidade húngara, um cão doméstico e um lobo tentavam abrir uma caixa com comida: o lobo procurava roer a caixa, contorná-la, compreendê-la, arrastá-la, vencê-la. Já o cão doméstico, falhando no objectivo de abrir a caixa, olhava invariavelmente para o dono.