Somos todos …

Nacional
A frase, sem dúvida bela, do sub-comandante Marcos – pesem as dúvidas sobre a personagem e quem é e o que foi – que se espalhou por tantos cantos do mundo, tem tido hoje um novo fulgor.

“Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestino em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México. Enfim, Marcos é um ser humano qualquer nesse mundo. Marcos é todas as minorias não toleradas, oprimidas, que resistem, exploradas, dizendo Já Basta! Todas as minorias na hora de falarem e as maiorias na hora de se calarem e aguentarem. Todos os não tolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos.”
Hoje, a frase do sub-comandante está nas páginas sociais de muita gente e a sua forma afirmativa de dizer que está na pele dos oprimidos tornou-se moda de tal forma que quem não for Charlie, ou quem não for Grego, ou quem não foi alguma coisa, merece reprovação imediata. Na verdade, Marcos falou figurativamente. Claro. Tal como todos os que são Charlie, e os “somos todos Gregos” e os “somos todos Palestianos” ou o que quer que sejam. Figurativamente. O tom lírico faz parte do romantismo revolucionário, apesar da assustadora realidade que nos convoca para uma abordagem o mais realista possível.

O lirismo é um recurso que uso e alimento. Mas o lirismo não pode ser a capa sob a qual escondemos o nosso comodismo, a nossa conformidade. Quem dá a vida pela revolução, quem se confronta com a morte (como não sei se Marcos alguma vez fez), tem certamente uma margem de tolerância para o uso das figuras de estilo muito além da minha. Eu não sou Marcos, não sou Charlie, não sou Grego, nem sou nenhuma das vítimas mortais das guerras, nem sou um operário desempregado, nem um professor mal-pago, nem um enfermeiro emigrado, nem um doutorado atrás de uma caixa de supermercado, nem sou um manifestante espancado ou um grevista ameaçado. Não sou um estudante sem dinheiro para propinas, nem um velho a morrer às portas das urgências dos hospitais. Não sou um artista que mendiga para comer, nem um homossexual a querer adoptar um filho. Não sou uma mãe solteira nem uma criança que ficou sem abono de família. Eu não perdi o rendimento social de inserção, nem sou vítima de violência doméstica. Não sou sequer um trabalhador explorado no momento em que escrevo.

A hipocrisia de querer ser tudo deixa-nos, por vezes, apenas o papel de não sermos nada. Ou de sermos pouco. Ou de sermos menos do que podemos ser. Porque juntos somos uma massa de seres humanos, todos diferentes, de condições diferentes, num sistema que nos separa pelo individualismo ao mesmo tempo que nos une pela exploração. O mesmo sistema, a mesma organização social que nos divide para nos enfraquecer, está a educar-nos para a revolta inexorável.

Eu não sou tudo e mais alguma coisa. Mas sou comunista. Integro a luta, como posso, como sou e não como Charlie, nem como Grego, nem como espécie ameaçada de extinção. Os meus princípios e o meu comportamento não são, apesar de poderem ser ampliados por essa forma, metáforas. A nossa luta, a dos revolucionários, a dos comunistas, não é uma metáfora, nem uma fotografia de perfil no facebook. A nossa luta, a dos revolucionários e comunistas não é um acto simbólico, é uma marcha diária, plena de derrotas e desânimos, como assinalada pelas maiores vitórias e conquistas que a Humanidade já construiu. É por isso que os comunistas não são toda a gente ao mesmo tempo, mas são gente que luta pela Humanidade a todo o tempo. A Humanidade será vitoriosa sobre o seu passado, como até aqui tem sido.

Ser Charlie na redacção, ou ser indígena em Chiapas, gay em S. Francisco ou trabalhador explorado ou desempregado em Portugal não me habilita mais a ser consciente sobre o que me rodeia. Ter consciência do que sou e de que é aqui, no meu espaço, no meu país, que mais posso contribuir para a libertação de todos em qualquer parte do mundo, não é tão lírico, nem tão cómodo. Porque ser tudo em toda a parte não me daria tempo para ser coisa em alguma em espaço nenhum. Aqui, onde estou, comunista, é onde a luta diária me chama e convoca. É aqui e é hoje que damos o testemunho do que somos, por que lutamos, o que fazemos por um mundo melhor. É aqui e é hoje que nas acções, sem ser outra pessoa, nos libertamos daquilo que nos prende a todos.

E aquilo que nos prende a todos é o domínio de uma classe sobre outra. Se a inversão desse domínio ou até mesmo a sua extinção terminariam todas as injustiças? Talvez não. Mas será certamente o passo fundamental para que as possamos eliminar. Quando eu me sentir compelido a ser um cartoonista assassinado que não sou, posso sempre usar essa força para que ninguém seja. Se eu for o que não sou, luto onde não estou?

Porque, apesar de tudo, eu não sou. Nem tenho de ser. Tal como ante o assassinato de 38 sindicalistas ucranianos não fomos todos sindicalistas, nem ante o massacre de mais de 2 milhões de comunistas na Indonésia fomos todos comunistas.

Ainda bem que Marcos não disse: sou um czar na Revolução de Outubro, mas aquela frase dava para tudo.