Tragédia grega, agora em HD

Nacional

Grécia. Renegociação. Haircut. Não pagamos. Já pagamos alguma coisa. Estamos a negociar. Temos esperança num acordo. Para já não há acordo. Estamos muito perto de um acordo. Nunca obrigámos os gregos a nada. Cachecol. Cedências. Compromisso. Povo grego. Recuo. Avanço. Pode parecer estúpido o que estou a dizer. Eurogrupo. Comissão Europeia. Varoufakis. Schauble. Tsipras. Lagarde. Maria Luís. Declaração conjunta. Salário mínimo sobe. Salário mínimo não sobe. Juncker. Dijsselbloem. E por aí fora…

E quem é que se entende no meio disto tudo? E é suposto alguém entender-se no meio disto tudo? Há várias formas de manter o que existe: simplesmente manter o que existe; mudar pequenas coisas e propagandear que se estão a fazer alterações de fundo no que existe; mudar uma grande coisa mas que permite que a maioria do que existe fique exactamente como está; mudar os nomes que se dão às coisas para que o que existe fique exactamente onde e como está.

Há quem se sinta enganado e jure a pés juntos que a CEE, agora UE, não foi criada para isto, e que os seus fundadores se sentiriam envergonhados com a tragédia a que assistimos no tempo presente. A única concessão que me parece possível fazer é afirmar que os fundadores eram um pouco mais humanistas que os actuais governantes europeus. Viveram guerras demasiado absurdas e sangrentas para não perceberem que a paz era o bem mais precioso para o desenvolvimento dos seus negócios e interesses de classe.
Na sua génese a União Europeia surge como projecto de pacificação da área mais rica do continente europeu para que essa mesma área, estabilizando-se, cresça economicamente e ganhe uma preponderância decisiva no tabuleiro económico mundial.

E partindo daquilo que começou como um projecto económico, percebeu-se que o polvo tinha capacidade para alargar os seus tentáculos. A paz estava alcançada, o lucro disparava, mas o lucro precisa de alimento para ganhar corpo e saúde.

É aqui que surgem os alargamentos a outros países, os sucessivos tratados, a constante imposição de novas regras que objectivamente – embora sem sufrágio popular – transformam os diferentes Estados em peças de um grande Estado Federal, levando à evidente diminuição da soberania nacional, é aqui que assistimos à entrada fulgurante e corrosiva do sistema financeiro nas escolas de economia e nos partidos políticos que ditam as leis europeias.
É aqui que as duas famílias políticas que criaram a UE, sociais-democratas e democratas-cristãos, vão sucumbindo ao canto de sereia desse sistema financeiro, esquecendo a parte de serem democratas, sendo adeptos de um socialismo que serve apenas para salvar as grandes empresas da falência e certamente envergonhando os cristãos que ainda se regem pelos valores sociais da Igreja de Pedro.

E tudo foi correndo razoavelmente bem até começar a correr mal, coisa própria da ganância cega. Os países pobres que entraram na UE estavam objectivamente a crescer, os milhões diários que neles eram injectados teriam, obviamente, que surtir alguns efeitos, mas entretanto alguém se lembrou de criar uma moeda única em cima do joelho e o barco começou a meter água.

No fundo do barco estão neste momento os gregos. Elegeram um novo governo que promete dar-lhes ar e que começou por bater o pé aos que ainda se passeiam à tona. Voltou a falar-se em Democracia, voltou a falar-se em mudança, em esperança. Mas o que consegue um governo incómodo agindo sozinho? Como estamos a ver, pouco ou nada. E não é por ele ser mais ou menos competente, mais ou menos ágil e sábio politicamente, é porque a UE não foi criada para ser democrática, a UE foi criada para fazer dinheiro, para engordar as contas na Suíça, as empresas sediadas no Luxemburgo, os bolsos dos administradores que todos os dias espreitam as Bolsas de Valores para perceberem se o gráfico subiu ou desceu. A UE foi criada para cristalizar o capitalismo como única opção política de qualquer governo eleito.

O Syriza, ou qualquer outro partido de governo que queira realmente alterar a direcção política da UE, só o conseguirá fazer quando não estiver sozinho, quando encontrar apoios noutros governos. Duas coisas ficam mais claras no meio desta embrulhada toda: a palavra Democracia não se conjuga com União Europeia; qualquer país da zona Euro que queira recuperar a sua soberania, rasgar definitivamente com o Tratado Orçamental, e que se encontre isolado, só tem uma alternativa, a saída da moeda única. Essa saída será certamente complexa e exigirá um apoio imediato de outros países poderosos e emergentes no tabuleiro económico mundial e, a nível interno, é necessário que o governo que assuma esta posição tenha um forte apoio popular e uma grande capacidade de resistência a todos os ataques que irá sofrer durante o processo.

Também há outra lição a tirar. Não adianta gritar a plenos pulmões que se apoia sem reservas um partido estrangeiro. As realidades sociais, a correlação de forças, a História, os interesses geo-estratégicos e económicos são diferentes e por isso a acção política, até de países da mesma família, não será nunca igual. Uma excessiva colagem, neste caso, ao Syriza, e imaginando que a coisa possa correr mal, levaria de forma irónica a que fossem os seus apoiantes internacionais a clamar que o seu país não é a Grécia, numa tentativa desesperada de descolagem do falhanço.
A situação da Grécia e do seu povo é, sem dúvida, merecedora da solidariedade e apoio internacional, mas é mais merecedora de análise e estudo do que de apropriação da estratégia e táctica política do seu governo.

Ensinam-nos que na Grécia se inventou a Democracia, talvez tenham de nos ensinar que foi por causa da Grécia que a Democracia se mostrou inviável dentro desta organização política da UE. Apesar de a palavra o afirmar, não é com esta democracia do voto praticada pela UE que o povo terá o seu governo.

Ensinam-nos que foi a UE que trouxe e consolidou a paz no continente europeu, talvez tenham de nos ensinar que foi a mesma UE que nos obrigou a tocar de novo os tambores da guerra. Esperemos que não, mas se assim for, que seja desta que o povo toma em mãos o seu destino e transforma a UE na União dos Povos Europeus.