Um conto de natal

Nacional

Uma vez, aterrei num país em que o natal era todos os dias. Ao contrário de Lisboa, não havia sem-abrigo debaixo dos enfeites. Nem por cima, nem em lado nenhum. Procurei-os por todas as partes e expliquei aos que por mim passavam que do outro lado do mar, onde vivo, os mendigos cumprem uma função espiritual de primeira ordem. São o oxigénio da caridade. Sem eles, não se podem encher páginas de jornais com louvores à singular generosidade dos ilustres que tendo dinheiro subtraem parte do sofrimento humano para saldar as suas dívidas de luxuria e ganância.

Os mesmos que são razão da miséria em que se afunda todo um povo não deixam de abdicar de uma ínfima parte do que nos roubam para resgatar por um dia os que não têm outro destino que a pobreza. Foi o que lhes disse e, ainda assim, não me souberam mostrar enxames de mulheres e homens como os que já vi à espera dos voluntários que distribuem comida e cobertores. Mas como raio exorcizavam pecados os ricos daquele país? Onde estavam as grandes superfícies que lucram com a pobreza? E as grandes tendas para que os indigentes possam, uma vez por ano, jantar com alguma dignidade durante o directo dos telejornais?

Sem enfeites, a humanidade celebrava-se todos os dias. Naquele país, não havia taxas moderadoras, nem propinas. Depois de uma vida de trabalho, os reformados não cortavam na comida para comprar medicamentos. A população não vivia encerrada nas suas casas à espera de mais um dia de trabalho, enriquecia-se nas salas de teatro, no cinema e nos estádios de basebol. Explodia de alegria em festas e nas ruas. E por serem tão humanos é que os teólogos da caridade lhes queriam embargar a felicidade. Nesses dias, não vi presépios mas vi cartazes enormes com a cara de cinco homens que viviam encerrados nas masmorras dos que só querem o natal uma vez por ano.

Até que, finalmente, regressaram a casa. Não, não se trata de um milagre. A única estrela que os guiou até Havana foi a da solidariedade internacionalista e da força colectiva de um povo que nunca deixou de reclamar os seus heróis. E a tragédia capitalista de vincular determinados valores a um só dia ergue-se precisamente sobre a necessidade de não entendermos que a pobreza não está predestinada. Não há qualquer rosto humano nos que determinam que devemos viver na sombra da exploração e da miséria. E muito menos teremos outro futuro se persistirmos em dar a outra face.