Um excesso de fraternidade

Nacional

“(…) possíveis 33 mil (…) que virão de toda a parte do país e que findo o Avante partirão para toda a parte do país. Aliando a isto toda uma atmosfera de fraternidade e união.” Este é um dos argumentos com que nos podemos topar na maré de comentários que têm sido feitos em milhares de publicações, relacionadas directa, indirectamente ou mesmo alheias ao tema da realização da festa do avante!

É uma bonita frase. E é verdadeira. Mas nos tempos que correm ler isto fará ecoar em muitas mentes a ideia de que na festa do avante! as pessoas tocam-se umas às outras de forma incontrolada. As mais perversas entenderão isto como uma orgia de proporções multitudinárias. E não estou a usar uma figura de estilo: há de facto quem julgue a festa como o ajuntamento de uma horda selvagem dada a abusos de toda a ordem sem as mínimas preocupações de higiene ou segurança. São os mesmo que consideram que os comunistas são desprovidos de cérebro, de livre arbítrio, que, sabe-se lá porque razão, tiveram as suas vontades alienadas em favor de líderes tiranos, megalómanos e cruéis. E também aqui não estou, infelizmente, a usar uma figura de estilo, basta ler o que é publicado, de forma cada vez mais desenfreada e despreocupada, em jornais ditos de referência e dito por supostos analistas políticos acerca da Coreia do Norte, da China, da Venezuela e de Cuba, com o objectivo de descredibilizar os comunistas. São, entre outras coisas que dizem, pessoas que dão os seus familiares de comer aos cães.

Na mesma linha de descredibilização encontramos o discurso dos agentes do regime e seus seguidores que falam em partidos responsáveis, supondo a existência de partidos irresponsáveis, em esquerda democrática, supondo a existência de uma esquerda não democrática, partidos do arco do poder, supondo a existência de partidos que não podem alcançar o poder.

Os arautos do poder afanam-se em pintar os comunistas como irresponsáveis, ignorantes na sua maioria, pérfidos os dirigentes, egoístas.

Nada de novo não fosse o contexto em que se inscreve esta nova onda de ataques ao PCP. Nos dias que correm não se pode argumentar politicamente. Consciente ou inconscientemente muitos assumiram que há que abdicar da luta política. Isto representa, em consequência, abdicar da própria democracia, abdicar de reivindicar mudanças ou protestar, abdicar da diferença de pontos de vista. Foi assim no 25 de Abril. Assinalar solenemente a data maior do nosso regime constitucional foi considerado por muitos comentadeiros de serviço uma desfaçatez, mais dispensável do que, por exemplo, a laboração de uma fábrica de gelados no mesmo dia e à mesma hora. Foi assim com o 1° de Maio. Apesar do gigantesco ataque aos direitos dos trabalhadores uma avalanche de vozes insurgiu-se contra aquilo que dizia ser uma perigosa e insultuosa excepção nunca lembrando que a mesma excepção estava aberta para a prestação de trabalho. Demonstrações de força dos trabalhadores eram (e são) um sacrilégio.

Agora somos forçados e condicionados pela lógica única das preocupações sanitárias. E é esse o único modo em que nos é permitida a defesa da realização da festa do avante! E no entanto, ainda assim, o veredicto está pré-determinado. Pouco importa que, com a demonstração prática, os argumentos contra sejam desmontados um a um. Distâncias, actividades simultâneas e espaços diversos que evitam concentrações, higienização, máscaras, ar livre, fiscalização, acompanhamento e articulação com a DGS, similitude com situações análogas do quotidiano, provas legais de que é permitido e não há excepcionalidade. Pouco importa que evoquemos a profunda incoerência na manifestação de preocupações. Os que se encarregam de formar a chamada opinião pública decretaram: a festa trará consequências avassaladoras para a saúde dos portugueses. E isto é, no quadro presente, tudo quanto basta.

Caímos num vórtice temporal e voltámos à Idade Média. Domina a ideia de que estamos a viver o armagedão e, como em toda a religião, os dados, a informação, o conhecimento, e nem mesmo a coerência importam face ao dogma. Apenas subsiste a crença de que não há mal maior do que contrair o Sars-CoV 2, de que todos corremos um gigantesco risco de ver as nossas vidas ceifadas por este vírus avassalador, que voa, salta, trepa paredes, enfia-se pelos poros de todo o corpo, resiste ferozmente mesmo em ambientes em que não se pode multiplicar. É a escatologia pura e dura.

Já não importa que o objectivo primeiro do combate à pandemia, em quase todos os países do mundo, não foi o de eliminar o vírus, porque isso seria uma empresa impossível à escala global, mas o de salvaguardar os serviços de saúde evitando o seu colapso através da mitigação. Os gráficos didácticos mostrando as curvas de contágios atravessados ou não pela linha representativa da capacidade dos serviços de saúde ficaram esquecidos nas publicações de Março. Já nem se fala das carências do SNS. Todas as carências são desculpadas desde que não morra ninguém com covid 19. Na realidade, no presente momento não existe sequer uma política de saúde e para a saúde, apenas de doença, e praticamente de uma só doença.

E como em toda a religião digna de o ser e em toda a mentalidade medieval que se preze, a dúvida e o questionamento são imediatamente arrumados na prateleira da heresia. Já nada se pode discutir sem o pressuposto do irremediável mal. Se na actual discussão sobre a realização da festa do avante o veredicto está feito, imagine-se se o PCP ousasse desvalorizar a perigosidade do contágio. Era sentença de morte e execução sumária na certa. Imagine-se se fosse evocado o Nobel da Química, Michael Levitt, e as suas demonstrações de que o risco de morte normal é superior em 3 semanas ao risco de morte por covid 19. Imagine-se que fossem lembradas as comorbidades e a sindemia associadas à covid 19 e defendidas melhores condições de saúde e de vida em lugar de mais restrições. Seria, certamente, interpretado como um sacudir de responsabilidades na melhor das hipóteses.

São estes os tempos em que a própria fraternidade e a união constituem uma arma de arremesso contra os comunistas. Os comunistas que, de resto, são tão vítimas da situação como o resto do povo, têm dúvidas, têm receios, partilham das mesmas privações, das mesmas angústias. Morreram militantes nos últimos meses, muito queridos pelos seus camaradas que não puderam estar presentes nos seus funerais, viúvas e órfãos que não puderam ser abraçados pelos seus camaradas, comunistas que, há semelhança de muitos não comunistas, não podem abraçar pais e mães, avós militantes que, tal como outros avós não militantes, não podem tocar nos seus netos. Sim, nós os comunistas estamos habituados a ser desumanizados caso contrário sentiríamos a crueldade da acusação de que a nossa fraternidade e a nossa união não abarcam todo o povo trabalhador. Combatendo o medo e lutando pela razão, ainda que insultados em muitos sítios, batalhamos pela emancipação do povo português, não fazemos a festa contra ele mas por ele. É esse o nosso excesso de fraternidade.

8 Comments

  • Jose

    22/08/2020 às 9:54

    Parece-me razoável que a doutrina dos coitadinhos possa, pontualmente, ser usada pelos seus autores.

    • Maria

      22/08/2020 às 22:07

      Na verdade, aqui, o coitadinho és tu.

    • Jose

      23/08/2020 às 19:30

      Fico tão confortado, Maria.
      A tua solidariedade significa tanto ma mim!

    • Nunes

      25/08/2020 às 11:13

      O atrasado mental do «Jose» passou as suas férias no «Manifesto 74».
      Limpa as fezes que fizeste nas cuecas, Jose. Ao menos, faz isso à tua mãe.

    • Maria

      27/08/2020 às 20:07

      Neste blog fazes o papel de ridículo, Jose.

  • Manuel Gouveia

    21/08/2020 às 10:35

    Estás desactualizada. Na Coreia agora retiram os cães às pessoas para serem comidos. Ainda não se sabe se o tio que havia sido comido por um cão vai ser agora obrigado a comer o cão que o teria comido.

    • Nunes

      22/08/2020 às 13:46

      Andas a ver muitos filmes com cães…

    • Maria

      22/08/2020 às 22:06

      Onde conseguiu essa informação? Será que esteve na Coreia? Viu com os seus próprios olhos? Ou terá sonhado isso?
      Será que tem pesadelos de norte-coreanos a comerem cães ao pequeno-almoço?

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