Avante: unidos pelo fio que nos separa

Nacional

Inédia prodigiosa ou anorexia mirabilis é o nome com que a taumaturgia católica designa o prodígio de sobreviver sem alimentação. São Nicolau, santo padroeiro dos suíços, por exemplo, foi expeditamente canonizado quando, na sequência de um sonho em que viu um cavalo a comer um lírio, abandonou a mulher e os dez filhos para ser eremita, sobrevivendo durante os dezanove anos seguintes numa ravina muito isolada – um detalhe relevante, note-se – sem outro sustento que não a fé.

Como é sabido, os portugueses nunca foram tão dotados como os suíços para a inédia prodigiosa e, em geral, para a passagem da fome. Quiçá, não fosse o ímpio povo português tão descrente, bastar-lhe-ia como principal sustento a eucaristia e, à sobremesa, um lírio. Ainda assim, mesmo que percamos na pontifical secretaria em títulos de beatificações e canonizações, nem por isso são menos fantásticos os nossos pequenos milagres. Na memória das nossas famílias, muitos santos houve capazes de operar o milagre da divisão de uma sardinha por seis filhos, ou o bem mais reiterado milagre da multiplicação do salário miserável pelo lucro formidável. Nem todos os santos usam auréola.

O milagre de que vos vou falar não precisa de santos nem do auxílio do Pai, do Filho nem do Espírito Santo, mas é único no mundo até para os padrões helvéticos: a Festa do Avante. Do que vive a festa comunista? Se lírios brancos não é certamente, de dinheiro também não, embora haja quem acredite no ubíquo milagre de dar a Festa do Avante simultaneamente prejuízos anuais e tanto lucro que o PCP só a faz por amor ao vil metal, ámen.

Talvez os alquimistas comunistas tenham redescoberto a crisopeia milagrosa da transmutação do ferro em ouro, porque decidiram fazer a Festa do Avante em moldes tão extraordinários que limitam obviamente o seu potencial financeiro. Em poucos outros eventos em Portugal haverá dez metros quadrados por pessoa em espaços abertos. Estamos a falar de 30 hectares para uma lotação máxima (que dificilmente será atingida) de 33 mil pessoas. Para que se entenda a escala, as imagens de satélite abaixo sobrepõem as áreas do Campo Pequeno e da Quinta da Atalaia: na Quinta da Atalaia cabem espaçadamente 51 Campos Pequenos. Poucos outros eventos neste país se poderão gabar de poder contar com brigadas de sensibilização e desinfecção com centenas de pessoas a garantirem permanentemente o cumprimento das regras de segurança.

Era bom que em todos os festivais, concertos, comboios, autocarros e postos de trabalho houvesse uma fracção do cuidado e da segurança comunista. Mas se de dinheiro vivesse a Festa, as produtoras dos grandes festivais não os teriam cancelado: ao contrário do que foi amplamente divulgado, a lei não proíbe taxativamente festivais, mas obriga ao cumprimento de regras que os tornam financeiramente pouco apetecíveis. A diferença entre os festivais de Verão e a Festa do Avante é portanto, não um privilégio mas o milagre de a Festa do Avante não ser um festival de Verão. Os comunistas não perguntaram: «vale a pena fazer a Festa e arriscar perder dinheiro?», perguntaram apenas «Quais são as regras e como é que as cumprimos?».

De que vive a Festa do Avante? De votos também não será, embora haja quem creia nas milagrosas profecias dos carismáticos que tanto auguram que a praga matará milhões, que o céu choverá gafanhotos e que o PCP perderá votos aos milhões como, dêem o desconto que estas coisas às vezes são misteriosas, faz a festa porque só pensa nos seus interesses partidários. Cercados por uma campanha de preconceito, desinformação e irracionalidade, era mais fácil aos comunistas cancelar a Festa do que fazê-la. Agora diz-se, claro, que a cruzada não tem nada a ver com o facto de ser comunista a festa, mas nunca os vimos espumar assim de raiva contra Fátima nem contra as corridas, nem contra os concertos pimba, nem contra as praias, nem contra os comboios, nem contra as manifestações do Chega. Agora diz-se, claro, que não é por seres comunista, mas vão exigir as actas da tua entrevista e inspeccionar cada letra do teu currículo e vão querer saber que notas tinhas no secundário e vão descobrir se quem fez a entrevista por acaso era de esquerda e vão desenterrar todos os teus posts e vão perceber ao certo como é que um comuna ali chegou, porque não é normal. Mas isto não tem nada a ver com anti-comunismo, claro. Já era tudo racismo e agora também é tudo anti-comunismo, querem ver?

Repito a pergunta. De que vive, então, a Festa do Avante? Este milagre não tem santos, tem sim profundíssimos segredos e mistérios para muitos insondáveis, porque é difícil de acreditar que neste país cada vez mais individualista, atomizado e solitário, em que os nossos objectivos de vida tendem para ser exclusivamente individuais e familiares, os comunistas ainda têm sonhos colectivos, que não terminam nos umbigos das carreiras, das eleições, ou de qualquer coisa que o dinheiro possa comprar. A Festa é feita deste sonho infinitamente generoso: ó camarada, vem cá dar os teus punhos, que tens mais força que nós! Toma lá o troco, pá, que eu sou menos pobre que tu! Dá-me cá a tua arte, que tens mais talento que eu. Toma lá a minha juventude, que eu ainda tenho mais anos que tu. Toma esta generosidade toda, que já não sei se é a minha ou a tua. Dá-me cá o teu conhecimento, que pudeste estudar mais anos que eu. Então toma lá a minha experiência, que já cá ando há mais anos que tu.

Nunca essa generosidade, supremo bem, foi tão indispensável como hoje. Faremos a Festa do Avante porque não podem vencer os chegófilos munidos de medos, ameaças e silêncios. Faremos a Festa para não ganharem os fanáticos anti-vacinas nem os bebedores de cloroquinas. Faremos a festa contra os cervos empreendedores, como certeiramente lhes chama a Fátima Vale (que, para quem não sabe, é a maior poeta viva do rectângulo). Faremos a festa porque acreditamos na democracia, na liberdade e na ciência.

E por essa mesma razão há-de ser bonita a festa, pá. Apesar do distanciamento, que cumpriremos com a disciplina das gambiarras: unidos pelo mesmo fio que nos separa, que nos alimenta e nos acende como se fossemos um só. Nós somos, afinal, a gambiarra que une os fusos horários onde ainda é noite no mundo.

Para quem não acredita nisto, a festa será sempre um milagre. Pelas contas deles já devia ter desaparecido há anos, mas resiste e persiste e cresce. Esses, nunca a compreenderão. Podes linkar-lhes a lei dos festivais as vezes que quiseres para provar que não há excepção; podes elencar-lhes as medidas de segurança em conformidade com a DGS ou podes até apontar-lhes para o resto do mundo a arder. Sempre sonharam com «cancelar» a Festa do Avante, mas nunca poderão cancelar-nos a todos e à nossa memória, que também vai connosco.

É que quem já foi à Festa do Avante, saiu de lá um pouco mais livre do que entrou. Atalaia É uma zona libertada num país de gente presa. Presos a salários de miséria, presos ao desemprego, presos às dívidas impagáveis, presos ao trabalho, presos aos horários intermináveis ou presos aos telemóveis. Mas durante aqueles três dias, somos iguais e somos livres.

Para eles será sempre milagre nós irmos, como cantava o Zeca, sem sabermos de dores nem mágoas. Lembras-te? Das praias do mar onde o vento cortou amarras na baía do Seixal? Lembras-te das vagas, virando a proa à nossa galera, no mar de gente a descer à noite em direcção ao Palco 25 de Abril? Lembras-te de navegarmos na fresca brisa, onde a vitória ainda nos espera para dançar a carvalhesa? E não andamos ainda todos, de formas diferentes, é certo, à procura da moura encantada? E não esperamos, no fundo, que ainda venha a manhã clara?

Para eles será sempre com tristeza ou por milagre que não morra ninguém por causa da Festa do Avante. Para eles, só por milagre é que a Festa será mais uma vez um exemplo de segurança, disciplina e organização. Mas eles também já julgavam esgotadas todas as metáforas revolucionárias, mas já alguém tinha comparado a revolução a uma grande gambiarra?

15 Comments

  • carlos

    07/09/2020 às 15:23

    Tem poesia até na ironia/sarcasmo. Belíssimo.

  • Maria Helena

    07/09/2020 às 14:27

    Bravo! Conseguiram exprimir em palavras o sentimento de justiça e de genuína camaradagem que nos dá uma força telúrica invencível

  • Antonio Jose Fernandes

    27/08/2020 às 17:32

    Apenas uma palavra;Excelente!!

  • Manuela

    27/08/2020 às 10:32

    Belo texto. Obrigada.

  • Joaquim Pinto

    27/08/2020 às 2:06

    Excelente texto.

  • Joaquim Pinto

    27/08/2020 às 2:06

    Excelente texto.

  • Jose

    26/08/2020 às 11:28

    Nem uma palavra para o milagre de som até ao último dos Campos Pequenos!

    • Nunes

      26/08/2020 às 19:58

      Este comentário foi removido pelo autor.

    • Nunes

      27/08/2020 às 9:34

      Confuso? Alguém poderá perceber o que este imbecil – o Jose – acabou de comentar no blog «Ladrões de Bicicletas»?

      (…)

      «Três notas sobre a referida extrema-direita:
      – Num parlamento esquerdizado,cultivando um corretês não raro a paredes meias com a idiotia, o extremo à direita não o faz extrema-direita.
      – O seu único deputado foi seminarista e militante com algum destaque no PSD.
      – Se Salazar foi bastião anti bolchevismo, não faltam bolchevistas no parlamento, donde ser inevitável que haja aproximação a Salazar de quem se lhes oponha.

      A invocação do Hitler apela à idiotia de aproximar a direita do totalitarismo e da supremacia rácica.
      O totalitarismo é ideologia que é fundamento filosófico da esquerda e em seu nome foi e é praticado; o fascismo limitou-se a adoptar-lhe os princípios e a compô-los para manter a propriedade e gestão privadas, ainda que impondo-lhe limites que mantivessem a acomodação dos seus dirigentes,.
      A supremacia rácica teve apoio numa pseudociência que se provou ser falsa e foi utilizada no alicerçar de um nacionalismo guerreiro, que quanto a este aspecto teve inúmeros seguidores mais ou menos encapotados. Invocá-la nos seus termos fundadores é pura estupidez populista.»

      (…)

      Como diz bem JE:

      «Jose apanhado em contra-pé faz lembrar outros dos seus tempos

      Em 2012, quando as coisas pareciam ir de feição a uma direita caceteira e trauliteira, jose assumia-se deste modo:
      "Deves ser novato ou esquecido. A esquerda está no poder há 38 anos!»

    • Maria

      27/08/2020 às 20:10

      O Jose é o maior provinciano deste blog.

    • Jose

      28/08/2020 às 15:33

      Honrosa distinção, Maria!

    • Nunes

      29/08/2020 às 22:46

      Jose, o distinto provinciano do «Manifesto 74». Quem diria…

    • Maria

      05/09/2020 às 20:32

      Jose, um distinto saloio.

  • Carlos Santos

    26/08/2020 às 9:31

    Artigo muito bom e esclarecedor, gostai.

  • Unknown

    25/08/2020 às 22:07

    Excelente artigo. Gostei

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