Do cotovelo da Terra à pestana do Mundo, eis que o Feminismo-L’Óreal voltou a cruzar o estreito de Ormuz. Tem barbas mais brancas do que as do próprio Ayatollah esta obsessão do Ocidente com o que as mulheres vestem nos países de maioria muçulmana, tendo-se fossilizado uma lógica pobrezinha, já aqui endereçada, em que os níveis de liberdade sobem tanto quanto a bainha das saias, numa relação de proporcionalidade directa. Dir-se-ia que também por aqui paira uma nova polícia da moral, aliada à polícia da moda. Pois que, para as feministas liberais, negacionistas da luta de classes, trata-se bem mais de moda do que de emancipação colectiva. Essa mesma obsessão tem sustentado e feito circular uma igualmente pobre ladainha sobre “libertação” das mulheres. Curiosamente, note-se, falamos de mulheres que têm por destino nascer entre o Top 10 dos produtores da OPEP. Para todos os males, bombas. Assim como assim, mulheres mortas não usam hijab.
Num momento em que, de repente, todos se fartaram de ser especialistas em therians para se tornarem especialistas em Teerão, separemos as águas: uma coisa é o Irão ser um dos únicos dois países que exige, por lei, que todas as mulheres cubram a cabeça em público, pressupondo a punição severa daquelas que não o façam; outra inteiramente diferente é celebrar a intervenção dos EUA como se de uma missão humanitária e civilizadora se tratasse. Uma coisa é condenar, a todos os títulos, o governo iraniano, quando mata, tortura e prende dezenas de milhares que ousam fazer-lhe oposição; outra é achar uma óptima ideia que a dupla EUA/Israel bombardeiem — sim, essa reconhecida táctica de exportar liberdade — um país soberano e matem o seu líder, sem que este tenha o direito de se defender. O governo iraniano não merecerá a simpatia política de nenhum progressista, mas a sua firmeza contra o imperialismo norte-americano e o sionismo genocida de Israel, as justas aspirações do seu povo e, naturalmente, das suas mulheres, deveriam merecer a nossa solidariedade inequívoca. Não há espaço para dispersões. E, ao contrário do feminismo liberal, que, de uma varanda de Abu Dhabi, segurando um matcha latte, projecta, à sua imagem, o futuro que as mulheres iranianas deveriam querer para si, a causa anti-imperialista não pretende falar por elas. Ainda estamos a discorrer sobre trapos? Ora, o Irão é muita coisa, mas não é, nem será, uma colónia — isso é que eles não toleram. Como terminaram todas as outras invasões americanas? Com nacionalização dos recursos naturais, democracia avançada, justiça social, paz e amor? Pois. Já se questionaram por que razão os EUA não precisam de “libertar” as mulheres da Arábia Saudita que, até há poucos anos, eram legalmente impedidas de tirar a carta de condução? Desde que o véu islâmico faça pandã com a trela do imperialismo, já pouco importa o primeiro. A polícia da moda aprova. A da moral, nem vê-la.
Quem, a reboque desta narrativa patética que instrumentaliza os direitos das mulheres, procura justificar o assassinato de quase 200 crianças com idades até aos 12 anos, numa escola básica, em Minab, referindo-se às mesmas como “danos colaterais”, não é de direita, nem de esquerda — é psicopata. O feminismo liberal é esse mesmo que, diante das câmeras, queima o retrato de Khamenei e, pela calada, queima vivas as meninas iranianas, antes sequer de se tornarem mulheres. Em lugar de tecer considerações sobre a natureza do “regime” — é assim que designam os governos que não baixam a bola aos EUA, não é? — dos Ayatollahs, há que ter em linha de conta a instabilidade política a que as potências imperiais sentenciam a região desde que há memória e que interesses nefastos se camuflam por detrás das suas “missões humanitárias”. O Irão, que se impõe naquele território que já nos deu tanto, de Khayyam a Kiarostami, tem sido alvo de reiterada ingerência externa por parte dessas potências exportadoras de liberdade à lei da bomba. A recordar, o golpe de 1953, orquestrado pela CIA e o MI6, que derrubou um primeiro-ministro democraticamente eleito, enquanto o mesmo procurava pôr fim ao saqueamento britânico do petróleo iraniano, para devolver o poder um Xá-fantoche, rosto de uma ditadura encomendada. Desde a Revolução de 1979, que só pode ser compreendida à luz do contexto regional, prossegue uma campanha de demonização que nos entra pelos noticiários adentro, simplesmente por a mesma ser incompatível com os interesses do imperialismo norte-americano no Médio Oriente. Por outras palavras, a soberania sempre foi uma maçada. Hoje, permanece um enorme inconveniente no caminho daquele Agent Orange em carne e osso que preside a uma nação doente, sedenta de uma crise de proporções bíblicas para conseguir sobreviver.
A posição do governo português, ou a sua total ausência, envergonha quem ainda dispuser de uma migalha de decência. Enquanto perpetuam o genocídio em Gaza, apertam o cerco ao povo cubano e ameaçam invadir a Gronelândia, servem-se os EUA do território português para massacrar inocentes a seu bel prazer. Rangel, dá a pata. Montenegro, faz de morto. Depois de sequestrarem o presidente de um Estado soberano, procedem ao assassinato do líder de um outro, desencadeando uma escalada belicista no plano internacional, ainda o ano do senhor de 2026 vai no princípio. Os comunicados das nossas instituições governamentais condenam, portanto, o ataque… do Irão!, possuidor, por certo, do mesmo tipo de “armas de destruição massiva” que detinha o vizinho Iraque. Não fosse a competição feroz por recursos naturais alheios e a manutenção da hegemonia global a todo o custo o propósito medular da dita land of the free, pareceria que o clã de pedófilos que dita os destinos do mundo começou uma guerra, apenas e só, para protelar a discussão sobre os ficheiros Epstein.
Ainda me lembro de quando Catarina Furtado & Lda. cortavam dois ou três centímetros do seu cabelo em performativa solidariedade com as mulheres iranianas. Onde estão elas agora? Nem o bombardeamento (double tap) de uma escola de meninas arrancou uma palavrinha às Tânias Graça ou às Claras Não desta vida, que se passeiam cinicamente pelas instituições europeias, cúmplices do pesadelo dos povos. Nisto, Mafalda Anjos quer convencer-nos de que o problema não são os EUA ou o seu projecto colonial, mas apenas Trump, que é maluquinho, porque os mísseis de Obama e Biden eram serviço público. Helena Ferro Gouveia já levanta pancartas em estrangeiro pela libertação do povo iraniano, comparando os ataques massivos de EUA/Israel ao desembarque na Normandia. Maria João Marques, para quem o referido bombardeamento e a morte de Khamenei foram, e cito, “um bom presente de anos”, nunca desilude — afirma que não há qualquer atropelo do direito internacional. Susana Peralta aproveita o balanço para desculpar as investidas desta Epstein Coalition — assim lhe chamam os persas — caracterizando o tal “regime dos Ayatollahs” como uma “teocracia carniceira”, por oposição ao de Trump e Netanyahu, que, evidentemente, e como toda a gente sabe, não são nada teocráticos ou carniceiros. Cereja no topo do bolo, o trio da Lei da Paridade presenteia-nos com mais um DJ set enquanto mulheres e meninas são consumidas por chamas e soterradas sob os escombros de edifícios seculares, despromovidas a “danos colaterais” de mais uma guerra imperialista.
Ao feminismo de Instagram, condenado ao caixote do lixo da História por culpa do seu próprio privilégio, só interessa a cosmética desta democra-CIA e a uma ilusão de liberdade, sempre individual; já aos EUA, que só libertam as mulheres, matando-as, interessa outro governo-fantoche — falta-lhes um Xá que dê a pata. O “regime”, esse, na verdade, é paisagem. Se vem na forma de um rei, um presidente, um boneco de neve, uma tesoura de poda ou um bróculo, é problema para a redacção do próximo Trivial Pursuit. Está tudo bem, desde que diga “yes, man”. Não importa se se tapam muito ou pouco, se usam turbantes ou tangas, importa é que prestem vassalagem. É, pois, com o selo de aprovação L’Óreal que o imperialismo norte-americano dá seguimento à chacina, sob promessa de que, um destes dias, com os seus países ocupados, os seus recursos naturais roubados e a sua cultura reduzida a cinzas, as mulheres d’aquém e d’além mar possam, enfim, ser exploradas de mini-saia. Feminismo sem luta de classes é dar luz verde à eterna metamorfose dos opressores, permitir que se revezem entre si, sem jamais os encostar à parede. Agora, ou se está com a Epstein Coalition, ou se está contra ela.
#1 Feminismo Liberal, Feminismo-LÓreal
#2 Feminismo L’Óreal em tempos de guerra
