Há vozes que informam. Outras que entretêm. Depois, há daquelas raras que ficam na História, não só pelo timbre ou a presença que transcende, mas pelo sentido que carregam. A de Cândido Mota era dessas.
Partiu o camarada de mil lutas, mas não se apaga a presença. Há vidas que não cabem no tempo em que existiram, mas que se prolongam na memória colectiva, na cultura que ajudaram a construir, na luta que nunca abandonaram.
Cândido Mota fez da palavra um lugar de encontro. Na rádio, abriu caminhos onde antes havia silêncio imposto. No 25 de Abril, a sua voz não foi apenas um instrumento, foi parte da própria libertação. Nos dias decisivos, no Rádio Clube Português, ajudou a dar forma sonora àquilo que o povo conquistava nas ruas. A palavra deixava de ser vigiada, passava a ser livre. E ele esteve lá, inteiro.
Foi tanto antes como depois daquela madrugada que se reconheceu a dimensão do seu percurso. Sendo militante comunista, nunca separou a cultura do compromisso mais amplo. Sabia que a arte não é neutra, que a palavra não é inocente, que a voz pode ser instrumento de alienação ou de consciência. Escolheu sempre o lado certo: ser a voz de uma cultura que se queria disruptiva e alinhada com a classe a que sempre pertencera.
Na Festa do Avante!, durante décadas, a sua voz tornou-se parte da própria identidade da Festa. Não era apenas quem apresentava. Era quem acolhia. Era quem marcava o passo, quem criava ambiente, quem, com uma sobriedade discreta, ajudava a transformar aquele espaço num território de fraternidade, cultura e luta. Ele era e será parte desse projecto de futuro que alavancamos e que a nossa Festa bem reflecte, apelando à participação de todos quantos queiram construir um futuro justo.
Para milhares, a Festa começava quando a sua voz se fazia ouvir. Era sua a voz que anunciava o início de 3 dias inesquecíveis, repletos de abraços, reencontros, amor e combate. E, nesse momento, havia algo mais do que programação cultural rotineira: havia comunidade. Havia trabalhadores, jovens, artistas, militantes, todos reunidos num espaço onde esse futuro justo parece mais próximo. A sua voz ajudou-nos a construir esse futuro, ainda que por instantes. Ajudou-nos a vislumbrá-lo, ao sol e à chuva, para que não mais o largássemos da mão.
Cândido Mota pertenceu a uma geração para a qual resistir não era apenas enfrentar a injustiça, mas era, também, transformação. Era criar espaços, criar cultura, criar consciência. Uma geração que não se resignou, que não se vendeu a outros interesses, que nunca traiu os seus ideais.
A sua forma de estar dizia tudo, mesmo quando já falava pouco. Rigor, coerência, disponibilidade, a serenidade de quem não precisa de provar nada, porque já escolheu o seu lado há muito.
Hoje, ao evocarmos o camarada Cândido Mota, não o fazemos apenas com saudade. Fazemo-lo com exigência. Num tempo de individualismo bacoco, em que tudo se torna mais superficial e descartável, a sua vida lembra-nos de que há outra forma de estar, mais firme, inteira e comprometida, que não é performativa, mas, pelo contrário, prima pelo compromisso constante.
O futuro constrói-se assim, não com grandes gestos isolados, mas com a persistência de quem, como ele, nunca deixou de fazer o que era preciso, onde era preciso. De quem transformava a excepção na regra.
E, por isso, mais do que uma despedida, esta é uma passagem de testemunho. Cândido Mota não irá até à Quinta da Atalaia para a 50ª edição da Festa que, indelevelmente, marcou, mas a sua presença e a sua voz continuarão a ecoar pelas suas avenidas. Ora, camaradas, amigos, visitantes da Festa do Avante!, façamos do exemplo de Cândido Mota um motor de esperança, com a convicção inabalável de que haverá sempre futuro enquanto houver quem sonhe.
