A Venezuela será tumba de fascistas

Nacional

Há muitos, muitos anos, quando já o fascismo português agonizava, a tragédia abateu-se sobre o povo chileno. A classe trabalhadora do país sul-americano havia cometido o crime de ambicionar uma vida digna e a esperança semeada pelos mil dias do governo liderado por Salvador Allende foi esmagada pela barbárie planeada em Washington e executada pelos homens de Augusto Pinochet.

Hoje, é a dignidade do povo venezuelano que tenta resistir à mira do imperialismo. As mesmas queixas sobre a falta de produtos prolongam-se em filas intermináveis que já haviam sido cantadas por Victor Jara numa canção a que chamou desabastecimento. Mais de 40 anos depois, o açambarcamento é dirigido pela orquestra da oligarquia venezuelana que afina pela pauta norte-americana.

Sem qualquer acesso à imprensa da época, penso não haver qualquer dúvida sobre o papel da comunicação social na guerra mediática contra o poder popular chileno. Que jornalistas portugueses escrevam, hoje, sobre a Venezuela as mesmas coisas que escreviam alguns dos seus antecessores, durante o fascismo, sobre o Chile, demonstra o grau de perversão democrática a que chegou a imprensa portuguesa.

A televisão, os jornais e a rádio fizeram eco da detenção de vários oficiais das forças armadas e do presidente da alcaldia metropolitana de Caracas. Mas caricaturaram ou esqueceram-se de dizer que estavam envolvidos num plano golpista que incluia bombardear Caracas e assassinar a maior figura do chavismo, escolhido para presidente pela maioria dos venezuelanos num processo eleitoral reconhecido pela maioria dos observadores e instâncias internacionais. Resta a pergunta: o que fariam os Estados europeus se algum grupo ousasse montar uma intentona para derrubar os seus governos provocando um banho de sangue?

Como em relação ao Chile, os jornalistas portugueses copiam o modelo dos seus antecessores fascistas e alinham na tese de que o problema do desabastecimento não é consequência de uma guerra económica mas antes do suposto falhanço da linha política do governo bolivariano. Como não têm qualquer conhecimento da história venezuelana, não sabem que a explosão social que se deu a 27 de Fevereiro de 1989 e que ficou conhecida como Caracazo se deveu não à falta de produtos mas ao aumento dos preços e à falta de poder de compra.

Os milhões que desde 1999 tiveram a oportunidade de construir a sua própria dignidade ao longo do curso da revolução não o esquecem. Neste momento, o governo prepara-se para construir 400 mil novas habitações para realojar a população mais pobre. Quem atravessa o centro da capital venezuelana pode observar alguns dos edíficios que fazem parte da missão Habitação Digna. Nos arredores, uma nova povoação com o nome Ciudad Caribia foi erguida de raiz para receber os seus novos habitantes.

Nas favelas que invadem as encostas montanhosas de Caracas, o programa Bairro Tricolor tratou de humanizar e dignificar as casas de milhões de pessoas. Para além de pintar as fachadas, fez o que mais importa. Tratou de rechear o interior com electrodomésticos e mobiliário. Tratou de resolver os problemas estruturais dos edifícios e o saneamento, a distribuição de água e a rede eléctrica. Sobre este plano que avança por todo o país, o responsável nacional afirmou que o objectivo também é político: «Vamos ao bairro construir a revolução, fortalecer a unidade do povo, as comunas, os conselhos comunais, as unidades de batalha e todas as forças sociais».

Aflige pensar que há uma tarefa gigantesca pela frente. Superar as contradições de décadas e décadas de miséria e exploração não é um objectivo que se possa concretizar em 16 anos. Há muito por construir ao mesmo tempo que a pátria de Bolívar e Chávez é alvo de todo o tipo de conspirações. Para lá das críticas e da acertada necessidade de radicalização do processo, a solidariedade internacionalista afigura-se como um elemento urgente para ajudar a derrotar as agressões económicas, mediáticas e militares geradas por quem quer devolver a Venezuela de volta ao século XX.

A direcção política da revolução bolivariana e todos os venezuelanos de diferentes forças políticas com que contactei estes dias coincidem em dois pontos. Que o povo deve levantar-se em armas no caso de haver uma intentona fascista e que isso suporia a aceleração do processo revolucionário. Nesse sentido, Nicolás Maduro deu 72 horas para que todas as estruturas afectas à revolução preparassem planos de defesa e resistência para o caso de haver um golpe. Uma coisa é certa, a haver uma agressão a Venezuela será tumba de fascistas.